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Especial Móveis Coloniais de Acaju

maio 24, 2009

Bem, a essa altura você já deve saber que o Móveis Coloniais de Acaju lançou seu segundo disco, C_mpl_te, pelo Álbum Virtual da Trama – e, se ouviu, sabe que este é um dos grandes discos do ano. Segue abaixo um especial sobre o disco, com a matéria completa antes de ser editada que eu escrevi para a Rolling Stone sobre o lançamento do disco em Brasília, um faixa a faixa com o flautista Beto Mejía e uma resenha completinha do disco. (Foto 1 de Ariel Martini. Foto 2 de Liliane Callegari) De brinde, aqui está uma parte da entrevista que eu e o chapa Bruno Nogueira fizemos em Goiânia com a banda.

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Móveis multifuncionais

São 19h30 e em poucas horas o Móveis Coloniais de Acaju subirá ao palco do Centro Comunitário de Brasília para o show de lançamento de seu segundo disco, C_mpl_te. Sentado na mesa do restaurante de uma das diversas entrequadras comerciais da capital federal, o baixista Fábio Pedroza não consegue nem levantar para servir seu prato de comida. Ao telefone, ele acerta os detalhes de segurança para o show da noite quando toca o outro celular. Ele atende para definir o translado dos últimos jornalistas que chegam à cidade para acompanhar o show. “A correria é tanta que eu já desenvolvi uma técnica para falar em dois telefones ao mesmo tempo, sem misturar as conversas e me atrapalhar”, revela com um sorriso no rosto.

O dia inteiro foi assim. Pela tarde, por exemplo, Fábio teve que impedir uma invasão de vendedores ambulantes no local do show. Junto com o saxofonista Esdras Nogueira, ele ajuda o produtor Fabrício Ofuji (uma espécie de décimo membro da banda) nas questões burocráticas. É parte da divisão de tarefas natural que aconteceu com a banda ao longo do tempo, em que cada músico foi assumindo aquilo que mais tem facilidade em fazer. Assim, aos poucos eles abandonam seus empregos e se dedicam em tempo integral ao Móveis. A banda inclusive se tornou uma empresa com CNPJ próprio. “Percebemos que seria preciso nos organizar há uns 5 anos. Se em uma banda com 3, 4 integrantes já é difícil marcar ensaios, imagina pra nós que somos 9?”, comenta o tecladista Eduardo Borém, um dos designers da banda e responsável pelo site.

A profissionalização, porém, não diminuiu a espontaneidade da banda. Sentados ao redor da mesa para falar sobre o disco novo, parecem estar em cima do palco correndo de um lado para o outro e mostrando toda energia que tem guardada. “O conceito do C_mpl_te já existia na parte administrativa e estrutural, e a gente quis trazer para o lado artístico, com as letras sendo escritas e arranjadas em conjunto, com cada um dando palpite na parte do outro”, comenta Esdras. O processo, que acabou levando quase um ano, foi mais difícil do que a banda imaginava, principalmente pela participação do produtor Carlos Eduardo Miranda

“A primeira vez que o Miranda foi pra Brasília, mostramos 20 músicas para ele. Achávamos que ia ser fácil, era só tirar 12 dali e gravar. Ele gostou de 5 e disse que as outras não serviam, era pra compor novo material”, lembra Esdras. “Foi a hora de engolir o choro e trabalhar, porque se tínhamos escolhido ele tínhamos que confiar na avaliação”, lembra o Borem. Após refazerem arranjos e mudarem músicas até a hora de entrar em estúdio, a satisfação com o resultado não poderia ser maior. “O Miranda propôs fazer um discão, cheio de detalhes, e a gente comprou a idéia. Dá para dizer que C_mpl_te é um pouco dele também”, comenta o tecladista. O produtor também não esconde a alegria. “É um dos melhores discos que eu já fiz”, confidencia.

