Entrevista – Eduardo "Xuxu"

Cassim Barbaria 2

(Cassim & Barbária, da esquerda para a direita: Marcio Silva, Xuxu, Cassim, Marcio Leonardo, Zimmer)

Eduardo “Xuxu” Vicari pode ser considerado, sem exagero, uma das principais figuras do rock catarinense em todos os tempos. Durante oito anos foi guitarrista, vocalista e o principal compositor da Pipodélica, a melhor banda de rock já surgida na terra do Guga – e dona de um dos dez melhores discos da década, Simetria Radial (2003). Desde o fim da banda no início de 2008, porém, ele tem se dedicado a alguns novos projetos, como o coletivo Insecta e, principalmente, à banda Cassim & Barbária.

Nascida da união da carreira solo de Cassim (ex-Bad Folks) com os remanescentes da Pipodélica Xuxu, Márcio Leonardo (baixo) e Heron (bateria), a banda já lançou um EP homônimo pelos selos americano BNS Sessions e brasileiro midsummer madness e tocou em festivais internacionais como o South By Southwest e Canadian Music Week. Nas palavras de Xuxu, a sonoridade da banda é uma “mistura inusitada de krautrock com canções de melodias fortes e sempre um pé correndo em direção ao experimentalismo. Ou seja, lindo!” A entrada de Zimmer (Ambervisions) na segunda bateria e programações

Mas Xuxu ainda guarda nas mangas um EP solo, Outro Doce, quase finalizado. As quatro músicas que estão no MySpace do músico mostram a usual preocupação com timbres e camadas, dando vasão ao lado mais experimental do cantor com os dois pés fincados no psicodélico. “Tempo ao tempo” é uma dessas baladas singelas que conquistam na primeira audição, quase uma canção de ninar de corações inquietos.

Às vésperas de viajar para o Canadá para dois shows, o guitarrista conversou com o blog por e-mail sobre o Cassim (agora com o baterista Marcio Silva), cena de Floripa, disco solo e uma possível volta da Pipodélica. O resultado você confere abaixo.

pipodelica
(Chutando traseiros com a Pipodélica no John Bull, em Floripa)

– Numa época em que boa parte das bandas brasileiras cantam em português, o Cassim & Barbaria canta em inglês. Vocês tem feito bastante shows fora do Brasil. A língua foi uma opção pelo mercado internacional?

Não foi opção, em que pese tenha ajudado a lançarmos o disco nos EUA pela BNS Sessions. Mas vale lembrar que formamos a Barbária a partir do trabalho solo do Cassim. Fundimos as duas coisas ao começarmos a tocar juntos. O Cassiano compõe mais em inglês naturalmente. Parece que é assim desde que tocou no Magog e ainda no Bad Folks. Mas não só. Catastrofismo, que fecha nosso show é dele, e é em português. Da mesma forma quando começamos a tocar juntos e vieram músicas em alemão e agora espanhol. É o que vem no disco que começaremos a gravar quando voltarmos do Canadá, em outubro.

– Defina o som do Cassim.

O do Cassim eu acho que tem a ver com a mentalidade quase atormentada do Cassiano, de querer fazer mil coisas ao mesmo tempo. Ao fundirmos com a Barbária, acabamos tomando um  rumo diferente. O Cassim & Barbária cada um entende de uma forma. Eu digo que é tudo muito pessoal ou digo que “acho” porque tratamos de música muito abstratamente. Particularmente, gosto de tocar nesse coletivo porque pra mim é uma mistura inusitada de krautrock com canções de melodias fortes e sempre um pé correndo em direção ao experimentalismo. Ou seja, lindo!

– O que mudou com a entrada do Zimmer na banda? E qual foi a importância disso?

Além de ser um elemento agregador muito forte, ele também tem uma dinâmica de trabalho administrativo diferenciada. Somos amigos desde criança, faz mais de 20 anos e trabalho com ele faz muito. Ter alguém com visão estratégica e capacidade de execução remando pro mesmo lado é excelente. Especialmente considerando que temos feito muitos shows no exterior e temos tido que lidar tanto com prazos e questões burocráticas quanto com a parte musical. Musicalemente falando, ele também acrescentou muito, porque tem uma visão artística fabulosa. Não é só informação enciclopédica. Tratamos de conceito profundamente. Ele acabou trazendo com ele a segunda bateria, que nos deu um punch fantástico e toda a bagagem do noise e música experimental, que é um universo que ele já faz parte há muito tempo, com ABESTA e outros projetos. Além de tudo, sempre que tenho dúvida em qual comida escolher, peço ajuda a ele…

– Depois de muito tempo como segundo guitarrista na Pipodélica, você assumiu a frente das guitarras no Cassim. O sentimento no palco é diferente?

