Essa tal Virada Cultural

Se teve uma coisa pela qual valeu a pena a Virada Cultural foi o clima de descontração e alegria que dava pra sentir nas ruas de São Paulo. Acabei assistindo apenas os shows do domingo à tarde (estava em Florianópolis me formando no sábado, mas isso é outra história) e por isso acabei não vendo o centro à noite cheio de gente andando pelas ruas, o que dizem que é uma coisa linda. Mesmo assim, ver as ruas lotadas durante o dia já foi super agradável, ainda que o calor infernal e o fedor de mijo de algumas ruas castigassem os cansados. De qualquer forma, segue um relato bem pessoal e parcial, porque, enfim, não dá pra cobrir nem um décimo da Virada sozinho.

Há de se dizer que eu quase não fui para a Virada. Cheguei de Floripa às 10h, literalmente virado do baile de formatura, já extenuado, com as pernas doendo. Mas, depois de um banho e uma ligação para um amigo me animei e pensei: “estar em São Paulo durante a Virada e não ir é um dos maiores sacrilégios que podem existir”. Total verdade. Comi uns salgados no Pão de Açúcar (já falei que a coxinha deles é qualquer coisa de sensacional?) e saí correndo pra conseguir assistir o Do Amor no Pátio do Colégio – já tinha perdido o Overcoming Trio no Palco das Meninas.

Depois do ônibus errado e de problemas no Metrô cheguei exatamente 12h20 – hora marcada para o show – na Praça da Sé. Assim que comecei a andar em direção ao Pátio ouvi os primeiros acordes de Morena Russa e apressei o passo para não perder a apresentação. Com um som extremamente bem regulado, os cariocas do Do Amor fizeram o habitual – um show competentíssimo, quase sem retoques, praticamente perfeito. Nem o sol de rachar do meio-dia impedia o (infelizmente) pequeno público de balançar ao som da mistura de rock com ritmos regionais da banda.

Cerveja quente, ruim e mais cara na mão – comprei Nova Schin a R$ 3,00 quando na esquina tinha Skol e Brahma por R$ 2,50 – parti junto com alguns amigos rumo ao palco Canja Rock Blues, onde uma super banda punk – Mingau (365/Ultraje), Clemente (Inocentes), Redson (Cólera) e Ari (365) – fazia uma homenagem ao Clash. Depois completos pelo ex-VJ Thunderbird, atacaram clássicos do punk nacional, movimentando as rodinhas de pogo que se formavam em frente ao palco. Aliás, esse palco se mostrou uma boa opção para quem estivesse de bobeira, sempre com garantia de bom rock sendo executado e agradando pais e filhos – mais tarde passei por ali de novo e uma banda comandada por Andréas Kisser interpretava clássicos do hard rock dos anos 70. Saí buscar minha credencial de imprensa bem no momento em que a presença de Wander Wildner no palco era anunciada, mas não podia me deter mais ali com perigo de não conseguir voltar a tempo de ver a Orquestra Imperial.

Confesso que preciso assistir ao show da Orquestra com melhor humor. Adoro o CD deles, dava pra ver que eles estavam se divertindo em cima do palco, a execução das músicas era competente, o público dançava junto como num grande baile, mas eu não consegui gostar. O fato é que, cansado do jeito que eu estava – além de ter virado a noite de sábado, eu praticamente não dormi na sexta, e ainda tinha na bagagem duas viagens de avião em menos de 48 horas em assentos não lá muito confortáveis – parecia que apenas guitarras distorcidas conseguiam me animar (mas não, eu não sou indie-roqueiro de carteirinha). E o som que chegava baixo onde eu estava, bem longe do palco, também não colaborava. Assim, de cinco em cinco minutos eu olhava o relógio para me certificar que sairia a tempo de percorrer o trajeto Av São João – Pátio do Colégio a tempo de ver o Superguidis às 16h30. Tomei um bom copo de café e parti.

Cheguei às 16h20 e o show já tinha começado (a pontualidade extrema de algumas apresentações era de se espantar). Sem o som perfeito do Do Amor e contando com alguns percalços como a queda da guitarra de Andrio durante “Malevosidade”, os Guidis fizeram uma apresentação um tanto aquém do que eu esperava. Não dá pra dizer, porém, que eles não são competentes e tem boas canções que se sustentam ao vivo – como a Orquestra, fica para o rol das apresentações a serem vistas novamente em outras condições.