O Móveis tem hoje o melhor show do rock nacional, algo construído pouco a pouco com as apresentações em festivais independentes Brasil afora. Mesmo assim, a tensão de apresentar algumas músicas pela primeira vez era evidente nos bastidores, afinal, eram quase 5 mil pessoas que enfrentaram a chuva que não largava Brasília desde a metade da tarde. Com a contagem regressiva no telão, os nove se abraçaram em roda como um time de futebol em dia de final de campeonato. E quando, após meia hora de show eles tocaram o primeiro single do disco novo, “O Tempo”, e a platéia cantou como se fosse uma velha conhecida, dava para perceber que o jogo estava ganho. Sorrisos nos rostos na saída do palco, era hora de já preparar as coisas para o show do dia seguinte, em Goiânia. A nova jornada do Móveis está apenas começando e eles sabem que, como diz a letra de “Indiferença”, faixa que fecha C_mpl_te, “se tudo pode ser melhor, ainda dá tempo”.

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Faixa a faixa C_mpl_te

01 Adeus: Acho que fomos felizes ao colocá-la em primeiro. É bonita, uma das minhas preferidas. E, de fato, é nela que podemos ver alguma influência de Sigur Rós. Muita gente comenta também em ser simplesmente uma letra de amor, mas, na verdade, estão certos aqueles que dizem ser sobre a relação da banda com o público.

02 Lista de Casamento: É a mais antiga entre as 12. Surgiu de uma ideia de fazer um ska com Franz Ferdinand, do Leo, antigo guitarrista. E ele também já tinha, antes da letra, o refrão na cabeça – “Eu tenho quase certeza de que estou no lugar errado, mas se eu não me engano, eu posso estar enganado”.

03 O Tempo: Essa foi uma música em que o Miranda foi muito importante. Ela tinha andamentos e uma introdução diferente. Ganhou força e se tornou uma grande canção. Sobre influências, o Claudio Szynkier (da TramaVirtual) falou em bandas que buscam a sonoridade do Beach Boys. O Beto estava ouvindo bastante o Pet Sounds. O Fabio cita bem o Polyphonic Spree.

04 Cão Guia: Testamos Cão Guia em alguns shows, ainda no ano passado. Não tínhamos toda a letra, somente alguns versos iniciais e o André cantarolava o restante. Assim como em todo o disco, as guitarras ganharam muita força na gravação. E, posteriormente nos shows também. Gosto bastante dela!

05 Descomplica: Foi a última que fizemos para o c_mpl_te. Alguns dizem que ela melhor sintetiza o que é a banda – tanto no processo de composição quanto no resultado final. É uma das preferidas da banda.

06 Café com leite: Por algumas vezes, essa música foi jogada pra escanteio. Demorou um pouco pra entender qual era uma boa roupagem pra ela. Quando fomos mostrar para o Miranda pela primeira vez, estávamos um pouco descrentes. Quando terminou a audição, ele disse que era uma das preferidas. Pra mim, destaque pra linha inicial de barítono do esdras e solo de tenor do Paulo.

07 Pra manter ou mudar (a do piano): Ela começou somente com um arranjo voz e piano e inicialmente iria ter uma levada meio big band dos anos 30. Musicalmente, o refrão conduz o restante. A letra é um capítulo à parte. Surgiu em partes e ,possivelmente, foi uma das mais demoradas a ser concluída. O começo se deu em uma viagem pra ilha solteira para apresentação em um festival univesitário, e o fim, um dia antes de entrar em estúdio.

08 Bem natural: Essa foi composta bem no meio do processo todo. A gente estava um pouco travado com algumas músicas e em uma semana iríamos mostrar algo novo pro Miranda. Coisa que não tínhamos!!! A única música do disco que tem vocal do beto e do André cantando junto quase toda a música. Acho que ela reflete bem o que o Miranda queria quando passou um monte de punk rock pra ouvir. Simplicidade e foco em linhas de sopro. Sem frescurinnhas… Gosto bastante da levada da batera. Tem uma malandragem aí, já que a gente pegou uma levada upbeat e a desdobrou. Ficou meio… half beat?

09 Falso retrato (uhu): Ganhou muita personalidade dentro de estúdio. Tem ótimos riffs de guitarra e timbres de teclado. Pra mim, tem uma coisa de queens of the stone age com paulo moura… a letra do refrão veio durante a gravação de sopros. Ia ser somente uma parte instrumental.

