Entrevista – Hotel Avenida

hotel avenida

O Hotel Avenida, uma das promissoras bandas da efervescente cena de Curitiba, acaba de lançar um EP ao vivo, gravado no projeto Acústico Mundo Livre FM, que você pode baixar aqui. O disco tem seis faixas, sendo quatro de composição própria (destaque para “Só o amor pode partir seus joelhos”) e duas covers, “Nuvem de Lágrimas” (sim, aquela mesma) e “Meu abismo, meu abrigo”, de Lobão.

Formada basicamente da união de Ivan Santos (ex-OAEOZ) e o vocalista Giancarlo Rufatto, a banda tem como objetivo fazer “canções à moda antiga sobre a vida”, segundo Gian. A entrevista abaixo foi feita no começo de agosto, para uma matéria que acabou tomando outros rumos. Eis a íntegra.

P.S.: Vale muito a pena baixar também o EP ao vivo no Rock de Inverno, que contém a grande música da banda, a pungente “Eu não sou um bom lugar”. Aproveita e relê a minha cobertura do Rock de Inverno deste ano.

hotelpb

A banda tem poucos meses mas vocês já conseguiram bom destaque em blogs nacionais e tocaram para um bom público no festival da Oi. Tinham essa expectativa de que as coisas acontecessem tão rápido?

Ivan: Sinceramente não. Até porque é um meio muito competitivo. Tem muita banda por aí e as vezes é difícil se destacar. Muitas bandas levam anos pra conseguir o espaço que a gente conquistou em pouco mais de seis meses, com apenas cinco shows e um single lançado. O convite para o Expressões Oi, principalmente, foi uma grata surpresa, pois não imaginava que a gente fosse escolhido com tanta banda boa e com mais nome que a gente que se inscreveu. E poder tocar ao ar livre, no domingo a tarde, com equipamento e som de primeira, pra um público diferente, que não frequenta bares e shows noturnos, foi uma grande satisfação.

Por outro lado, apesar da banda em si ser nova, todos nós já temos uma boa experiência com trabalhos anteriores. Já sabemos um pouco mais do “caminho das pedras”. E hoje temos autonomia total pra gravar e os contatos pra divulgar o trabalho, o que facilita as coisas. Essa experiência anterior, acredito, foi decisiva para que a gente conseguisse esse destaque em tão pouco tempo.

Gian: Não é que as coisas aconteceram “rápido”, elas estavam acontecendo em um outro estado, digamos menos sólido, antes mesmo da banda existir. O Ivan sempre ficava batendo na tecla que eu deveria ter uma banda pra me apresentar, mostrar as canções dos meus discos como elas eram gravadas e quando o OAEOZ parou no ano passado, começamos a gravar juntos o que gerou o EP “Ivan Santos & Giancarlo Rufatto”. Foi ali que a banda começou – inclusive cogitamos chamar o EP de Hotel Avenida, mas como gravamos tudo em casa, ficou com nossos nomes. Foi a partir do lançamento no final de 2008 que começamos a mexer os pauzinhos pra tocar ao vivo e nesse processo, muitas pessoas ajudaram na sedimentação da banda. Dos integrantes (eu, Ivan, Carlão Zubek, Igor Ribeiro, Eduardo Patrício, Allan Yokohama e Rubens K) aos blogs que nos deram espaço desde antes do primeiro show como o In New Music We Trust e o Subtropicalia. E quando a gente gravou o primeiro single da banda, não existia outro caminho pra gente que não o de pedir ajuda a todos os blogs de amigos para o lançamento.

Então, calhou de a banda ganhar as paginas de todos os jornais do estado, ser selecionada para o Expressões Oi (duas vezes – já que meu trabalho solo também havia sido) e tocar no Rock de Inverno para passarmos a existir fora do bolha indie de Curitiba o que definitivamente é bem legal, o virtual é legal, mas eu recomendo a realidade.

Expliquem um pouco as referências sonoras. Tava pensando outro dia e cheguei a classificar o som de vocês como um “folk-rock com sentimento”. Faz sentido?

Ivan: É por aí. A gente brinca dizendo que a Hotel Avenida é uma banda de canções à moda antiga, no sentido de que a gente não está preocupado em inovar nem em reinventar a roda, mas sim em fazer boas canções, com as quais as pessoas possam se identificar e gostar. O folk sem dúvida é uma referência básica, assim como o soul e o rhythm and blues. Cada integrante acaba contribuindo com um background diferente. Eu citaria ainda coisas como o trabalho solo do Mark Lanegan, Grant Lee Philips, Cowboy Junkies, Gutter Twins, Mercury Rev e Spiritualized, Black Crowes, enfim, muita coisa.

Gian: Eu nunca pensei em folk-rock porque vejo as canções apenas como música pop. Eu gosto de pensar que a Hotel Avenida tem de ser “uma banda de canções a moda a antiga” com partes cantáveis em coro, melodias para dançar, letras para ler e pensar. Tem tudo isso nos discos de artistas que eu gosto, no Bruce Springsteen por ex. Até me incomoda que a associação com música melancólica seja a primeira impressão passa. A questão é que cantamos sobre a vida e a vida na maior parte do tempo é feita de “quases” e de coisas que não conseguimos.

“Eu não sou um bom lugar” é uma música bem intensa, que cresce durante a audição. Como ela foi composta?

Gian: A música é uma tentativa de fazer soul (na hora de mixar inclusive mandei Otis Redding para o pessoal ouvir) e fala sobre ações equivocadas que o ser humano faz ao longo da vida. Tive de explicar pra minha mãe que na parte em que eu cito “Jesus, Maria e sua gangue” não era um sentimento propriamente meu e sim uma ironia para com o exagero evangélico. Eu gosto de colocar religião nas letras e quase sempre no contraponto do lado egocêntrico do cara que vai morrer porque a mulher não o quis.

Vocês dois tinham outros projetos anteriores ao Hotel. Como ficam eles agora com a banda?

Ivan: No caso do OAEOZ, minha banda anterior, a gente parou mesmo. Depois de onze anos, vários discos lançados, cheguei a conclusão de que era hora de virar a página, pois acho que já tínhamos feito tudo o que poderíamos fazer, e não havia mais sentido em insistir em algo apenas por obrigação. Ao mesmo tempo, em 2008 eu e o Gian começamos a compor e gravar juntos, e a partir do EP que lançamos no final do ano, resolvemos montar uma banda para tocar essas canções ao vivo, o que acabou gerando a Hotel Avenida. E até por questão de disponibilidade de tempo, percebi que não haveria como levar a frente duas bandas simultaneamente. Então a minha ideia, pelo menos no momento, é me dedicar exclusivamente à nova banda.

Gian: Eu continuo gravando coisas em casa e sigo com meu trabalho solo, mas dei uma diminuída na velocidade em que eu lançava discos em 2008. Pouco antes do lançamento do primeiro single do Hotel eu lancei o Machismo EP e muita gente que veio à procura de mais material da banda acaba baixando meus trabalhos solos que são base dos shows da banda enquanto não lançamos as musicas novas que já tocamos nos shows. Fora o fato de que todo mundo tem seu projeto, sua banda própria e seguem lançando coisas. O Carlão acabou de lançar um disco novo do folhetim Urbano. O Eduardo é produtor e também tem discos solos, o Igor tem a Orquestra Mecânica. Acho que é por isso que a banda se chama Hotel.

Tem planos de gravar um CD? Pra quando? Ter um CD ainda é fundamental numa época onde o MySpace é tão forte?

Ivan: A princípio não temos uma preocupação imediata de gravar um “CD cheio”. A nossa ideia é ir gravando canções a medida que a gente ache que vale a pena e lançando através de singles e ou EPs. Até porque hoje em dia, as pessoas tem cada vez menos tempo e mais informação pra processar, e dificilmente ouvem um cd inteiro com dez, doze músicas, por melhor que seja. É mais fácil chamar a atenção das pessoas com um single ou um EP do que com um disco.

Mas em outubro nós vamos gravar uma participação no programa Acústico Mundo Livre, da rádio de mesmo nome daqui de Curitiba, que vai gerar um EP ao vivo no estúdio, com seis músicas, que deve ser lançado até o final do ano. E estamos estudando a possibilidade de lançar um bootleg com as gravações ao vivo do nosso show no Rock de Inverno 7.

Gian: De concreto existe a gravação do Acústico Mundo Livre Fm, em que registraremos 4 canções novas em formato ao vivo e lançaremos como EP. Isso deve acontecer em outubro e acho que seguiremos lançando singles e EPs virtuais. O CD pra mim virou item que você entrega a quem ainda não te conhece. Nos shows eu faço algumas cópias e entrego caso alguém venha perguntar informações sobre a banda. No geral é assim que funciona, o MySpace tem sido veículo forte de aproximação com o público, mas há sempre uma ou outra pessoa que é pega de surpresa e eu gosto muito quando isso acontece.

E shows fora de Curitiba, tem planos, algo marcado?

Ivan: Já temos alguns convites, inclusive pra tocar em São Paulo e no interior do Estado, e só estamos acertando agendas pra armar isso de fato.

Gian: Após o Expressões Oi e o Rock de inverno 7 rolaram convites para shows em São Paulo e no interior do estado. O plano agora é tocar onde for possível.

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Uma resposta to “Entrevista – Hotel Avenida”

  1. I’m a freak, I’m a weirdo? | A Day In The Life Says:

    […] – Tempos atrás o Giancarlo, do Hotel Avenida, falou algo sobre o Radiohead precisar ser entendido, nos dias de hoje, como uma banda que mostra […]

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