Céu hipnotiza de mansinho

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“Minha voz é meu instrumento”, diz Céu no vídeo que precede sua entrada ao palco na turnê de seu novo disco, Vagarosa, mas a afirmativa só vai fazer sentido mesmo quase no final do show, quando a cantora solta toda potência de sua voz na versão de “It Takes Two To Tango”. Até então, o timbre suave e aveludado se faz perceber apenas num sussuro leve, mesmo recheado de agudos poderosos. Mas ao senti-la ecoar forte pelo Auditório do Ibirapuera na cover fica óbvio que tudo que Céu apresentou até então em termos de potência não passou de mais um truque dessa música calma que a cantora burilou tão bem em seu mais recente CD.

Vagarosa, o disco, é um álbum que “pega feito bocejo”, como diz a letra de “Sobre O Amor e Seu Trabalho Silencioso”. Suas camadas leves e texturas doces de instrumentos conduzem uma viagem silenciosa pelos sentidos, comandam um balançar quase involuntário de ritmos. Assim como a voz de Céu, as músicas do disco formam um conjunto de harmonia e melodia tão envolvente quanto invisível.

Ao vivo, porém, a equação sonora se transforma por completo. Todo groove que fica misturado na produção do álbum assume a frente da história e dá um ritmo ainda mais jamaicano à apresentação. Céu se aproveita e dança timidamente pelo palco, dobrando levemente os joelhos o tempo inteiro, arcando o corpo para trás. Ela não precisa de movimentos grandiosos e circulares para dominar e conquistar o público – seu charme reside todo nas pequenas coisas, nos movimentos singelos.

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O show é recheado de participações especiais, com cada músico dando uma cara nova à apresentação nas músicas que participam. Em “Espaçonave”, Pupilo, baterista da Nação Zumbi, dá uma cadência mais rápida e enérgica, enquanto Fernando Catatau preenche os vácuos com sua guitarra poderosa; Rodrigo Campos, mesmo tímido, enche Vira Lata do lirismo triste do samba com seu cavaquinho; e a performance expansiva de Thalma de Freitas e Anelis Assunção em “Bubuia” e “Rainha” funcionam como um contraponto perfeito à timidez de Céu. Tudo isso ancorado pelo baixo preciso de Lucas Martins (que também toca com Curumin) e o teclado etéreo de Guilherme Ribeiro.

Ao final do show, com “Rosa Menina Rosa” no bis e todo o disco apresentado, é que dá para se dar conta da presença sutil de Céu na música brasileira. Assim como toda esta nova geração, ela não toma para si o papel de protagonista, levantando a bandeira da nova MPB. Ao contrário, vagarosa, a cantora vai fazendo seu trabalho como quem não quer nada, num ritmo mineiro (apesar de ser paulistana) de comer pelas beiradas. O cantar é tranqüilo, o groove é natural, a presença é quase imperceptível. Quando você começa a relembrar o que se passou na última hora, percebe que assistiu a um dos grandes shows do ano, de uma das artistas de sua geração. Céu chega de mansinho e quando você se dá conta já está totalmente hipnotizado.

Fotos de Ariel Martini

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Uma resposta to “Céu hipnotiza de mansinho”

  1. Álvaro Burns Says:

    Falou tudo. A Céu é um dos maiores expoentes dessa “nova MPB”. Fugindo ao padrão Elis Regina, adotado por grande parte das novas cantoras, ela consegue criar um ambiente ao mesmo tempo brasileiro e universal.
    Vagarosa é um grande disco. Assim como foi Céu.

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