10 Cheia de manha: A terceia a ser composta para o disco, também faz parte das músicas ditas antigas. Adoro a letra. O miranda trouxe novas idéias principalmente para timbragem de teclados. Muita gente pensa que a música foi feita pra Maísa(apresentadora mirim). Mas, a música foi composta antes. Mas se ela topar fazer um clipe, a gente aceita, né silivo?

11 Sem Palavras: A gente já tinha gravado essa música no estúdio da Trama, em 2007. A nova gravação tem beat diferente, e principalmente, linhas diferente de guitarra. Uma das minhas preferidas. Acho a interpretação do André bem doída e bem boa!

12 Indiferença: Foi a penúltima música do disco a ser composta. Assim que a começamos a tirar, o Bc a definiu como uma música do Bad religion com mais “Mojo”. A vibe meio hippie do final foi resultado de brincadeiras com ritmos e melodias que fizemos em um ensaio. A parte final também foi composta pensando em possíveis interações com o público.

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A legitimação de uma grande banda

Eles tinham o melhor show do rock nacional, mas ainda faltava ao Móveis Coloniais de Acaju um trabalho de estúdio consistente o bastante para os legitimar como grande banda. Não que Idem, lançado em 2005, seja um disco ruim – ele é apenas cansativo. A produção frouxa acaba jogando contra e acentua a similaridade entre as canções, que acabavam soando muito melhores e completas na dinâmica do show. Havia uma música – “Aluga-se Vende” -, porém, diferente de todo o contexto do álbum, e foi justamente a partir dela que a banda começou construiu a idéia do novo disco.

C_mpl_te representa uma grande evolução na carreira dos brasilienses. Com o auxílio do produtor Carlos Eduardo Miranda eles conseguiram criar um conjunto de canções independentes entre si mas ainda assim com um fio condutor. Se concentraram muito mais em melodias, harmonias e arranjos do que no ritmo e pariram um dos grandes (se não o melhor) discos do ano no rock nacional. Mas quem ouve o resultado não percebe que o processo inteiro não foi assim tão natural quanto parece. Eles passaram quase um ano dentro do estúdio, compondo, ensaiando e, principalmente, suando muito para conseguir ao resultado desejado e estabelecido em conjunto.

De alguma forma, parece que eles sempre tiveram certeza do bom resultado que estava por vir. Da primeira vez que os entrevistei, em outubro do ano passado, um dia antes de entrarem em estúdio para registrar o disco, não precisei fazer nenhuma pergunta para que eles falassem durante 40 minutos ininterruptos. Durante vários momentos, me olhavam e repetiam “desculpa a gente estar se atropelando, mas essa é a primeira vez que a gente fala sobre o disco novo e a gente ta tão ansioso.” E na verdade não havia problema algum em eles falarem e falarem o quanto quisessem. Aquilo sim era a coisa mais natural do mundo. Dez pessoas (incluindo o produtor Fabrício Ofuji) totalmente afinadas sobre seus desejos. É piegas dizer, mas havia um brilho nos olhos de cada um que inspirava uma sinceridade e confiança enormes.

Confesso que me surpreendi a primeira vez que ouvi C_mpl_te. O Miranda já tinha me dito que aquele era um dos melhores discos que ele havia produzido, mas eu não esperava tanto. A complexidade do disco e a maneira como as canções cresciam aos poucos era surpreendente. O trabalho de guitarras minucioso, a bateria precisa, a voz tranqüila de André Gonzáles, mas principalmente os metais que, com frases curtas, instigavam uma audição mais cuidadosa. O Móveis parecia ter compreendido que, às vezes, menos é mais – e como isso funcionava bem.

