Archive for dezembro \23\UTC 2009

Os grandes hits dos anos 00

dezembro 23, 2009

“Com todo o respeito às pistas de dança do salão paroquial de Umuarama ou aos radinhos de Presidente Getúlio, se a gente quisesse realmente saber o que mais tocou nesse Brasilzão nos últimos 10 anos, a gente contaria o número de ocorrências no Google ou YouTube, consultaria o Ibope, o Gallup ou sei lá o que. Quando a gente fala de hit aqui, refere-se àquela música que fala às estranhas e pega nas ventas. A gente fala da vocação de hit. De música maneiraça.”

Este singelo textinho do Mutley serve de introdução pra seleção das maiores músicas dos anos 00 que ele fez aqui. Vale muito a pena conferir. O primeiro vídeo do post é a música que o Mutley elegeu como hit da década. Abaixo a minha preferida. Aproveitem.

Autoramas lança disco desplugado com show em São Paulo

dezembro 18, 2009

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No começo de 2009, o Autoramas resolveu fazer uma retrospectiva acústica da carreira, um formato completamente novo na banda. Mesmo sem a distorção da guitarra, a proposta era não fazer um show sentado e contemplativo. Para o êxito da empreitada, mais do que apenas tocar em pé foi fundamental escolher um repertório dançante, porém suave, apostando na pegada surf music da bateria de Bacalhau e no baixo preciso e completo de Flavia Coury. Tudo isso desembocou no disco MTV Apresenta Autoramas Desplugado, que o trio carioca lança neste sábado, 19 de dezembro, em São Paulo, com show na Clash.

O disco é digno de uma banda que atravessa gerações do independente nacional sem nunca soar antiquada. A lista de músicas contempla momentos diversos da carreira da banda e do guitarrista e vocalista Gabriel, como as regravações de “Galera do Fundão”, do Little Quail, e “I Saw You Saying”, parceria do guitarrista com Rodolfo, ex-Raimundos. As participações especiais abundam no álbum, com destaque para a pungência que Frejat injeta em “Sonhador” e a versão irresistivelmente dançante de “Música de Amor”, com Érika Martins. As músicas novas se encaixam sem destoar da atmosfera geral – “Gente Boa”, que abre o álbum, não poderia ser mais Autoramas.

Gabriel Thomaz conversou com o blog por e-mail sobre o projeto e você confere o resultado da pequena entrevista abaixo. O show na Clash, que fica na rua Barra Funda 969, começa às 21h e custa $30 ($20 se você entrar aqui e colocar seu nome na lista). Você pode baixar o disco gratuitamente no Álbum Virtual da Trama.

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Como está a recepção do disco desplugado e os shows de divulgação?

Cara, muito melhor do que qualquer outro disco que lançamos, parece que dessa vez as pessoas foram ouvir o disco com mais rapidez, sei lá… Os discos anteriores do Autoramas  a galera sempre demorou mais pra escutar e, consequentemente, comentar. Quanto aos shows, também têm sido muito melhores que qualquer expectativa nossa…Até agora tem sido bem engraçado ver aquela galera desavisada achando que o Desplugado do Autoramas seria aquela coisa padrão sentadinha e etc, e ver que na real é o maior rock’n’roll e vir falar q Desplugado é só na teoria. O que realmente rola é que na prática fizemos um acústico com a cara e a personalidade do Autoramas.

Tem alguma surpresa ou o repertório se baseia no disco apenas?

Já incluímos algumas outras músicas além daquelas que entraram no DVD, mas pra quem já viu o show não é mais surpresa…

Você tá tocando “Galera do Fundão”, do Little Quail, no formato acústico. Ao mesmo tempo, a banda fez dois shows especiais esse ano. Qual a diferença de tocar a música com cada banda?

É  que o arranjo do Autoramas é mil vezes melhor. As duas versões são bem diferentes.

