Antes de mais nada, cabem aqui algumas considerações sobre essa lista extensa. Vamos a elas:
1 – Quando o Lívio me pediu a lista com 50 discos eu tinha acabado de fechar o meu Top 10 da década para o Scream & Yell. Para a eleição do SY (que teve seu resultado divulgado na quarta e está um ótimo panorama da década), como eram apenas 10 discos, resolvi não repetir bandas. Assim, quando tive listar os 50 melhores da década, me peguei pensando se deveria manter o Top 10 inicial, porque o Ventura e o Uhuuu! teriam lugar fácil neste post de hoje. Mas, para não alterar nenhuma lista, preferi continuar a evitar a repetição nas primeiras posições. Por isso Ventura e Uhuuu! são o 11º e o 12º lugar.
2 – Essa lista tem caráter totalmente pessoal. Todos os discos que ocupam o Top 5, por exemplo, foram extremamente importantes e significativos em algum (ou alguns) momentos destes últimos dez anos. Foram trilha sonora da minha vida, sendo bem piegas. Mas, é claro, o que mais balizou a lista foi qualidade estética e musical. Todos os discos deste Top 10 têm algo de transgressor, de particular, de sensacional. E, veja só, até por isso os cinco primeiros ganharam textinhos para explicá-los.
Abaixo, a última parte – e aqui os discos de 11 a 20, 21 a 30, 31 a 40 e 41 a 50. Leia, comente, xingue, critique, participe mas, o mais importante, escute. Estar de mente aberta para novas sonoridades e artistas é a coisa mais importante quando se gosta de música.
10 – Seres Verdes ao Redor – Supercordas (2006)

9 – A Farsa do Samba Nublado – Wado (2004)

8 – Doces, Refrescos e Tratamentos Dentários – Video Hits (2000)

7 – Japan Pop Show – Curumin (2008)

6 – Simetria Radial – Pipodélica (2003)

5 – O Exercício das Pequenas Coisas – Ludov (2005)

Poucas vezes durante os anos 00 uma banda brasileira fez um pop tão palatável e inteligente quanto em O Exercício das Pequenas Coisas. E olha que nem estou contando com “Princesa”, que entrou no disco como faixa-bônus. Já no refrão da primeira música do disco o Ludov ensina o caminho para este pop tão perfeitinho: “por que você se leva tão a sério?”. O clima leve e descontraído permeia as três primeiras músicas, no balanço suave de “Estrelas” e “O dia em que seremos felizes”. Mas é em “Dorme em Paz”, a quarta faixa, que a banda prova toda sua versatilidade, em uma balada soturna em um crescendo constante que culmina com um refrão poderoso, embalado pela linda voz de Vanessa Krongold.
Daí pra frente, o jogo estava ganho. “Kriptonita”, que virou tema de vinheta da Fox, traz a mesma intensidade de “Dorme em Paz”, mas agora balanceada pelo velho esquema estrofe-refrão-estrofe-refrão-solo-refrão-solo final, tão manjado mas tão saboroso ao mesmo tempo. O disco termina mais intimista e lírico, com as lindas “Todo Esse Ar” e “É Só Saudade”. Se o mercado fosse justo e coerente, com O Exercício das Pequenas Coisas o Ludov teria tomado de assalto o mainstream brasileiro e vendido milhares de discos.
4 – Daqui Pro Futuro – Pato Fu (2007)

Se o Pato Fu do início exala juventude e experimentalismo, Daqui Pro Futuro é o retrato de uma banda adulta, em sua maioridade, que sempre fez o que quis durante a carreira e que, aqui, não tem vergonha de tocar nos assuntos de seu dia a dia. Por que, afinal, agora Fernanda é mãe e a experiência muda o jeito de ver o mundo. Apesar de todos os álbuns da banda representarem fielmente o momento pelo qual eles passavam, Daqui Pro Futuro soa como a obra mais sincera da banda, em que eles mais se expuseram enquanto pessoas. Orgânico, com a menor quantidade de barulhinhos e experiências sonoras, ele ressalta as melodias doces criadas pelos mineiros desde os primeiros discos, lembrando que toda boa música deve ser facilmente cantarolável ao violão.
3 – Grandes Infiéis – Violins (2005)