Quando eu estava fazendo meu TCC, minha orientadora em algum momento me disse: “bem, já temos o começo e o fim do texto. Os outros 50 mil toques são fáceis”. Como sempre, ela não podia estar mais certa. A mesma premissa pode ser utilizada com C_mpl_te. Uma vez que se tem duas músicas perfeitas para abrir e fechar um disco – como “Adeus” e “Indiferença” – tudo fica mais fácil. A primeira é a coisa mais diferente que o Móveis já fez em toda sua história, com o dedilhado de guitarra e o clima etéreo. De alguma forma, começar com ela é como dar um chute na porta e já deixar avisado “olha, sabe aquele Móveis que todo mundo conhece¿ Então, se preparem porque lá vem coisa nova”. E “Indiferença” tem um clima de festa constante que termina de um jeito relaxado, com um solo “herbert viannístico” de BC que deixa no ar um até logo.

O disco ainda guarda duas canções excelentes. “Descomplica” é lúdica, despretensiosa, ensolarada. E, bem, “O Tempo” é simplesmente a melhor música que a banda já fez e provavelmente a melhor lançada em 2009 – e outras bandas terão que ser muito geniais para derrota-la. É daquele tipo de canção que bate imediatamente, com suas mudanças de ritmos e todo o trabalho dos sopros, servindo de cama para a interpretação inspirada de André em uma bela letra de amor. A caidinha só com a guitarra dedilhada após o segundo refrão é capaz de cortar corações, fácil, fácil.

A banda ainda escorrega um pouco em alguns momentos, como em algumas letras mais preguiçosas (“Café Com Leite”), mas o resultado final é muito acima da média da produção atual. E tudo isso sem ter perdido a excelência em cima de um palco. Na última sexta (22-05) assisti o terceiro show da turnê de C_mpl_te e é impressionante como eles conseguem melhorar cada vez mais, estar cada vez mais em sintonia com a platéia, inovar nas interações. Agora fica a curiosidade de ver esse mesmo show daqui alguns meses, quando o público estiver tão familiarizado com o novo álbum quanto está com as músicas de Idem. Mais importante que isso é conversar com os integrantes após o show e perceber a empolgação de cada um. Com o mesmo brilho nos olhos de alguns meses atrás.

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“Até que eu sou uma pessoa legal, especialmente com você”

maio 24, 2009

Considerações sobre o show do Ludov ontem, no Studio SP:

– Era o último show da turnê de “Disco Paralelo” e por isso a banda resolveu tocar o álbum na íntegra. Isso teve dois efeitos: 1) conforme as canções avançavam menos gente assistia ao show porque 2) deu para perceber ao vivo que o disco é mais fraco do que soava na época (e isso mesmo com a excelência dos quatro em cima de um palco).

– Chapolin é um puta baterista, do estilo que eu mais gosto: tem mão pesada mas alivia direitinho na hora que é necessária. Versatilidade, digamos assim.

– As canções novas estão mais vibrantes que as do disco anterior e pelo menos prometem um disco mais instigante.

– A banda cresce muito quando tem duas guitarras, então a entrada de um baixista de apoio nos próximos shows vai melhorar ainda mais a presença de palco e encorpar o som.

Pra finalizar, lembrei ontem de um texto que escrevi sobre a banda quando eles estavam lançando “Disco Paralelo” e foi publicado no Mondo Bacana. Segue abaixo republicado.

No purgatório do pop

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Em outubro de 2005, o Ludov fez um pocket show na FNAC Curitiba, no Shopping Barigui. Todos sentados, guitarras e baixos apoiados nas coxas e cinco sorrisos nos rostos – destaque para a simpatia e o brilho nos olhos da vocalista Vanessa Krongold ao cantar cada sílaba. Sorrisos sinceros, diga-se de passagem, daqueles que você dá apenas para os amigos em dia que está de bem com a namorada. E parecia mesmo que eles estavam tocando para amigos, com uma naturalidade tranqüila. Em um clima tão leve, o som que ecoava pelos cantos da livraria era sutil, como em um luau, agradável de se ouvir. É esse o som e o clima que transparecem no novo CD da banda, Disco Paralelo, lançado em junho pelo selo paulistano Mondo 77.