Outra regravação que chama atenção é de “Eu Vou Vivendo”, do Walverdes. Que outra música de bandas nacionais independentes você gostaria de regravar?

Um monte, cara…Tem muita coisa boa rolando por aí no rock Brasileiro, pena que tão pouca gente conheça…Nós tentamos ajudar a mudar isso, um dia o rock no Brasil vai viver também como segmento, não só quando é tendência. Desinformação não vai ser mais desculpa. Muitos clássicos ainda hão de vir sem ajuda do mal. No nosso último disco já tínhamos gravado outra do Mini, uma do Nonato Dente de Ouro, gênio semi-desconhecido lá de Brasília, e outras duas em parceria com o Renato Martins, do Canastra, ex-Acabou La Tequila, a banda mais imitada nos anos 00, mas que até hoje pouca gente conhece. Pelo menos a situação dele tá mudando, já tem música dele em propaganda de fim de ano bombando na TV, na voz da Nina Becker e coisa e tal.

Só tem uma música do Stress, Depressão e Síndrome do Pânico (1º disco da banda). Algum motivo especial, foi difícil transpor as músicas para o formato?

Nossa intenção nunca foi transpor nossas músicas para outro formato. Além das coisas que nunca tínhamos gravado, só entraram músicas que seriam resolvidas naturalmente pro formato Desplugado, mesmo alguns arranjos sendo modificados pra melhor. Esse Desplugado não é um apanhado geral da carreira. Se fosse, teriam entrado músicas fortes do Autoramas como “Você Sabe”, “Fale Mal de Mim”, “Mundo Moderno”, e não foi o caso. Nós não queríamos “estragar” essas músicas transformando-as de algum jeito e perdendo suas melhores características. O que quisemos fazer foi gravar as músicas que privilegiem letras e melodia, que muitas vezes não apareciam muito. Autoramas também é canção (risos). E ficamos muito satisfeitos com o resultado.

Vocês saem em turnê pela Europa em janeiro de novo. Algum lugar especial que queira tocar de novo? E tem algum em que vocês nunca fizeram show?

Cara, na Europa, gostaríamos muito de tocar na Itália, e não será dessa vez que vai rolar, infelizmente, não vai dar tempo. Tem um monte de gente de lá que escreve pra gente, mas não vai dar pra ir dessa vez. Dos lugares que já fomos, a Inglaterra é sempre especial, pelos motivos que quem já foi lá sabe. A Alemanha e a Espanha também moram no meu coração.

Com essa revalorização do vinil, vocês pretendem lançar o disco novo no formato?

Claro! Vinil, jamais te desvalorizei, sempre estive do teu lado e nunca te abandonei!

I'm a freak, I'm a weirdo

dezembro 16, 2009

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Já que tanta gente me cobrou nos comentários do post anterior sobre eu não ter colocado o Radiohead entre os melhores da década, lá vão algumas considerações:

1 – Kid A: Juro que eu tentei. Ouvi o disco várias vezes, muitas delas tentando gostar, mas não rolou. A esquizofrenia eletrônica dele não me bate, simples assim. Entendo a importância, entendo a relevância, acho “Idiotheque” uma ótima música, só que o disco não bate. Mas eu curto bastante o texto do Simon Reynolds sobre ele, serve?

2 – In Rainbows: A união de Kid A e Ok Computer que o Radiohead fez nesse disco me agrada, acho que a retomada deles para as melodias foi a salvação da banda. É talvez o disco mais importante da década pelo modo como foi lançado e como abalou as estruturas da indústria – e eu acredito piamente que um dia iremos olhar para a história da música como “antes de In Raibows/depois de In Rainbows“, tipo a Queda da Bastilha do pop. Devemos lembrar, porém, que contexto histórico não importa em nada na elaboração dessa lista, e todos os outros discos, pra mim, são superiores musicalmente a In Rainbows. Ah, mas o texto do Matias sobre o álbum também é incrível.

