“Até que eu sou uma pessoa legal, especialmente com você”

Considerações sobre o show do Ludov ontem, no Studio SP:

– Era o último show da turnê de “Disco Paralelo” e por isso a banda resolveu tocar o álbum na íntegra. Isso teve dois efeitos: 1) conforme as canções avançavam menos gente assistia ao show porque 2) deu para perceber ao vivo que o disco é mais fraco do que soava na época (e isso mesmo com a excelência dos quatro em cima de um palco).

– Chapolin é um puta baterista, do estilo que eu mais gosto: tem mão pesada mas alivia direitinho na hora que é necessária. Versatilidade, digamos assim.

– As canções novas estão mais vibrantes que as do disco anterior e pelo menos prometem um disco mais instigante.

– A banda cresce muito quando tem duas guitarras, então a entrada de um baixista de apoio nos próximos shows vai melhorar ainda mais a presença de palco e encorpar o som.

Pra finalizar, lembrei ontem de um texto que escrevi sobre a banda quando eles estavam lançando “Disco Paralelo” e foi publicado no Mondo Bacana. Segue abaixo republicado.

No purgatório do pop

2983465192_b59834ace6

Em outubro de 2005, o Ludov fez um pocket show na FNAC Curitiba, no Shopping Barigui. Todos sentados, guitarras e baixos apoiados nas coxas e cinco sorrisos nos rostos – destaque para a simpatia e o brilho nos olhos da vocalista Vanessa Krongold ao cantar cada sílaba. Sorrisos sinceros, diga-se de passagem, daqueles que você dá apenas para os amigos em dia que está de bem com a namorada. E parecia mesmo que eles estavam tocando para amigos, com uma naturalidade tranqüila. Em um clima tão leve, o som que ecoava pelos cantos da livraria era sutil, como em um luau, agradável de se ouvir. É esse o som e o clima que transparecem no novo CD da banda, Disco Paralelo, lançado em junho pelo selo paulistano Mondo 77.

De lá para cá muita coisa aconteceu com o Ludov. A saída da gravadora, Deck Disc, pela qual haviam lançado no início de 2005 o primeiro álbum, O Exercício das Pequenas Coisas; a saída do baixista/fundador/amigo da banda Edu Filomeno; a participação na trilha sonora do filme teen da Disney High School Musical; a composição das novas músicas; a eliminação do Brasil pela França na Copa do Mundo; a volta ao mundo independente com a Mondo; e, óbvio, as gravações do novo disco. Algumas perdas, ou-tras motivações. Nada diferente do que a vida normal.

O fato mais marcante talvez tenha sido a saída de Edu, que foi morar em Barcelona ao apostar em sua carreira profissional de designer. Apesar de não ser a primeira baixa na banda, foi o primeiro membro fundador a sair e não ser substituído. Isso levando em conta que a história do Ludov começa mesmo em 1996, quando os guitarristas – e amigos de infância em Brasília – Habacuque Lima e Mauro Motoki chegaram em São Paulo para fazer faculdade e montaram o Maybees, junto com Edu, Vanessa e o baterista Falcão. Todos eram estudantes de Publicidade, Mauro na ECA/USP e os outros na ESPM. Falcão, de-pois de gravar os dois discos da banda (Maybees, de 1998, e Picture Perfect, de 2000), foi estudar engenharia de som no Canadá. Em seu lugar entrou Vlad Rocha, velho conhecido dos tempos de faculdade, que também saiu após a gravação de dois álbuns com a banda (agora já chamada Ludov e com letras em português). Para substituí-lo entrou Chapolin, também ex-colega da faculdade.

Com a baixa de Edu, o fator amizade pesou. “A gente ficou com preguiça de fazer todo processo de integração com uma pessoa de novo. Um novo membro não seria apenas um baixista, e sim um cara que você convive muito durante a semana. Banda é como um casamento, tem que ter essa química. Todo mundo se conhece há tanto tempo que ficamos com preguiça de estabelecer uma nova relação”, explica Mauro. O estabelecimento da formação em quarteto mudou muita coisa. Primeiro no lado pessoal. “Cara, ele era um amigo que eu via todo dia, viajava junto. Quando saiu ficou um vácuo. Vê-lo uma vez por semana não era suficiente. Agora que ele está no exterior, então, nem se fala”, lamenta o guitarrista.