De lá para cá muita coisa aconteceu com o Ludov. A saída da gravadora, Deck Disc, pela qual haviam lançado no início de 2005 o primeiro álbum, O Exercício das Pequenas Coisas; a saída do baixista/fundador/amigo da banda Edu Filomeno; a participação na trilha sonora do filme teen da Disney High School Musical; a composição das novas músicas; a eliminação do Brasil pela França na Copa do Mundo; a volta ao mundo independente com a Mondo; e, óbvio, as gravações do novo disco. Algumas perdas, ou-tras motivações. Nada diferente do que a vida normal.

O fato mais marcante talvez tenha sido a saída de Edu, que foi morar em Barcelona ao apostar em sua carreira profissional de designer. Apesar de não ser a primeira baixa na banda, foi o primeiro membro fundador a sair e não ser substituído. Isso levando em conta que a história do Ludov começa mesmo em 1996, quando os guitarristas – e amigos de infância em Brasília – Habacuque Lima e Mauro Motoki chegaram em São Paulo para fazer faculdade e montaram o Maybees, junto com Edu, Vanessa e o baterista Falcão. Todos eram estudantes de Publicidade, Mauro na ECA/USP e os outros na ESPM. Falcão, de-pois de gravar os dois discos da banda (Maybees, de 1998, e Picture Perfect, de 2000), foi estudar engenharia de som no Canadá. Em seu lugar entrou Vlad Rocha, velho conhecido dos tempos de faculdade, que também saiu após a gravação de dois álbuns com a banda (agora já chamada Ludov e com letras em português). Para substituí-lo entrou Chapolin, também ex-colega da faculdade.

Com a baixa de Edu, o fator amizade pesou. “A gente ficou com preguiça de fazer todo processo de integração com uma pessoa de novo. Um novo membro não seria apenas um baixista, e sim um cara que você convive muito durante a semana. Banda é como um casamento, tem que ter essa química. Todo mundo se conhece há tanto tempo que ficamos com preguiça de estabelecer uma nova relação”, explica Mauro. O estabelecimento da formação em quarteto mudou muita coisa. Primeiro no lado pessoal. “Cara, ele era um amigo que eu via todo dia, viajava junto. Quando saiu ficou um vácuo. Vê-lo uma vez por semana não era suficiente. Agora que ele está no exterior, então, nem se fala”, lamenta o guitarrista.

A saudade bateu, mas em termos musicais as mudanças foram tão (ou mais) profundas. Os dois guitarristas passaram a se revezar no baixo, com o auxílio em shows do produtor e amigo Fábio Pinc. Esse foi um dos motivos do disco novo soar mais sutil, introspectivo e leve do que O Exercício das Pequenas Coisas. Os pequenos detalhes de teclado e arranjo foram deixados de lado com a opção de um som mais cru, baseado em guitarras lim-pas e uma bateria tocada de forma mais “suave”. Algo que suscita logo uma aproximação com a MPB.

O Exercício das Pequenas Coisas era composto por um pop inteligente difícil de encontrar na cena brasileira atual. Acessível sem ser clichê, ele surgiu impulsionado pelo sucesso da música “Princesa” (gravada no EP Dois a Rodar, de 2004, e incluída como faixa bônus no CD), que havia ganhado o prêmio de Videoclipe Revelação no Video Music Brasil, da MTV, em setembro de 2004. O prêmio garantiu o contrato com a Deck, que acabou também relançando o primeiro trabalho como Ludov, o EP de cinco faixas Dois a Rodar.

Em uma gravadora de porte médio, o lançamento do CD ganhou um tratamento que nenhum anterior tinha recebido. O cuidado estético habitual da banda com encarte e toda parte visual continuava lá, mas a promoção agora era maior, com exposição direta na MTV e até capa do exigente Caderno 2, do Estadão. O disco cravou outro clipe de sucesso, “Kriptonita”, e foi apontado como um dos melhores do ano pela crítica.

