Humberto Gessinger é um gênio incompreendido do rock nacional? Nessa segunda, 11 de janeiro, foi o aniversário de 25 anos do primeiro show do Engenheiros do Hawaii e o assunto gerou comoção no twitter, o que me levou à pergunta anterior. Fato é que a banda sempre possuiu uma relação de amor e ódio com crítica e público desde que lançou o primeiro disco, Longe Demais das Capitais, lá em 1986.
Eu, particularmente, só fui saber que não era legal gostar de Engenheiros quando entrei na faculdade. Até então, quando morava na minha querida Curitibanos, Humberto e sua trupe eram unanimidade e garantia de show lotado. Aí um dia eu comecei a ver as reclamações sobre os jogos de palavra simples das letras, do instrumental recalcado e retrô, mezzo progressivo mal tocado. E, bem, há coisas indefensáveis sobre o Engenheiros (como a letra de “Parabólica”, por exemplo), mas a banda – e Humberto, principalmente – pagou o preço de ter seguido à risca suas convicções durante toda a carreira.

O Miranda, quando entrevistou o cantor para a Bizz, disse que finalmente tinha entendido qual era a da banda: eles são caras que tomam leite no café da manhã. Em suma, pessoas normais, a antítese do que você espera de um rockstar. Por causa desse seu “jeitinho” normal e mais recluso, acabou que o Engenheiros nunca fez parte de turma nenhuma na história do rock nacional, trilhou um caminho paralelo e próprio, mesmo sendo da geração do rock 80, ficarando à margem da turma formada por Legião, Titãs, Paralamas. E mesmo na terra natal eles também eram excluídos – imagina, o Engenheiros valorizava a chamada MPG (Música Popular Gaúcha), tudo que Miranda, Replicantes, Cascavelettes e toda aquela turma do rock gaúcho odiavam. Até regravar música do Gaúcho da Fronteira (vídeo abaixo) eles regravaram.
Existe uma história sobre a gravação de “Terra de Gigantes” que explica esse posicionamento de “fazemos o que queremos, do nosso jeito”, uma atitude meio rebelde sem causa juvenil. Quando a banda gravava o segundo disco, A Revolta dos Dândis, um produtor que passava pelo estúdio ouviu a música e achou muito boa, dando a dica de que se a banda acrescentasse bateria à canção aquele seria um hit fácil. De birra, a música tem uma bateria que entra e sai – e a letra nem entrou no encarte. Mas a banda continuava fazendo sucesso, então as “irreverências” serviam para fortalecer o elo com o público.
Daí pra frente o Engenheiros construiu uma carreira linear e sem problemas de popularidade, sem ter que apelar para discos acústicos ou de versões para resgatar a fama – fenômeno bem diferente de todos de sua geração. Aliás, quando quase ninguém sabia o que era o tal formato acústico no Brasil a banda lançou o sensacional disco ao vivo Filmes de Guerra, Canções de Amor, em 93, último registro com o guitarrista Augusto Licks e que traz versões intimistas e recheadas de sentimentalismo para as canções. Na contramão do público, o egocentrismo e a mania de Gessinger de trocar as formações da banda tal qual um Sílvio Santos ajudaram a aumentar o ranço da crítica com o cantor e a banda.
Por isso é legal ver tanta gente citando letras de músicas de Gessinger no “Engenheiros do Hawaii Day”, que rolou no twitter para comemorar os 25 anos do primeiro show – aqui você confere tudo que foi postado. Porque Humberto Gessinger pode não ser nenhum gênio, errar muito quando insiste em jogos de palavras, mas quando acerta ele costuma ser muito bom.
P.S.: A quem interessa possa, os versos que eu postei no twitter e quem para mim são grandes acertos poéticos de Gessinger foram:
- “Viver assim é um absurdo como outro qualquer Como tentar o suicídio ou amar uma mulher” (de “Muros e Grades”)
- “Pergunte ao pó por onde andei há um mapa dos meus passos nos pedaços que eu deixei” (de “Ando Só”)
- “Não importa se só tocam o primeiro verso da canção, a gente escreve o resto sem muita pressa, com muita precisão” (de “Exército de um Homem Só”)
- “A dúvida é o preço da pureza, e é inútil ter certeza” (de “Infinita Highway”)
- “Devolva-me o que voce levou ou leve-me contigo, perca-se comigo” (de “Faz Parte”)
E pra quem achava que o Felipe Dylon tinha sido pioneiro nessa loucura de fazer rastafári…