Enquanto o MQN se arrumava para subir ao palco, meu comboio partiu em direção daquele que prometia ser o grande show do dia, o Ultraje A Rigor. Antes, uma breve passada pelo Palco das Meninas para dar uma olhada no maravilhoso show da Fernanda Takai, com todo seu charme sutil. Ancorada no repertório de seu disco dedicado a Nara Leão, ela fazia uma multidão cantar as doces melodias de músicas como “Com Açúcar, Com Afeto” e “Diz que fui por ai” – mas cantarolar estas canções é fácil, visto que elas estão no imaginário popular brasileiro, difícil (e lindo) é fazer o coral entoar junto os vocais de “There Must Be An Angel”, do Eurythmics.

Totalmente esgotado da maratona, encontrei alento em algumas cadeiras da área de imprensa do Palco Rock República, enquanto esperava por cerca de 20 minutos o Ultraje entrar para encerrar a Virada. Como bem disse um amigo, quando a passagem de som começa a dar problemas é sinal de que o show não vai ser tão bom. Não deu outra, os problemas de som ora na guitarra de Roger ora na de Serginho Serra deram a tônica da apresentação. Sem tocar na íntegra o álbum Nós Vamos Invadir Sua Praia como foi anunciado na programação, o Ultraje fez um show irregular, apoiado na excelência técnica de seus músicos e de um repertório com algumas das grandes canções do rock nacional. A participação especial de Lobão tocando bateria em “Nós Vamos Invadir Sua Praia” deu um brilho especial à apresentação, mas a banda abusou das covers e dos solos de guitarra.

Toda banda tem uma cota de chatice para gastar antes de entrar no palco. Há quem não gaste nada dela e há quem a ultrapasse. No show da Virada (sem trocadilho, please) o Ultraje usou a segunda opção no momento em que Roger e Serginho voltaram para o bis fazendo uma longa improvisação baseada em dois acordes básicos e em ritmo de blues, demorando mais de cinco minutos para realizar uma das introduções de música mais sacais da história. Depois de toda punheta virtuosística, atacaram “Marylou”, “Eu Gosto É de Mulher” e debandaram a tocar covers. Eu, já com os olhos quase pregados, debandei também, preferindo não enfrentar as filas nas catracas do Metrô nem a espera por um ônibus e agüentando o mal-humor do taxista até em casa (“que merda de evento, só serviu pra foder o trânsito”, esbraveja, enquanto me oferecia uma bala de coco).

O saldo final da Virada ficou mesmo com – ao contrário do que a anta do taxista disse – a beleza do evento. Como disse outro amigo, para quem gosta um mínimo de música brasileira a Virada é um prato cheio. Nunca estive em nenhum grande festival europeu, mas não há como não pensar neles como parâmetro. Fora isso, nenhum show memorável – os melhores (Do Amor e Fernanda Takai) eu já tinha visto antes e, como diz o ditado lá de onde eu venho, “figurinha repetida não completa álbum”.

P.S.: A matéria de capa do Caderno 2 especial com a cobertura da Virada Cultural foi um dos textos mais escrotos que eu já li na minha vida. Deu até vergonha de assinar o jornal.

P.S. 2: A máquina não ajuda, mas sim, eu sei que eu sou um péssimo fotógrafo. :~

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3 Respostas to “Essa tal Virada Cultural”

  1. Bel Says:

    hahaha Titi! Amo-te! Você também escreve posts retardatários!
    Até me animei para recuperar uns assuntos que eu achei que estavam velhos demais! Um super post esse teu! Who cares about timming?

  2. Amanda Says:

    Do Amor ao meio-dia de sol de rachar… só faltou água de côco pra eu achar que tava no paraíso =)

  3. tiagoagostini Says:

    Bel, eu sou o rei da postagem atrasada. O maior descumpridor de deadlines em blogs, hehehehe

    Amanda, agua de coco nada… Uma boa cerveja gelada já bastava, hehehehe. Claro q nao a Nova Schin q eu peguei, mas enfim. E vc precisa ver um show deles em lugar fechado, com gin tonica. Ai sim é du caralho – mas eu n sou alcoolatra, hehehehe

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