Sim é muito diferente agora no Cassim & Barbária. E sinto-me muito mais à vontade, não sendo, por assim dizer “o centro das atenções”. Virei vocalista ou band-leader no Pipodélica por acaso. Não me sentia confortável naquela posição. Musicalmente ainda que eu também cante, tenho mais possibilidades de fazer ao vivo guitarras mais tortas e experimentais, porque não estou sempre fazendo vocais.

– Vocês lançaram um EP lá fora, primeiro, que depois foi lançado aqui no Brasil pela Midsummer Madness. Como surgiu esse contato lá fora?

Na verdade o EP foi lançado em parceria pela BNS Sessions de Nova Iorque e a midsummer madness aqui no Brasil. Foi prensado nos EUA pq saiu mais barato e estávamos indo fazer a tour lá. Mas trouxemos um monte na bagagem. São os que estamos distribuindo por aqui. O mundo independente dos EUA, ainda que mais avançado, não parece muito diferente do Brasil. O Cassiano conhece o dono do selo faz algum tempo, assim como conhecemos o Lariú aqui na midsummer e enfim, todo mundo se conhece de alguma forma. Gravamos o disco e mandamos pra ele ouvir. Ele gostou muito e quis fazer, encaminhando tudo pra que quando chegássemos, estivéssemos com o disco na mão. Mas agora o selo parece que faliu ou algo assim. Os americanos ficaram apavorados com “a crise”. Eles nunca viveram isso e parece que tiveram enormes dificuldades em lidar com contratempos financeiros. Enfim, estamos sem selo agora, acho. Mas isso não assusta. Faremos outra tour em março do ano que vem, ainda melhor. Com ou se selo.

– Qual a diferença dos shows lá fora para os aqui no Brasil?

Organização, equipos melhores e mais acessíveis, horários cumpridos e sempre cedo (o que viabiliza shows durante a semana, sem problemas). No entanto, o público é diferente. Parece mais frio e compenetrado.

– Tem planos de fazer mais shows pelo Brasil? Quando e onde?

Estamos com uma agenda extensa até o fim do ano. Ainda pode entrar uma ou duas datas, mas não muito mais pq estamos quase sem tempo pras outras coisas e também começaremos o disco novo, dessa vez um LP. A idéia é parar com tudo e gravá-lo no verão pra ter pronto quando retomarmos os shows em março, em outra tour americana. A agenda tá aqui. Encontre-nos em alguma dessas datas!

Cassim & Barbária – 2009/2

26/09 Florianópolis/SC @ Célula
30/09 Montréal/CAN @ Pop Montréal
09/10 Toronto/CAN @ Indie Week Toronto
31/10 Cuiabá/MT @ Festival Calango
05/11 Recife/PE @ TBA
06/11 Recife/PE @ TBA
07/11 Natal/RN @ Festival Do Sol
08/11 João Pessoa/PB @ Espaço Mundo
14/11 Florianópolis/SC @ Floripa Noise Festival

– É todo mundo experiente no cenário independente nacional. Isso faz muita diferença pra banda?

As vezes não. Por exemplo, eu nunca tinha tocado no exterior. Não tive problemas, mas é diferente. Mas é importante em mometos práticos, não ficar viajando muito em como gravar um disco, como fazer pra lançar, pra viajar. Mas mais do que experiência, acho que tem que estar todo mundo focado em objetivos semelhantes pros projetos evoluirem.

– Sobre Floripa. Como ta o cenário musical na cidade agora?

Eu vejo que atualmente é promissor, apesar de a cidade ainda ser muito isolada. Estamos articulando uma série de coisas, como por exemplo o SConectada que abrange os diversos coletivos de Floripa, mas também de outras cidades e que tem por objetivo criar redes de intercâmbio de informação num primeiro momento, tudo dentro das características tão peculiares de SC. O Zimmer tá a frente dessa empreitada e eu tô cuidando mais da Insecta, que nada mais é, a exemplo de outros ativos aqui, um coletivo produtor de cultura com enfoque na música independente de nicho (rock e música experimental). Nesse sentido, estou agora empenhado no planejamento do Floripa Noise, que acontece em novembro.

– O que a Insecta tem feito para movimentar?

Desde que criamos a Insecta, faz pouco mais de 1 ano, tivemos acertos e erros, naturalmente. Mas o intuito é achar um modelo de administração cultural de nicho (o nosso, rock e música experimental) que seja compatível ao nosso meio. Não adianta importarmos modelos de outros estados. Não vai funcionar aqui. Estamos no caminho certo, penso. Fizemos as Noitadas Monstro ano passado e o Floripa Noise. Este ano, fizemos mais três festas e agora estamos organizando o Floripa Noise 2009 – Experimente. Fora isso, estamos planejando o ano de 2010. De verdade, nesse fim de ano estou quase sem tempo pra dormir.

– Ano passado rolou o 1º Floripa Noise. Haverá uma edição esse ano? Como vai ser?

Sim, vai ter e vai ser muito melhor! Vamos fazer algo que queríamos desde o ano passado. Serão 10 datas, com eventos em diversos lugares da cidade. Teremos de Invasão 47, passando por uma edição do Música Livre até uma Noite do metal e noite hardcore. Enfim, tudo aquilo que gostamos por toda a cidade, envolvendo um monte de colaboradores e artistas legais daqui e de vários lugares.

– Você acha que um festival é fundamental pra cena da cidade?

Depende do tipo de festival. Daí vem a nossa mudança de escopo do Floripa Noise 2009 – Experimente. Não acho que aportar artistas de fora num lugar pra várias cabeças funcione aqui. Pra cá tem que ser evento de nicho. Talvez nem precisasse de um festival sob esse nome e sob uma data concentrada, propriamente. Enfim, depende de caso a caso. Sei que os modelos dos festivais especialmente do NE , Norte e Centro-Oeste não são assim. Mas cada meio é diferente e ninguém melhor que os produtores locais pra poder identificar essas características e adaptar seu evento.

– Como anda o disco solo? Tem previsão de lançamento?

Depois desse enxurrada de trabalho, optei por deixá-lo na geladeira um pouco. Não tenho pressa. Mas vou lançá-lo em algum momento porque gosto do conceito e do resultado que estou obtendo. Tem 4 músicas prontas lá no meu myspace – http://www.myspace.com/eduardoxuxu – A idéia é fechar um EP com 7 ou 8. Acabei também gravando solo uma música pro Tributo ao Álbum Branco lançado no ano passado, e pro Tributo ao Sgt Pepper´s que vai ser lançado agora. Ambas seguem mais ou menos a mesma estética das minhas composições que estarão nesse meu primeiro disco solo.

– O que você procurou fazer com o disco solo?

Basicamente dar vasão a composições que na época não cabiam do repertório do Pipodélica, de outros projetos e nem cabem no Cassim & Barbária. Em vista de suas características, queria explorar mais timbres mais sutis e um pouco de experimentalismo e acabei optando por tocar todos os intrumentos (exceto percussivos – que sou um desastre!), o que supriu outra lacuna do que eu sempre desejei fazer. Tenho gostado muito dos resultados.

– Não dá pra não perguntar: a Pipodélica fez alguns ensaios em setembro para tocar no Clube da Luta, mas o show acabou não rolando. Não deu vontade de fazer alguns shows completos de reunião? Vocês chegaram a falar sobre isso?

Somos todos amigos. Eu nunca me posicionei contra uma reunião nossa pra nos divertirmos e lembrar coisas boas. E acho que produzimos coisas muito boas. Tenho orgulho da nossa obra e imagino que eles também tenham. Por isso não tive problemas em ensaiarmos e não me oponho a fazer um ou outro show, se for o caso. Inclusive nossa reunião pra ensaiar foi divertidíssima e pareceu que eu nunca tinha parado de tocar aquelas músicas. Esse show que ia acontecer acabou não sendo possível porque o Cachorro (nosso batera) teve que viajar. No entanto, não vejo possibilidade de reunião pra trabalharmos juntos outra vez. Isso quer dizer: entrar em estúdio, arranjar, ensaiar com regularidade, viajar, etc. Temos enfoques musicais completamente diferentes hoje, suponho. Pra mim, não faz mais sentido algum.

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10 Respostas to “Entrevista – Eduardo "Xuxu"”

  1. Acelio do Floripasom Says:

    Parabéns

    Sempre levei muita fé nestas figuras todas. Mesmo estando aprisionados em Florianópolis. A ilha de todos os sons.

    É nóise nas parada!

  2. helliot jr Says:

    excelente banda… e esses caras são gente finíssimas! Sempre batalhando no underground do nosso estado… Barbaria neles! Dividimos o palco esse ano em Joinville/SC… viva a música elétrica meu chapa!

  3. Mari Says:

    ai ai… o xuxu eh o cara e nao eh de hoje!
    cassim e barbaria eh bom demais e pipodelica entao nem se fala… faz falta demais.

  4. zimmer Says:

    é tudo mentira!

    Chamem meu advogado!

  5. Espíndola Says:

    Em um ano o homem não só deu a letra como mostrou como se faz história com a música em Santa Catarina. XuXu para presidente!

  6. Mario Says:

    Tem que comer muito feijão ainda esse tal de xuxu…

  7. Rafael Zimath Says:

    Salve Xuxu. Zimmer para Presidente!

  8. Mauricio Peixoto Says:

    Xuxu é o mestre!

  9. jaguarito Says:

    xuxu boy! timbre man!

  10. Festival Calango 2009 | A Day In The Life Says:

    […] A bala de Bacon que o Zimmer, do Cassim & Barbária me deu, é […]

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