Mesmo assim, o clima na casa já não era o mesmo. “Nunca pensamos numa gravadora ou selo como salvação, como responsável pelo sucesso da banda ou nossa felicidade. Mas pre-cisamos sentir que o trabalho está sendo bem feito. Quando fechamos com a Deck, existia esse compromisso. Só que, com o tempo, a relação ficou morna. Então, decidimos sair”, comenta Mauro. “Ficamos um tempo sem ter necessidade de buscar outra gravadora, só pensando no disco novo, sem nos preocupar com quem iria lançar. Aí pintou a Mondo, que é composta por pessoas que já estavam no nosso circulo pessoal e profissional. Daí não foi difícil encontrá-los como opção. Foi meio como olhar pro lado. E estamos supersatisfeitos”.
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High School Musical
Antes do acordo com a Mondo 77, o Ludov já começava a compor. O ponto de partida e de motivação foi o convite da Disney para participar da trilha sonora de High School Musical, fazendo uma versão da música “What I’ve Been Looking For”, que virou “O Que Eu Procurava”. A experiência foi totalmente nova para a banda – eles nunca haviam gravado versão de outra música e nem participado de uma trilha sonora. “Veio em um momento interessante, porque havíamos terminado a turnê do disco anterior e tava tudo uma calmaria. Depois da turnê rola uma espécie de crise de abstinência, às vezes você se pega em casa no sábado sem saber o que fazer. Aí todo mundo se envolveu no projeto, começamos a tocar e compor de novo”, conta Mauro.

Foram alguns meses de composição e arranjos, ensaiando toda semana. No começo, com a companhia da Copa do Mundo e do álbum de figurinhas, até que o Brasil foi eliminado pela França e um desânimo bateu no guitarrista. “Assistimos ao jogo todos juntos, no Sítio, que é o estúdio que o Fábio Pinc tem em um sítio afastado de São Paulo. Depois da partida, eu não queria mais saber e joguei meu álbum fora. Faltavam umas oito figurinhas pra completar”. De qualquer modo, ao final do processo eles chegaram com mais de 20 músicas para escolher antes de entrar em estúdio. “Até o último minuto antes de gravar a primeira bateria estávamos em dúvida. Tentamos dar um coerência à seleção de músicas, mas não sei bem direito qual”.

Se existe coerência nas canções de Disco Paralelo, elas estão na já citada sonoridade sutil. É impossível não citar uma clara aproximação com a MPB (em todo disco) e os ecos de Los Hermanos que aparecem em “Conversas em Lata” e “Refúgio”. Tudo ainda bastante pop – só com um pouco mais de refinamento. Basta ver “Sintonia” faixa lançada no site oficial da banda no segundo semestre do ano passado. Surgida junto com as canções novas, ela mantém a energia do disco anterior – e não figura entre as onze selecionadas de Disco Paralelo. “O importante nesse disco foi a liberdade. Em nenhum momento a gente determinou onde queria chegar”, ressalta Mauro.

Para orquestrar essa liberdade, o quarteto chamou o produtor Chico Neves, famoso por seus trabalhos com Los Hermanos, Os Paralamas do Sucesso, Lenine e O Rappa, entre outros. A constante qualidade técnica dos discos de Chico – destaque para Hey Na Na, dos Paralamas – chamaram a atenção da banda. A partir do momento que fecharam o acordo, eles passaram a gravar os ensaios semanais e mandar para o produtor saber em que ponto as músicas estavam.

Com isso, a gravação no Rio de Janeiro durou apenas dez dias. Longe de São Paulo, o nível de concentração dos músicos foi muito maior, sem ter de se preocupar com os problemas da vida cotidiana ao chegar em casa. O aproveitamento do tempo em estúdio foi total, sem dispersões. “O Chico cria um clima muito bom, você se sente à vontade. Ele conduz a gra-vação de uma maneira tão boa que você nem percebe que chegou ao ponto ideal. Foi nossa melhor experiência de gravação, pelo fator técnico, artístico e pessoal. Chico é uma das pessoas mais queridas que você pode conhecer na vida. É quase como ir ao Tibet e conhe-cer o Dalai Lama”, empolga-se o guitarrista.