O grande segredo do Violins é a união do peso de suas guitarras cheias de riffs entrelaçados e as letras filosóficas do vocalista Beto Cupertino, em uma melodia vocal leve. Grandes Infiéis é um disco sobre as relações pessoais confusas, sobre a (dês)confiança mútua, sobre a vida, enfim. Vai da porrada de “Hans”, inspirada no livro A Montanha Mágica, à singela e acústica “Ok, ok”. Grandes Infiéis ganha o ouvinte na primeira ouvida, pega pelo colarinho, dá uns tapas no rosto e o acorda para a realidade áspera do mundo.
2 - … E o Método Tufo de Experiências – Cidadão Instigado (2005)

É impossível falar de Cidadão Instigado sem dar destaque a seu líder e criador, o guitarrista Fernando Catatau. Nascido no Ceará, Catatau é fruto de uma geração que cresceu ouvindo os chamados “artistas bregas” (Odair José, Waldick Soriano, Benito di Paula) em casa. Mas, acima de tudo, é fã de Roberto Carlos e de música romântica. Catatau é o primeiro grande retrato de uma revalorização do brega nos tempos atuais, boa parte por causa do livro Eu Não Sou Cachorro, Não, de Paulo César Araújo (o mesmo que escreveu a biografia proibida do Rei Roberto).
Outro ponto: Catatau é um dos últimos guitar heros brasileiros, mas não espere solos velozes e acrobacias performáticas. A guitarra do cearense é marcante e reconhecível pelo cuidado com os timbres, o som “gordo” e que preenche muito bem as lacunas, pelo jeito meio seco de tocar as notas e aproveitar à exaustão sua sonoridade. Adicione isso ao olhar de um cronista urbano que veio do interior e você terá os elementos de …E O Método Tufo de Experiências, um disco experimental e ousado ao extremo.
Ele abre e fecha com duas baladas de cortar o coração (“Te Encontra Logo” e “O Tempo”) e abusa dos ritmos nordestinos e latinos em “O Pobre dos Dentes de Ouro” , “O Pinto de Peitos” e “Os Urubus Só Pensam em te Comer” . Mas talvez esteja em “Silêncio na Multidão” o ponto mais estranho do disco, um standard de quase oito minutos em que Catatau não canta, mas declama vagarosamente sua letra sobre a solidão assoladora da vida moderna.
Tufo é o retrato de uma brasilidade escondida e renegada pela maioria das pessoas, uma polaroid de uma identidade que não passa na novela da Globo. Se não é tão pop e assobiável quanto seu sucessor, Uhuuu!, guarda na transgressão e no confronto que os experimentalismos extremos propõe ao ouvinte seu grande segredo. É um disco difícil de assimilar, sem dúvida, mas que guarda detalhes que podem apontar os rumos de uma nova música brasileira. Uma obra-prima.
1 – Bloco do Eu Sozinho – Los Hermanos (2001)

Depois de Bloco do Eu Sozinho nada mais foi o mesmo no rock independente brasileiro. Este é o disco que tirou a vergonha de gostar de samba entre os indies, a invenção do rock-samba, com melancolia mil nunca vista antes no rock nacional. Não é exagero afirmar que cerca de metade das bandas do cenário atual são filhas diretas do Bloco e do Los Hermanos – Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta, Mombojó, Móveis Coloniais de Acaju, Banda Gentileza, Wado, Numismata, Cérebro Eletrônico para citar as primeiras que vieram à cabeça. Tudo isso por que Bloco é uma coleção de canções pungentes e singelas, do final de festa de “Todo carnaval tem seu fim” ao lirismo exacerbado de “Sentimental”, passando pelo misto de chanson francesa “Cher Antoine” e o vigor de “A Flor”. O disco que fundamentou o caminho para o Los Hermanos se tornar a banda de rock mais importante da década.