A saudade bateu, mas em termos musicais as mudanças foram tão (ou mais) profundas. Os dois guitarristas passaram a se revezar no baixo, com o auxílio em shows do produtor e amigo Fábio Pinc. Esse foi um dos motivos do disco novo soar mais sutil, introspectivo e leve do que O Exercício das Pequenas Coisas. Os pequenos detalhes de teclado e arranjo foram deixados de lado com a opção de um som mais cru, baseado em guitarras lim-pas e uma bateria tocada de forma mais “suave”. Algo que suscita logo uma aproximação com a MPB.

O Exercício das Pequenas Coisas era composto por um pop inteligente difícil de encontrar na cena brasileira atual. Acessível sem ser clichê, ele surgiu impulsionado pelo sucesso da música “Princesa” (gravada no EP Dois a Rodar, de 2004, e incluída como faixa bônus no CD), que havia ganhado o prêmio de Videoclipe Revelação no Video Music Brasil, da MTV, em setembro de 2004. O prêmio garantiu o contrato com a Deck, que acabou também relançando o primeiro trabalho como Ludov, o EP de cinco faixas Dois a Rodar.

Em uma gravadora de porte médio, o lançamento do CD ganhou um tratamento que nenhum anterior tinha recebido. O cuidado estético habitual da banda com encarte e toda parte visual continuava lá, mas a promoção agora era maior, com exposição direta na MTV e até capa do exigente Caderno 2, do Estadão. O disco cravou outro clipe de sucesso, “Kriptonita”, e foi apontado como um dos melhores do ano pela crítica.

Mesmo assim, o clima na casa já não era o mesmo. “Nunca pensamos numa gravadora ou selo como salvação, como responsável pelo sucesso da banda ou nossa felicidade. Mas pre-cisamos sentir que o trabalho está sendo bem feito. Quando fechamos com a Deck, existia esse compromisso. Só que, com o tempo, a relação ficou morna. Então, decidimos sair”, comenta Mauro. “Ficamos um tempo sem ter necessidade de buscar outra gravadora, só pensando no disco novo, sem nos preocupar com quem iria lançar. Aí pintou a Mondo, que é composta por pessoas que já estavam no nosso circulo pessoal e profissional. Daí não foi difícil encontrá-los como opção. Foi meio como olhar pro lado. E estamos supersatisfeitos”.
2982610271_1c7ef38383
High School Musical
Antes do acordo com a Mondo 77, o Ludov já começava a compor. O ponto de partida e de motivação foi o convite da Disney para participar da trilha sonora de High School Musical, fazendo uma versão da música “What I’ve Been Looking For”, que virou “O Que Eu Procurava”. A experiência foi totalmente nova para a banda – eles nunca haviam gravado versão de outra música e nem participado de uma trilha sonora. “Veio em um momento interessante, porque havíamos terminado a turnê do disco anterior e tava tudo uma calmaria. Depois da turnê rola uma espécie de crise de abstinência, às vezes você se pega em casa no sábado sem saber o que fazer. Aí todo mundo se envolveu no projeto, começamos a tocar e compor de novo”, conta Mauro.

Foram alguns meses de composição e arranjos, ensaiando toda semana. No começo, com a companhia da Copa do Mundo e do álbum de figurinhas, até que o Brasil foi eliminado pela França e um desânimo bateu no guitarrista. “Assistimos ao jogo todos juntos, no Sítio, que é o estúdio que o Fábio Pinc tem em um sítio afastado de São Paulo. Depois da partida, eu não queria mais saber e joguei meu álbum fora. Faltavam umas oito figurinhas pra completar”. De qualquer modo, ao final do processo eles chegaram com mais de 20 músicas para escolher antes de entrar em estúdio. “Até o último minuto antes de gravar a primeira bateria estávamos em dúvida. Tentamos dar um coerência à seleção de músicas, mas não sei bem direito qual”.

Se existe coerência nas canções de Disco Paralelo, elas estão na já citada sonoridade sutil. É impossível não citar uma clara aproximação com a MPB (em todo disco) e os ecos de Los Hermanos que aparecem em “Conversas em Lata” e “Refúgio”. Tudo ainda bastante pop – só com um pouco mais de refinamento. Basta ver “Sintonia” faixa lançada no site oficial da banda no segundo semestre do ano passado. Surgida junto com as canções novas, ela mantém a energia do disco anterior – e não figura entre as onze selecionadas de Disco Paralelo. “O importante nesse disco foi a liberdade. Em nenhum momento a gente determinou onde queria chegar”, ressalta Mauro.