O resultado final foi um disco mais coeso que O Exercício das Pequenas Coisas mas ainda longe de ser irretocável – as faixas de abertura, “Ciência” e “Fugi Desse País”, são verdadeiros gols contra. Contudo, as melodias delicadas de “Delírio (Sob Asas)”, cantada por Mauro; “Noite Clara” e “A Espera”; mais a densidade de “Conversas em Lata” e o flerte com o rock internacional atual de referência pós-punk oitentista de “Urbana” jogam a favor. Utilizando elementos dos momentos mais calmos dos discos anteriores, uma coisa que não pode se dizer é que o álbum seja mais maduro. Ainda mais quando a melhor música, “Rubi”, tem melodia vocal extremamente parecida com “Érika”, do disco Picture Perfect, quando eles ainda atendiam por Maybees.

Só que problema do Ludov não é artístico. Com onze anos de atividade, um prêmio importante nas costas e o reconhecimento da crítica, eles não conseguem atingir o mainstream da música brasileira. Pior que isso, estão em uma espécie de purgatório do pop – nem tão conhecidos para ir ao Faustão e vender muitos discos, nem tão anônimos para tocar nas bibocas apertadas do underground brasileiro. No mesmo dia do show na FNAC em Curitiba, eles participaram de um festival em um bar com capacidade para 200 pessoas, e ar para respirar era artigo de luxo naquela noite dentro do recinto.

De certa forma, os músicos passaram por situação semelhante no começo da década, quando mudaram de Maybees para Ludov. O Maybees era uma banda totalmente diferente, não apenas por cantar em inglês. As guitarras eram mais presentes e o som mais rock e garageiro sem ser tosco. Com dois discos aclamados pela crítica e pelo público independente, de certa forma o ponto máximo de reconhecimento e prestígio possível dentro da cena, a pergunta foi: a) continuar fazendo a mesma coisa e viver do prestígio alcançado; ou b) mudar de idioma, sonoridade e tentar alçar novos vôos, quiçá mais altos. A segunda opção pareceu mais atraente.

Agora, a encruzilhada se apresenta de novo. Com a participação em High School Musical, o grupo ganhou um número considerável de admiradores adolescentes e infantis que parecem não ser muito o alvo de Disco Paralelo. Mauro refuta a afirmação. “Não nos envergonhamos nem nos arrependemos de nada que gravamos. Então não acha-mos impossível pessoas diferentes gostarem de todas nossas músicas.” Resta saber qual caminho o Ludov quer tomar: continuar independentes e com o reconhecimento que possuem ou tentar alcançar o estrelato e fazer sucesso de massa. Apesar de ter elementos pop e serem muito bem produzidas, as músicas do novo trabalho não são tão acessíveis quanto as de O Exercício das Pequenas Coisas. Com o novo disco e a mudança sutil de sonoridade, a banda parece se distanciar cada vez mais da possibilidade de ser a ponte entre o independente e o popular, tendendo à primeira opção. Que a escolha renda outros belos trabalhos como Disco Paralelo.

Aos 3’10”

maio 23, 2009

É impressionante como a cada vez que eu vejo eles ao vivo eles conseguem melhorar.

E por hoje é só.

Para celebrar o friozinho

maio 18, 2009

Quando as pessoas escrevem o que você pensa

maio 14, 2009

Luiz Zanin, sobre o documentário “Simonal: Ninguém Sabe o Duro que Dei”, aqui. Documentário sensacional que entra em cartaz esse fim de semana. O último parágrafo resume tudo.

Arnaldo Branco, sobre o livro “Abusado”, do Caco Barcellos, aqui. O livro é uma aula de como as percepções da classe média sobre a classe baixa e o crime são geralmente erradas e mostra que há uma série de nuances e pequenos momentos que acabam levando meninos pobres para o tráfico. Aula de jornalismo.

“Paraíso, versão século 21: uma ejaculação precoce a cada minuto”

maio 14, 2009

Uma das funções enquanto editor de home do iG é destacar os blogs e colunistas do portal. Tem um monte de mala, alguns que só falam merda e também vários bons e excelentes. A função é, basicamente, extrair daquele texto sua essência e conseguir fazer um título/chamada atrativo e que passe informação ao mesmo tempo. Óbvio, isso fica mais fácil quando a pessoa escreve bem e tem idéias claras. Se for um bom frasista, então, a missão fica muito mais interessante. Por essas e outras gostaria de poder destacar o blog do Forastieri. Mesmo quando eu não concordo com ele – e isso acontece com muita frequência – é impossível não reconhecer que ele sabe argumentar. Um dos grandes jornalistas deste país.

P.S.: O título do meu post é extraído deste genial texto original do Forasta.

As melhores músicas do rock curitibano

maio 6, 2009

O Túlio, do blog Aires Buenos, reuniu a moçada “entendida” e chegou a uma lista com as 10 melhores músicas do rock curitibano nos anos 2000. Confere a lista completa aqui. A minha foi, sem ordem de preferência, é essa abaixo (com os devidos comentários que fiz quando mandei os votos):

“Atalho Clichê” – Terminal Guadalupe: Apesar de “De Turim a Acapulco” ser a música mais linda, esse é o grande hit da banda.

“Nunca Mais” – Relespública: Hit, certeiro. Porque, afinal, “as historias são iguais, viram comédia se fosse contar”.

“Dizem” – OAEOZ: Balada destruidora, sem chances. Uma das músicas mais melancólicas que eu ja ouvi.

“Polaca Azeda” – Charme Chulo: Exemplifica com perfeição a “estética do colono”, uma teoria ai que eu ainda um dia vou escrever. E como eu sou indie, o voto vai pra versão do EP, q é melhor q a do disco – apesar do disco ser fodao

“Melhor Assim” – Poléxia: Assim como com o Terminal, “Aos Garotos de Aluguel” seria a escolha óbvia, mas “Melhor Assim” entra pela originalidade na harmonia e por ter uma letra mais elaborada – e linda.

Das coisas legais da cena independente brasileira

maio 6, 2009

Semana passada o Ecos Falsos se apresentou no Programa do Jô, tocando uma música inédita, “Spam do Amor”, a reboque de uma entrevista que o vocalista e guitarrista Gustavo Martins deu sobre sua pesquisa das rimas mais populares da música brasileira. Uma das bandas mais inventivas no que diz respeito a divulgação de seu trabalho, dá gosto ver o Ecos Falsos tendo espaço na grande mídia, independente de horário. Até por que “Spam do Amor” é uma das deliciosas baladas diferentes que a banda costuma compor.

O Ecos é uma das bandas mais inteligentes e inventiva dessa geração, procurando fazer música pop sem nunca seguir os padrões, sejam eles instrumentais ou “literários”. Com nova formação – Gustavo, Daniel Akashi (guitarra e voz), Davi Rodriguez (bateria) e os novos Rodrigo BB (guitarra e voz) e Vini X (baixo e voz) – eles soaram muito mais limpos e acessíveis ao vivo. E essa sempre foi uma coisa que me incomodou nos shows deles: apesar da energia excepcional, muita da sujeira que eles limaram em seu disco de estréia, o ótimo Descartável Longa Vida, estava presente nos shows. Estou curioso para ver uma apresentação cheia e conferir como as lindas “A Revolta da Musa”, “Reveillon” e “Bolero Matador” vão soar com a nova formação.

Esse espaço que o independente consegue, por menor que seja, sempre é válido. Foi num show no Jô que eu conheci, por exemplo, o trio gaúcho Pata de Elefante, melhor nome da “cena” instrumental que começa a se desenrolar pelo país. O som da banda não tem segredo: canções curtas de 3 a 4 minutos com um pé na virada dos anos 60 pros 70, fortemente influenciadas por Jimi Hendrix e Cream. E é música instrumental, mas super cantarolável. Saí do show deles na terça passada repetindo diversos riffs mentalmente.

Pata de Elefante que conta com a força da Agência Alavanca, produtora da amiga Katia Abreu que tem lançado iniciativas muito interessantes. Tocada por gente que conhece e tem posições muito bem formadas sobre o independente, a Alavanca lançou recentemente, em parceria com a Identidade Musical, o projeto Mapa Musical, que pretende ter um panorama dessa cena atual. A primeira pesquisa é com os jornalistas que cobrem a cena de alguma forma. Vale a pena parar um pouquinho e responder. O independente precisa de mais pessoas com boa visão e vontade de trabalhar – como a Alavanca e o Ecos Falsos – para crescer ainda mais.