3 – Eu gosto muito de Radiohead. Ok Computer é um dos melhores discos de todos os tempos pra mim – e quem leu este texto sabe disso.

4 – Tempos atrás o Giancarlo, do Hotel Avenida, falou algo sobre o Radiohead precisar ser entendido, nos dias de hoje, como uma banda que mostra as tendências a serem seguidas no futuro. Quase como uma banda guia, se é que isso existe. Acho que é um ótimo ponto de vista.

5 – O grande show de 2009 foi o do Radiohead – não fui no AC/DC, antes que metaleirinhos venham me atirar pedras. E um dos momentos mais emocionantes que eu presenciei em um palco foi esse abaixo.

Sobre listas:

1 – Eu não sou o dono da verdade e não espero que ninguém concorde 100% com o que eu escolhi. Eu não concordo 100% com a lista de ninguém. Por isso faço a minha.

2 – Listas servem, mais do que qualquer outra coisa, para gerar o debate. Para isso servem os comentários do blog. Argumentação é sempre sadia.

3 – Nunca uma lista, seja ela qual for, vai agradar a todo mundo. Para entender isso, você já leu o texto do Mac?

Acho que era isso. Voltem sempre e a gente se vê nos Melhores de 2009 =)

Os 10 melhores discos internacionais dos anos 00

dezembro 15, 2009

Dessa vez não tem Top 50, a história é rápida: abaixo estão os 10 melhores discos lançados fora do Brasil na humilde opinião deste que vos fala. Assim como na lista nacional, deixei de lado a importância histórica dos discos e selecionei os discos de acordo com meu gosto pessoal e a importância deles na minha vida. Foi nesse momento que o In Rainbows, do Radiohead, rodou (apesar de toda sua importância para o mercado e a maneira como vemos a música hoje, musicalmente esse disco nunca me desceu muito bem). Tem muito mais coisa boa que ficou de fora, como Paul McCartney, Morrissey, Bob Dylan, The Killers, Jarvis Cocker, Arcade Fire, Sondre Lerche, PJ Harvey, LCD Soundsystem, Amy Winehouse, o solo do James Dean Bradfield, Islands, Brendan Benson, Raconteurs, White Stripes, Cat Power, The Sounds, TV On The Radio, R.E.M., Black Rebel Motorcycle Club e, bem, a lista é imensa.

Divirta-se com a seleção abaixo e me diga nos comentários: quais os 10 melhores discos internacionais dos anos 00 para você?

P.S.: Essa foi a lista que eu mandei para a enquete do Mac lá no Scream & Yell. Você confere o resultado da votação aqui. Aproveita e dá uma lida na repercusão que a lista tá gerando, no blog do Forastieri e a reflexão do Mac sobre a década.

P.S. 2: Todas os vídeos do YouTube são de versões ao vivo das músicas, em boa parte das vezes em um arranjo diferente e mais intimista. Vale a pena procurar o original.

10 – For Emma, Forever Go – Bon Iver (2008)

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9 – Know You Enemy – Manic Street Preachers (2001)

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8 – Ga Ga Ga Ga Ga – Spoon (2007)

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7 – Road to Rouen – Supergrass (2005)

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6 – Yoshimi Battles The Pink Robot – The Flaming Lips (2002)

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5 – Franz Ferdinand – Franz Ferdinand (2004)

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4 – Powder Burns – The Twilight Singers (2006)

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3 – Yankee Hotel Foxtrot – Wilco (2002)

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2 – Songs For The Deaf – Queens Of The Stone Age (2002)

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1 – Is This It – The Strokes (2001)

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"I Gotta Feeling"

dezembro 15, 2009

Saca o vídeo que os estudantes de comunicação da Universidade de Quebec fizeram para “I Gotta Feeling”,  single do último disco do Black Eyed Peas, The E.N.D., durante a semana de integração da faculdade, em setembro. O vídeo é tão bom quanto o original, que você pode ver clicando aqui (já que a Universal não libera o embed…).

Vamos combinar que só faltou algumas canadenses com o figurino da Fergie no vídeo…

Os 50 melhores discos nacionais da década (1 a 10)

dezembro 11, 2009

Antes de mais nada, cabem aqui algumas considerações sobre essa lista extensa. Vamos a elas:

1 – Quando o Lívio me pediu a lista com 50 discos eu tinha acabado de fechar o meu Top 10 da década para o Scream & Yell. Para a eleição do SY (que teve seu resultado divulgado na quarta e está um ótimo panorama da década), como eram apenas 10 discos, resolvi não repetir bandas. Assim, quando tive listar os 50 melhores da década, me peguei pensando se deveria manter o Top 10 inicial, porque o Ventura e o Uhuuu! teriam lugar fácil neste post de hoje. Mas, para não alterar nenhuma lista, preferi continuar a evitar a repetição nas primeiras posições. Por isso Ventura e Uhuuu! são o 11º e o 12º lugar.

2 – Essa lista tem caráter totalmente pessoal. Todos os discos que ocupam o Top 5, por exemplo, foram extremamente importantes e significativos em algum (ou alguns) momentos destes últimos dez anos. Foram trilha sonora da minha vida, sendo bem piegas. Mas, é claro, o que mais balizou a lista foi qualidade estética e musical. Todos os discos deste Top 10 têm algo de transgressor, de particular, de sensacional. E, veja só, até por isso os cinco primeiros ganharam textinhos para explicá-los.

Abaixo, a última parte – e aqui os discos de 11 a 20, 21 a 30, 31 a 40 e 41 a 50. Leia, comente, xingue, critique, participe mas, o mais importante, escute. Estar de mente aberta para novas sonoridades e artistas é a coisa mais importante quando se gosta de música.

10 – Seres Verdes ao Redor – Supercordas (2006)

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9 – A Farsa do Samba Nublado – Wado (2004)

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8 – Doces, Refrescos e Tratamentos Dentários – Video Hits (2000)

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7 – Japan Pop Show – Curumin (2008)

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6 – Simetria Radial – Pipodélica (2003)

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5 – O Exercício das Pequenas Coisas – Ludov (2005)

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Poucas vezes durante os anos 00 uma banda brasileira fez um pop tão palatável e inteligente quanto em O Exercício das Pequenas Coisas. E olha que nem estou contando com “Princesa”, que entrou no disco como faixa-bônus. Já no refrão da primeira música do disco o Ludov ensina o caminho para este pop tão perfeitinho: “por que você se leva tão a sério?”. O clima leve e descontraído permeia as três primeiras músicas, no balanço suave de “Estrelas” e “O dia em que seremos felizes”. Mas é em “Dorme em Paz”, a quarta faixa, que a banda prova toda sua versatilidade, em uma balada soturna em um crescendo constante que culmina com um refrão poderoso, embalado pela linda voz de Vanessa Krongold.

Daí pra frente, o jogo estava ganho. “Kriptonita”, que virou tema de vinheta da Fox, traz a mesma intensidade de “Dorme em Paz”, mas agora balanceada pelo velho esquema estrofe-refrão-estrofe-refrão-solo-refrão-solo final, tão manjado mas tão saboroso ao mesmo tempo. O disco termina mais intimista e lírico, com as lindas “Todo Esse Ar” e “É Só Saudade”. Se o mercado fosse justo e coerente, com O Exercício das Pequenas Coisas o Ludov teria tomado de assalto o mainstream brasileiro e vendido milhares de discos.

4 – Daqui Pro Futuro – Pato Fu (2007)

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Se o Pato Fu do início exala juventude e experimentalismo, Daqui Pro Futuro é o retrato de uma banda adulta, em sua maioridade, que sempre fez o que quis durante a carreira e que, aqui, não tem vergonha de tocar nos assuntos de seu dia a dia. Por que, afinal, agora Fernanda é mãe e a experiência muda o jeito de ver o mundo. Apesar de todos os álbuns da banda representarem fielmente o momento pelo qual eles passavam, Daqui Pro Futuro soa como a obra mais sincera da banda, em que eles mais se expuseram enquanto pessoas. Orgânico, com a menor quantidade de barulhinhos e experiências sonoras, ele ressalta as melodias doces criadas pelos mineiros desde os primeiros discos, lembrando que toda boa música deve ser facilmente cantarolável ao violão.

3 – Grandes Infiéis – Violins (2005)

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O grande segredo do Violins é a união do peso de suas guitarras cheias de riffs entrelaçados e as letras filosóficas do vocalista Beto Cupertino, em uma melodia vocal leve. Grandes Infiéis é um disco sobre as relações pessoais confusas, sobre a (dês)confiança mútua, sobre a vida, enfim. Vai da porrada de “Hans”, inspirada no livro A Montanha Mágica, à singela e acústica “Ok, ok”. Grandes Infiéis ganha o ouvinte na primeira ouvida, pega pelo colarinho, dá uns tapas no rosto e o acorda para a realidade áspera do mundo.

2 – … E o Método Tufo de Experiências – Cidadão Instigado (2005)

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É impossível falar de Cidadão Instigado sem dar destaque a seu líder e criador, o guitarrista Fernando Catatau. Nascido no Ceará, Catatau é fruto de uma geração que cresceu ouvindo os chamados “artistas bregas” (Odair José, Waldick Soriano, Benito di Paula) em casa. Mas, acima de tudo, é fã de Roberto Carlos e de música romântica. Catatau é o primeiro grande retrato de uma revalorização do brega nos tempos atuais, boa parte por causa do livro Eu Não Sou Cachorro, Não, de Paulo César Araújo (o mesmo que escreveu a biografia proibida do Rei Roberto).

Outro ponto: Catatau é um dos últimos guitar heros brasileiros, mas não espere solos velozes e acrobacias performáticas. A guitarra do cearense é marcante e reconhecível pelo cuidado com os timbres, o som “gordo” e que preenche muito bem as lacunas, pelo jeito meio seco de tocar as notas e aproveitar à exaustão sua sonoridade. Adicione isso ao olhar de um cronista urbano que veio do interior e você terá os elementos de …E O Método Tufo de Experiências, um disco experimental e ousado ao extremo.

Ele abre e fecha com duas baladas de cortar o coração (“Te Encontra Logo” e “O Tempo”) e abusa dos ritmos nordestinos e latinos em “O Pobre dos Dentes de Ouro” , “O Pinto de Peitos” e “Os Urubus Só Pensam em te Comer” . Mas talvez esteja em “Silêncio na Multidão” o ponto mais estranho do disco, um standard de quase oito minutos em que Catatau não canta, mas declama vagarosamente sua letra sobre a solidão assoladora da vida moderna.

Tufo é o retrato de uma brasilidade escondida e renegada pela maioria das pessoas, uma polaroid de uma identidade que não passa na novela da Globo. Se não é tão pop e assobiável quanto seu sucessor, Uhuuu!, guarda na transgressão e no confronto que os experimentalismos extremos propõe ao ouvinte seu grande segredo. É um disco difícil de assimilar, sem dúvida, mas que guarda detalhes que podem apontar os rumos de uma nova música brasileira. Uma obra-prima.

1 – Bloco do Eu Sozinho – Los Hermanos (2001)

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Depois de Bloco do Eu Sozinho nada mais foi o mesmo no rock independente brasileiro. Este é o disco que tirou a vergonha de gostar de samba entre os indies, a invenção do rock-samba, com melancolia mil nunca vista antes no rock nacional. Não é exagero afirmar que cerca de metade das bandas do cenário atual são filhas diretas do Bloco e do Los Hermanos – Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta, Mombojó, Móveis Coloniais de Acaju, Banda Gentileza, Wado, Numismata, Cérebro Eletrônico para citar as primeiras que vieram à cabeça. Tudo isso por que Bloco é uma coleção de canções pungentes e singelas, do final de festa de “Todo carnaval tem seu fim” ao lirismo exacerbado de “Sentimental”, passando pelo misto de chanson francesa “Cher Antoine” e o vigor de “A Flor”. O disco que fundamentou o caminho para o Los Hermanos se tornar a banda de rock mais importante da década.

Easy Stars All-Stars subverte clássicos do rock em versões reggae em show em São Paulo

dezembro 10, 2009

Nunca a fila para comprar cerveja esteve tão grande em um show na Clash, em São Paulo, como nesta quarta-feira, 09/12. No palco, os jamaicanos do Easy Stars All-Stars destilavam suas versões para discos clássicos The Dark Side of The Moon, do Pink Floyd, Ok Computer, do Radiohead, e Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. Ao vivo, as músicas ganham um clima mais reggae e balanceado do que nas releituras em disco. Os músicos colaboram para o clima, pulando e fazendo movimentos cadenciados no palco o tempo todo, ao que a pista lotada respondia prontamente.

Os grandes momentos da noite foram as versões de “Money” e “Breathe”, do Pink Floyd, “A Day In The Life” e “With a Little Help From My Friends” dos Beatles, e “Lucky” e “Paranoid Android”, do Radiohead. Ponto negativo para o início do show, quando a banda tocou três músicas de seu repertório próprio, claramente sem a densidade de suas versões para os clássicos.

Ir ao show do Easy Stars All-Stars e ouvir Radiohead me fez lembrar do texto que eu escrevi no início do ano pro Scream & Yell sobre o Ok Computer, por ocasião da vinda da banda de Thom Yorke para ser primeiro show em terras tupiniquins. Republico o texto abaixo.

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Ok Computer, um retrato dos tempos modernos

Direto ao ponto: Ok Computer é o disco fundamental na trajetória e discografia do Radiohead. É o rito de passagem de uma banda de relativo sucesso e boas composições para a banda mais influente e importante do mundo desde então. É o disco que inicia o culto ao quinteto e dá uma imensa carta branca nas mãos de Thom Yorke e seus companheiros para fazer o que bem entenderem com a indústria. Porque, por mais que Pablo Honey tivesse uma grande música (“Creep”) e The Bends fosse um apanhado de lindas canções dolorosamente melódicas, a banda até então não tinha ousado e colocado uma assinatura própria em seu som. E, óbvio, foi a evolução de Ok Computer que conquistou a devoção de milhões de fãs e alçou a banda ao posto de salvação do rock, transformando Yorke (a contra-gosto) em líder e porta-voz de uma geração.

Sonoramente o disco faz uma releitura tanto do psicodelismo quanto do progressivo, limando os excessos de cada gênero e acrescentando as doses de melancolia tão presentes nos discos anteriores da banda. Mas, ao contrário dos antecessores, mais calcados na harmonia das músicas como um todo, Ok Computer apresenta uma preocupação imensa com os detalhes, com os timbres, com as texturas, com os pequenos riffs e solos que pontuam cada verso e estrofe. Suas músicas são mais do que apenas uma base melódica. Elas são como peças de um quebra-cabeça sonoro cuidadosamente estruturado. Seja nos momentos mais densos, como “Exit Music (For A Film)”, “Lucky” e “Climbing Up The Walls”, nos momentos mais vibrantes de “Airbag” e “Paranoid Android”, no britpop de “Electioneering”,  ou no lirismo de “Let Down” e “No Surprises”, a banda vai acrescentando um a um os acordes, as notas, as mudanças, os climas, sem se preocupar com as fórmulas básicas da música pop. Basta dizer que é um disco quase sem refrões.

Olhado com a distância do tempo, Ok Computer se apresenta como o retrato de toda uma geração. É como uma ópera-rock que versa sobre a vida moderna, uma crônica em preto e branco do século 21 e principalmente do pós-11 de setembro (não à toa, Thom Yorke sempre foi tratado como visionário). Traz no amargor e na voz sofrida do vocalista a carga de uma era em que as pessoas cada vez mais se isolam de tudo e criam barreiras ao seu redor. É uma época em que a convivência fica cada vez mais distante e impessoal. O egoísmo e a solidão estão presentes o tempo inteiro nos versos cínicos do cantor. Se The Bends era um disco basicamente sobre as relações humanas (majoritariamente românticas), Ok Computer é um disco sobre o conflito do homem consigo mesmo, um auto-retrato da angústia tão característica do vocalista – e que o assolaria como nunca após o sucesso estrondoso do álbum.

Como retrato de nossa era, Ok Computer diagnostica e radiografa perfeitamente os tempos do “politicamente correto”. Primeiro em “Karma Police” e sua ameaça constante de que “isso é o que você leva, quando mexe conosco”. Mas nada como “Fitter, Happier” para explicar a monotonia e mesmice em que tantas pessoas tentam transformar o seu, o meu, o nosso mundo. Esteja em forma, trabalhe bastante, não beba em excesso, coma de forma correta, conviva melhor com as pessoas. Parece o discurso da abertura de “Trainspotting”, um manual de regras simples para a felicidade. De nada adianta, porém, pois esse alívio momentâneo é destruído com força pelo pessimismo assolador de “No Surprises”, um dos melhores retratos do que uma vida com regras pré-estabelecidas pode causar, e que foi traduzido de forma exuberante em seu clipe, em que o vocalista é “afogado” em um aquário enquanto canta: “No alarms, no surprises”. É assim que vale a pena viver, sem ter nenhum tipo de novidade?

No entanto, sem dúvida alguma, a música que melhor expressa o disco como uma unidade é “Paranoid Android” – não por acaso a melhor música da banda. Começa com Yorke tentando espantar seus fantasmas internos enquanto os riffs de guitarra entrelaçados e a linha de baixo circular hipnotizam. O vocalista vai destilando sua ironia e expurgando seus demônios enquanto a canção cresce, até explodir no solo nervoso, rápido, urgente de Jonny Greenwood. De repente tudo acalma e um coro angelical começa a clamar pela chuva, uma pretensa redenção, que chega aos poucos, mas muito mais delicada do que no filme Magnólia, de Paul Thomas Anderson. Para terminar a possível lavagem da alma, nada melhor do que uma lógica religiosa máxima transbordando cinismo. “Deus ama seus filhos, Deus ama seus filhos”. É necessário repetir muito para acreditar e não ficar louco neste mundo. Ok Computer é, enfim, desde seu título, uma rendição aos tempos modernos. Não há como escapar do que se tornou a nossa época.

Alçada ao posto de melhor banda do mundo, o Radiohead teve que lidar com uma fama que nunca almejou. Para isso, o grupo criou uma base sólida em si mesmo e resolveu traçar seu próprio caminho, com cada passo milimetricamente calculado. O que aconteceu depois disso é história, que culmina com o lançamento de In Rainbows em 2007, o álbum que colocou abaixo todo o modelo de indústria musical como a conhecíamos. Mas nada disso seria possível se, 10 anos antes, a banda não tivesse arrebatado uma multidão de fãs com Ok Computer. Um disco sublime do primeiro ao último acorde, uma verdadeira obra de arte atemporal capaz de ser reanalisada e redescoberta por novos ângulos com o passar dos anos. O mundo mudou nesse tempo, e só o Radiohead parece ter percebido isso… dez anos atrás.

Os 50 melhores discos nacionais da década (11 a 20)

dezembro 8, 2009

20 – Charme Chulo – Charme Chulo (2007)

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19 – No chão, sem o chão – Rômulo Fróes (2009)

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18 – Vagarosa – Céu (2009)

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17 – Wonkavision – Wonkavision (2004)

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16 – C_mpl_te – Móveis Coloniais de Acaju (2009)

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15 – Pareço Moderno – Cérebro Eletrônico (2008)

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14 – Paraquedas de Coração – Wander Wildner (2004)

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13 – Nadadenovo – Mombojó (2004)

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12 – Uhuuu! – Cidadão Instigado (2009)

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11 – Ventura – Los Hermanos (2003)

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Os 50 melhores discos nacionais da década (21 a 30)

dezembro 7, 2009

30 – Rubinho e Força Bruta – Rubinho Jacobina (2005)

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29 – Fino Coletivo – Fino Coletivo (2007)

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28 – Superguidis – Superguidis (2006)

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27 – Fome de Tudo – Nação Zumbi (2007)

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26 – – Caetano Veloso (2006)

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25 – Picture Perfect – Maybes (2000)

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24 – Teletransporte – Autoramas (2007)

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23 – Carteira Nacional de Apaixonado – Frank Jorge (2000)

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22 – A Marcha dos Invisíveis – Terminal Guadalupe (2007)

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21 – Toda Cura Para Todo Mal – Pato Fu (2005)

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Black Drawing Chalks e MQN promovem encontro de gerações do rock goiano no Sesc Pompeia

dezembro 7, 2009

No primeiro semestre deste ano, pouco antes da realização do Bananada, Fabrício Nobre falava sobre sua felicidade de o festival ter como headliners em cada uma de suas três noites bandas da nova geração de Goiânia. Uma delas era o Black Drawing Chalks, um dos grandes nomes de destaque no cenário independente nacional em 2009. Na sexta-feira, 04 de dezembro, ao ver os shows do Black Drawing Chalks e do MQN, a banda de Nobre, um após o outro, dá para entender a sensação que o presidente da Abrafin e sócio da Monstro Discos tinha no início do ano: a cena goiana de rock tem se renovado muito bem.

O fato é que o Black Drawing Chalks é a banda que melhor faz rock pesado no Brasil hoje. Unindo riffs secos e espertos com doses cavalares de stoner rock, eles fazem o casamento perfeito de peso e melodia em um show enérgico e contagiante. Mesmo que o ritmo quebrado seja um atrativo para um balançar de quadris, a grande resposta que eles sempre têm do público são as rodas de pogo à frente do palco – a maior satisfação para uma banda dessas, sem dúvida. No show do Sesc não foi nada diferente.

Mesmo sem tocar “I’m a Beast, I’m a Gun”, uma das grandes músicas do disco Life Is a Big Holiday For Us, lançado em 2009, a banda não deixou a adrenalina baixar em nenhum segundo enquanto esteve em cima do palco. Com o público na mão, arriscaram uma música nova, mas não dá para deixar de destacar a execução de “My Favorite Way”, que teve seus vocais cantados em uníssono pela platéia. As rápidas “My Radio” e “Don’t Take My Beer” também se destacaram em um show curto e repleto de vigor punk.

O vocalista e guitarrista Victor deixou o palco anunciando a próxima atração como a “banda que ensinou o Black Drawing a fazer rock”. Não há exagero na afirmação. O MQN é quase uma instituição do rock goiano, com seus mais de dez anos de estrada. Mesmo se desculpando por não terem ensaiado tanto para a apresentação, Fabrício Nobre e sua turma fizeram o show competente e lotado de testosterona habitual, com direito a banho de chope no vocalista e cover da banda gaúcha Walverdes com “Seja Mais Certo”.

Completando a escalação da noite, o quarteto recifense Amp fez a abertura dos shows, com riffs rápidos e uma pegada mais próxima ao hardcore, contraponto perfeito ao som mais denso do MQN.  Ao final da maratona de mais de duas horas de guitarras no último volume, uma certeza pairava no ar: o bastão do “rock pesado” brasileiro foi passado para boas mãos.