Para orquestrar essa liberdade, o quarteto chamou o produtor Chico Neves, famoso por seus trabalhos com Los Hermanos, Os Paralamas do Sucesso, Lenine e O Rappa, entre outros. A constante qualidade técnica dos discos de Chico – destaque para Hey Na Na, dos Paralamas – chamaram a atenção da banda. A partir do momento que fecharam o acordo, eles passaram a gravar os ensaios semanais e mandar para o produtor saber em que ponto as músicas estavam.

Com isso, a gravação no Rio de Janeiro durou apenas dez dias. Longe de São Paulo, o nível de concentração dos músicos foi muito maior, sem ter de se preocupar com os problemas da vida cotidiana ao chegar em casa. O aproveitamento do tempo em estúdio foi total, sem dispersões. “O Chico cria um clima muito bom, você se sente à vontade. Ele conduz a gra-vação de uma maneira tão boa que você nem percebe que chegou ao ponto ideal. Foi nossa melhor experiência de gravação, pelo fator técnico, artístico e pessoal. Chico é uma das pessoas mais queridas que você pode conhecer na vida. É quase como ir ao Tibet e conhe-cer o Dalai Lama”, empolga-se o guitarrista.

O resultado final foi um disco mais coeso que O Exercício das Pequenas Coisas mas ainda longe de ser irretocável – as faixas de abertura, “Ciência” e “Fugi Desse País”, são verdadeiros gols contra. Contudo, as melodias delicadas de “Delírio (Sob Asas)”, cantada por Mauro; “Noite Clara” e “A Espera”; mais a densidade de “Conversas em Lata” e o flerte com o rock internacional atual de referência pós-punk oitentista de “Urbana” jogam a favor. Utilizando elementos dos momentos mais calmos dos discos anteriores, uma coisa que não pode se dizer é que o álbum seja mais maduro. Ainda mais quando a melhor música, “Rubi”, tem melodia vocal extremamente parecida com “Érika”, do disco Picture Perfect, quando eles ainda atendiam por Maybees.

Só que problema do Ludov não é artístico. Com onze anos de atividade, um prêmio importante nas costas e o reconhecimento da crítica, eles não conseguem atingir o mainstream da música brasileira. Pior que isso, estão em uma espécie de purgatório do pop – nem tão conhecidos para ir ao Faustão e vender muitos discos, nem tão anônimos para tocar nas bibocas apertadas do underground brasileiro. No mesmo dia do show na FNAC em Curitiba, eles participaram de um festival em um bar com capacidade para 200 pessoas, e ar para respirar era artigo de luxo naquela noite dentro do recinto.

De certa forma, os músicos passaram por situação semelhante no começo da década, quando mudaram de Maybees para Ludov. O Maybees era uma banda totalmente diferente, não apenas por cantar em inglês. As guitarras eram mais presentes e o som mais rock e garageiro sem ser tosco. Com dois discos aclamados pela crítica e pelo público independente, de certa forma o ponto máximo de reconhecimento e prestígio possível dentro da cena, a pergunta foi: a) continuar fazendo a mesma coisa e viver do prestígio alcançado; ou b) mudar de idioma, sonoridade e tentar alçar novos vôos, quiçá mais altos. A segunda opção pareceu mais atraente.

Agora, a encruzilhada se apresenta de novo. Com a participação em High School Musical, o grupo ganhou um número considerável de admiradores adolescentes e infantis que parecem não ser muito o alvo de Disco Paralelo. Mauro refuta a afirmação. “Não nos envergonhamos nem nos arrependemos de nada que gravamos. Então não acha-mos impossível pessoas diferentes gostarem de todas nossas músicas.” Resta saber qual caminho o Ludov quer tomar: continuar independentes e com o reconhecimento que possuem ou tentar alcançar o estrelato e fazer sucesso de massa. Apesar de ter elementos pop e serem muito bem produzidas, as músicas do novo trabalho não são tão acessíveis quanto as de O Exercício das Pequenas Coisas. Com o novo disco e a mudança sutil de sonoridade, a banda parece se distanciar cada vez mais da possibilidade de ser a ponte entre o independente e o popular, tendendo à primeira opção. Que a escolha renda outros belos trabalhos como Disco Paralelo.

Anúncios

Uma resposta to ““Até que eu sou uma pessoa legal, especialmente com você””

  1. Talita A. Says:

    Não poderia existir título mais adequado a ser lido agora.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: