Archive for fevereiro \26\UTC 2010

"É uma vez no ano, que aparece o suingue"

fevereiro 26, 2010

É por essas coisas que eu amo a música e um bom show. Você passa uma semana como uma pilha de nervos, estressado, sem saber direito o que fazer da vida, mudando de ideia e de humor a cada 5 minutos. E, do nada, em apenas uma noite, meia dúzia de acordes, uma bela melodia, duas ou três rimas baratas e fáceis você volta pra casa sorrindo como criancinha no Natal. Mais do que isso, você termina a semana sorrindo assim sem mais, só com a lembrança dos momentos da noite anterior. Agora, imagina se você viu dois shows estupendos em seguida?

Primeiro foi o Lafayette & Os Tremendões lançando o primeiro CD no Sesc Pompeia. A diversão é garantida quando você reúne um dos ícones da Jovem Guarda com vários músicos talentosos da nova geração tocando um repertório apenas de clássicos do quilate de “As Curvas da Estrada de Santos”, “Outra Vez”, “Splish Splash”, “O Portão” e “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno”. Mas o que mais me chamou atenção foi a quantidade de “não-jovens” na plateia, reverenciando Lafayette, pedindo autógrafo e foto após o show. E, melhor do que isso, dançando como se vivéssemos os bailinhos dos anos 60 de novo. Braços pra cima, vozes saindo forte e um pouco embargadas pela emoção nos refrões que marcaram gerações.

Depois, o negócio foi correr pro CB que uma das bandas mais promissoras do ano, os cariocas do Do Amor, fazia o que prometia ser o melhor show do mês. Prestes a lançar seu primeiro disco, a banda lotou a festa Versão Brasileira e colocou todo mundo pra dançar sem vergonha lambada, axé, carimbó. Assiste ao vídeo acima e presta atenção a partir de 6’18” quando o guitarrista Benjão começa a tocar o solo de “Sultans of Swing” em ritmo de lambada. Festa pura. A noite terminou com Nervoso e Gabriel Thomaz subindo ao palco para tocar clássicos do Acabou La Tequila, lendária banda carioca da qual Nervoso fez parte, junto com o produtor Kassin.

Axé e muita alegria, que amanhã é dia de ver o primeiro show de Jorge Ben Jor. A festa continua.

Os vídeos em preto e branco são do Mac.

Entrevista: Heitor Humberto (Banda Gentileza) e Nevilton de Alencar (Nevilton)

fevereiro 22, 2010

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Não é de hoje que Curitiba e o Paraná são palco de uma leva de bandas talentosas. Qualquer um que tenha acompanhado o cenário independente na última década certamente ouviu falar de Relespública, Terminal Guadalupe, Pelebrói Não Sei, Poléxia, ruído/mm, Wandula… Heitor Humberto e Nevilton de Alencar fazem parte da nova geração de talentos que tem surgido da terra das araucárias. À frente da Banda Gentileza, Heitor lançou um dos grandes discos de 2009. Nevilton acaba de colocar na internet o EP Pressuposto e deve lançar o primeiro CD até a metade do ano. Enquanto isso, corre o país fazendo shows praticamente semanais.

A Banda Gentileza surgiu nos corredores do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Paraná, quando Heitor precisou de companheiros para apresentar suas músicas autorais nas festinhas da faculdade. O que começou como quarteto hoje é um sexteto, completado por Artur Lipori (trompete), Emilio Mercuri (guitarra), Diego Perin (baixo), Diogo Fernandes (bateria) e Tetê Fontoura (sax, teclado). Já o Nevilton começou com uma banda cover em Umuarama e, à medida que as composições próprias foram surgindo a formação foi enxugando até o atual trio (com Tiago Lobão no baixo e Chapolla na bateria), que decidiu comprar a idéia.

Para entender melhor o que pensam e a trajetória desses dois talentos da música paranaense eu e o Marcelo Costa, do Scream & Yell, fizemos uma longa entrevista com os dois e o baixista da Banda Gentileza, Diego. O resultado você confere abaixo. As fotos são da Liliane Callegari.

Qual a primeira lembrança de vocês em relação à música? Essa coisa de começar a tocar, pegar um instrumento, fazer um som…

Heitor: A minha mãe é professora de piano, então desde que nasci tem música em casa.

Nevilton: Ai é covardia (risos)

Heitor: Ela se aposentou este ano, então já faz um tempo que ela não estuda, mas ela tocava bastante, e eu cresci com ela tocando piano em casa. Quando comecei a crescer, não sei por que e de onde, pirei que queria tocar violino, e toquei dos sete aos treze, quando me mudei de Joinville. Nessa época fiz violino e teoria musical, e toquei na Orquestra de Joinville, uma coisa mais clássica. Quando fui para Curitiba, eu mal conhecia a minha vida sem ter que parar uma hora por dia e estudar violino para ir pra aula. Era uma obrigação. Várias vezes quando a piazada ia brincar, eu ficava tocando violino. Enchia o saco. Quando cheguei em Curitiba, com treze anos, decidi dar um tempo e fiquei sem fazer nada. Óbvio que nunca mais voltei, parei de estudar e hoje em dia toco apenas por hobby na banda.

Nevilton: Meus pais dizem que eu me acalmo muito com música desde pequeno. Eu era agitado e ficava calminho com a música. Botava um Gonzagão na vitrola e eu parava de chorar. Quando eu tinha uns cinco ou seis anos me colocaram na aula de teclado. Alguns primos já tocavam algum instrumento. E do teclado eu fui para o violão, do violão fui para a guitarra, e da guitarra… comecei a pular (risos) e virei isso aqui…

E as primeiras bandas?

Nevilton: Tive várias bandinhas… Tudo começou com um amigo que chegou e disse: estou tocando baixo, tem um amigo baterista, e queria que você tocasse, cantasse uns Nirvana que a gente está tirando…

Com quantos anos?

Nevilton: Uns 14 anos. Coloquei um captador no meu violão de cordas aço, colocava distorção e tocava Nirvana. Passei uns três anos tocando um pouquinho com essas bandas, e algumas queriam tocar um negócio meio metal, um lance pesado. Comecei a estudar mais a guitarra quando comecei a tocar oficialmente. Ai veio a Superlego, que fazia covers dos anos 80, e a gente fez show pra caramba. Comprei a guitarra, o ampli, todas essas histórias. A gente começou a fazer o trabalho autoral porque eu já vinha compondo músicas. Acho que a gente tocou com o Heitor no Festival Tinidos (em Curitiba), no Motorrad…

Heitor: A Superlego tocou com a gente antes, no Porão do Rock, em 2006 (acho), numa noite que tinha a gente, o Vanguart e o Charme Chulo e não foi ninguém ver (risos), mas foi muito divertido. Eles tocaram Inimigos do Rei (risos).

Nevilton: Isso (risos). O nosso repertório já era bastante autoral, mas a banda já não era um quinteto. Eu cantei nesse dia (em Curitiba), e a Superlego inicialmente não era isso. Quando começamos a fazer um som autoral, rolou um papo de “a gente está tocando e ganhando pouco”, e a galera foi saindo. Eu e o (Tiago) Lobão conversamos. “Acho que os caras não vão querer mais tocar. Vamos fazer uma viagem?”.

O Lobão já estava tocando com você?

Nevilton: Já. O Lobão e o Fernandinho, baterista anterior do trio, eram do Superlego. Do quinteto a gente virou um trio. Nesse meio tempo deu aquela bambeada. “Não sei se quero tocar esse som autoral, é muito difícil”. O Fernando também estava desanimado. Então eu e o Lobão fomos para Los Angeles e voltamos cheios de idéias. Vamos agitar. Conversamos com o Fer, mas o resto dos meninos nem queria mais saber da gente.

Eles fizeram outra banda cover?

Nevilton: Não. Um virou pai agora, o outro entrou no terceiro curso de faculdade, e pararam de tocar. Eu e o Lobão estamos nessa. O Fernandinho desistiu pouco tempo atrás. O ano passado foram 49 shows oficiais, mais umas coisas alternativas (tipo se apresentar na escola), e o Fer tinha outros compromissos e não aguentou o tranco. De repente a banda não estava rendendo o suficiente para ele estar satisfeito e ele pulou fora… do nada.

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Nevilton

Heitor, como rolou essa fase de parar de tocar violino e encontrar a galera? Você já conhecia alguém quando chegou em Curitiba?

Heitor: Quando sai de Joinville, estranhei muito. Em Curitiba o pessoal é mais fechado, eu não conhecia ninguém, então continuei voltando pra Joinville várias vezes, aquela coisa de moleque pré-adolescente que não se adapta. Eu tinha um grande amigo lá, que é meu amigo até hoje, o Ronaldo, e a gente começou a fazer um som. Ele tocava violão, e eu comecei a compor – com 12, 13 anos – aquelas letras de rimas bem primárias, e ele musicava. Inclusive, uma que a gente toca até hoje, “Sempre Quase”, uma bem baladinha, foi ele quem fez. É dessa época. A gente chegou a gravar uma demo em casa, que tenho até hoje. Era uma dupla que se chamava Arrotem (risos), violão e voz e uma batucada que a gente fazia com berimbau. Dois anos depois, gravei outra demo. Eu e um amigo do colégio falávamos muita besteira, e escrevíamos essas besteiras. A gente cantarolava e as pessoas ao redor, na sala de aula, já começavam a reconhecer as nossas músicas, e pensei: “Cara, vamos gravar?”. Ele tocava baixo e eu arranhava a guitarra, e marcamos um estúdio, por uma hora, pra gente ensaiar e fazer as músicas, e na hora seguinte gravar. O nome dessa banda é Tomara Que Você Morra (risos), e é uma bosta (mais risos).

E como eram as cidades de vocês? Tinha lugar pra tocar?

Heitor: Até por estar no colégio, eu não saia. Nem sei dizer. Lembro de alguns bares de nome, como o Café Beatnick, o Circus…

Alguma banda de Curitiba…

Heitor: Na época havia algumas bandas que tocavam no teatro do colégio, como Os Cão… Tinha o Pelebrói Não Sei, que durou um bom tempo, o Bubarelas, essas são as que mais me lembro de acompanhar.

Vocês chegaram a tocar em teatro de colégio?

Heitor: Não. A gente chegou a vender 50 cópias da nossa fita demo naquele esquema de chegar para o professor: “Compra”. Nessa época eu saia pouco, não acompanhava tanto a cena musical de Curitiba. Isso aconteceu mais na época da faculdade, quando a gente começou a montar a banda.

Nevilton: Umuarama nunca teve cena (risos). Até hoje (mais risos). Então quando comecei a tocar mais, eu sabia que tinha uma banda na cidade chamada Hypnoise, que o Lobão e o Fernando tocavam, e eles tocavam covers de Pixies, Cake, Pavement, essas coisas que hoje em dia eu escuto pra caramba. Até acho que isso tenha influenciado na sonoridade do trio. Foi um choque ouvir Pavement pela primeira vez. “Que louco, que estranho”. E eles praticamente eram a cena, e só tocavam covers. Eles tinham umas quatro ou cinco músicas gravadas, mas não sei se publicaram. Eu tenho essas gravações e acho super bonitinhas, bem legais. Quando comecei a tocar também encarei umas festas de escola, mas só Nirvana… Quando a gente começou a tocar um pouco melhor já arriscou um (Black) Sabbath. Então a gente fez umas músicas falando do verde (risos), que eram muito engraçadas, para participar do festival do IAP, o Instituto Ambiental do Paraná. A gente gravava as demos na sala, aquela barulheira, ninguém entendia porra nenhuma, mas era legal. Hoje em dia, nós somos a cena de Umuarama. E, ao mesmo tempo, somos bem falados, tipo: “Eles vão tocar em Cuiabá”, mas quando a gente está na cidade é aquela coisa: “Esses caras não desistem dessa merda” (risos).

Próximo passo: como foi formar as bandas que vocês têm hoje? Como se deu isso de encontrar a galera e decidir fazer um som?

Heitor: Eu fui fazer jornalismo, e me identifiquei mais com o pessoal veterano, e alguns deles já tinham bandas. Inclusive, em várias festinhas de faculdade que a gente fazia no Salim, um bar bem pequeno em Curitiba, essas bandas faziam uns showzinhos. Comecei a conhecer o pessoal, e eu tinha algumas músicas dessa época do Ronaldo, de Joinville, já estava tocando violão, e pedi para me deixarem tocar umas três ou quatro músicas entre as bandas, coisa de chato que pede espaço para tocar a sua música. Um dia eles cometeram o erro de deixar, e eu fui lá e toquei algumas, e quem estava lá acabou gostando bastante. Quando rolou uma festa seguinte, eles falaram: “Heitor, toca aquelas músicas suas de novo, a gente quer ouvir”. Eu fui e toquei e foi legal. Na terceira eles pediram de novo, e o pessoal das bandas que estava lá subiu no palco pra me acompanhar. Pegaram baixo, guitarra e bateria, ficavam olhando o que eu tocava e tentavam acompanhar. Ficou uma… ninguém conhecia as músicas e começaram a estragar pacas o que já não era grande coisa (risos). Um dia fizeram um convite oficial para eu tocar numa festa, então chamei algumas das pessoas que tinha tocado comigo na festa anterior pra gente ensaiar. E era mais ou menos o Johnz, a banda que o Túlio, do Pagodeversions, tinha montado em Curitiba. A gente ensaiou, fez esse show e no começo do ano seguinte me convidaram para fazer um show no Putz, o Festival de Cinema Universitário de Curitiba, e daí era num cinema, um show de verdade. A gente ensaiou e formatou as músicas. Ficou o Diego Garapa (baixo), o Diogo Fernandes (bateria) e o Jota (guitarra). Daí eles já botaram o arranjo deles. E quando acabou aquele show, a gente gostou do resultado. Não tinha pretensão nenhuma. Era só mais um ensaio para mais um show, e muita gente veio comentar, então decidimos continuar e gravar as músicas.

Em 2004 a cena de Curitiba estava bem agitada. O De Inverno fazia festivais, havia bandas boas no circuito alternativo. Vocês viam essas bandas?

Diego: Era uma cena mod, na verdade. Tinha Faichecleres, Dissonantes e mais trocentas bandas mod.

Heitor: Tinha a Reles… mas a gente não via muito, até porque não se identificava com o som.

Nessa época o Terminal Guadalupe já tinha disco, a Poléxia já tinha disco…

Heitor: Eu ouvia falar, mas não ia muito atrás. Ia ver umas bandas de fora que tocavam na cidade. O Fuck Fuckers… o Resist Control. Um pouco depois a gente gravou o primeiro EP, e ai sim, caímos pros bares e começamos a conhecer as bandas e fazer parte da cena musical de Curitiba. Antes era mais evento de faculdade mesmo.

Nevilton: Uma pergunta? Qual foi o teor alcoólico para você tocar na primeira festa de faculdade? (risos)

Diego: O Heitor sempre foi cara de pau… (mais risos)

Heitor: Mas deve ter tido uma iniciativa alcoólica… (mais risos)

E vocês, Nevilton. O trio já estava formado…

Nevilton: No terceiro ano do colégio, quando a gente estava começando a pensar na faculdade, eu comecei a gravar uma fita demo chamada “A Base do Teto Desaba”. Nessa demo tem algumas músicas que a gente chegou a tocar com a banda, como “Luz e Sol”. E eu fiz como o Heitor: vendi 70 fitas demos no colégio, na formatura do terceiro ano, pra todos os pais de amigos (risos). Eu passei em Engenharia, na UEM, conheci uma galera de música, mas ninguém fazia nada, e eu já estava bem empolgado com essa história de tocar. Um dia, eu ainda estava morando em Maringá, bem próximo a desistir da Engenharia, fui pra Umuarama abrir um show do Hypnoise. Era violão e voz, e eu tocava MPB e aquelas músicas da minha demo. Foi ali que conheci o Lobão. Ele olhou a minha pasta e disse: “Nossa, velho, você toca Anjos do Inferno?”. É um grupo na linha dos Demônios da Garoa, mas anterior, 1940, algo assim. E a gente ficou super amigo e começou a conversar um monte nesse dia, e já combinamos: eu tinha um monte de músicas, ele tinha um monte de riffs, “Sábado, o que você vai fazer?”. Eu ia dar umas aulas de violão, mas marcamos dele passar lá em casa. Em doze horas, o tempo todo junto, a gente escreveu, arranjou e gravou a primeira versão de “Delicadeza”. Tinha acabado de abrir uma padaria 24 horas em Umuarama (risos) – hoje ela nem existe mais – e a gente ficou ali em casa compondo, e se batesse uma fome às 4h da manhã, a gente ia pra padaria. Depois dessa eu desgracei a vida do Lobão (risos). Ele parou de tocar cover, deixou o emprego no banco…

Heitor, e como vocês partem para gravar o primeiro disco…

Heitor: Quando a gente fez o show na Cinemateca e percebeu que estava legal, eu pensei: preciso registrar essas músicas para concretizar que é uma banda. Pois não era uma banda. Era eu chamando eles para tocar num show ou outro. Eles já tinham um outro projeto e eu pensando que tinha que materializar aquele negócio. E lá em Curitiba estava rolando uma história que eu acho genial, que é a Grande Garagem que Grava. Eles pegam uma verba e lançam um monte de disco gravado ao vivo com uma qualidade bacana…

Prum monte de banda que não tem registro…

Heitor: Isso. E eles dão o CD pra você e você vende pelo preço que você quiser. E você pode mandar fazer mais discos com o dinheiro que você arrecada. Muita banda gravou discos de uma hora pra outra, gente que ninguém conhecia. Só que era um projeto de lei municipal de incentivo, e a banda tinha acabado de surgir. Eu fui lá bater na porta deles perguntando se tinha como gravar, e eles me falaram que o projeto tinha acabado, mas que eles estavam com a estrutura toda lá. Então eu propus: “Eu pago uma quantia que seja suficiente para vocês realizarem esse projeto pra mim, e a gente lança o disco”. Eles toparam. Juntei uma grana, e começamos a ensaiar para gravar ao vivo. A idéia era boa. Você gravava o disco e em duas semanas ele estava na sua mão e você já podia sair divulgando. Só que era ao vivo. Imagina a banda sem entrosamento… A gente estava super nervoso, e errou tanto. Quando terminou o show, eu fui pra salinha e o pessoal contou que tinha queimado uma placa de som. E eu falei: “Graças a Deus, cara” (risos). E eles: “Vocês estavam tocando e se divertindo tanto que a gente não quis falar nada. Vamos marcar um novo show pra daqui um mês?”. E a gente voltou a ensaiar, ensaiar e ensaiar, e ficou um pouco melhor. Ai a gente começou a divulgar…

Esse momento, esse clique nos interessa. Como surgiu em vocês essa vontade de mostrar o trabalho, essa coisa de acreditar que vocês estavam fazendo algo legal…

Heitor: A gente nem tinha público. Ninguém nos conhecia além de alguns amigos. A idéia foi gravar e depois começar a divulgar. Parti do pressuposto de que com o disco eu iria conseguir chegar às pessoas, chegar nas casas e conseguir um espaço para fazer show. A gente já tinha percebido que a recepção da galera tinha sido muito positiva nos shows anteriores. Não era só elogio de amigo. Era gente comentando a letra, a música, sabe. E acho que isso acabou incentivando mais a gente.

E vocês, Nevilton? Como foi gravar os EPs que renderam o Pacotão?

Nevilton: Desde que fiz “A Base do Teto Desaba” comecei a aprender umas coisas de gravações… em casa mesmo. Tanto é que as gravações do Pacotão são todas caseiras…

Você ainda não tinha entrado em estúdio em Umuarama?

Nevilton: Não. No meu caso, é tudo caseiro. Os meninos já tinham entrado em estúdio com a Hypnoise, mas eu tinha mesa de som, um computador e um programa, e comecei a mexer com isso, comecei a aprender algumas coisas. Um dia vou achar uma cópia do “A Base do Teto Desaba” e trago pra vocês. É horrível (risos). É natural. Guitarra e voz. Uma música ou outra que a gente fazia uma arranjinho com teclado, Fruit Loop (risos). No “Pacotão”, a bateria das três últimas músicas, que são da nossa primeira demo, são todas em Fruit Loop. Eu tinha que gravar tudo. A gente participava de um site chamado DemoClub e já tinha música publicada no começinho do Trama Virtual. No começo, a parada do Trama Virtual era Cansei de Ser Sexy, Bonde do Role, Leela e Nevilton de Alencar, em sétimo com uma música chamada “Flores”, que era de uma gravação bizarra: guitarra, gaita e voz. A gente vai rearranjar ela. E desde essa época eu comecei a divulgar, mandar pra todos os amigos, e de gostar dessa coisa de gravar. Quando a gente voltou de Los Angeles, eu trouxe vários equipamentos que ajudaram a facilitar o processo todo…

Como foi essa ida para Los Angeles?

Nevilton: A Superlego começou a se desmaterializar e eu o Lobão decidimos viajar. “Vamos viver em inglês um pouquinho?”. Foi uma idéia maluca. A gente teve um mês pra vir pra São Paulo, pegar o visto e ir. Chegamos lá e ficamos fascinados. Tinha um monte de shows de bandas que a gente nunca tinha ouvido falar, tipo My Morning Jacket. Um puta show animal com som foda, iluminação bonita, e tudo organizado. Vimos vários artistas em lugares menores e voltamos super empolgados. Decidimos apostar naquelas músicas, coisas como “Delicadeza”, que é uma parceria minha com o Lobão, “A Máscara”, que a gente tocava na Superlego. Fiquei pensando que não queria montar uma banda nova que, do nada, os caras desanimassem e a gente tivesse que mudar o nome. “Vai ser Nevilton e quem quiser nos acompanhar que nos acompanhe”…

Quanto tempo vocês ficaram lá?

Nevilton: Seis meses. Foi o suficiente para ter um puta choque.

Fazendo o que lá?

Nevilton: Qualquer coisa (risos). A gente foi pra lá num esquema de trabalhar em staff, em shows e eventos, tipo a Semana do Automóvel de Los Angeles. A gente ficava lá trabalhando “overnight” em vários empregos. De showzinhos a showzões. Shows de hip hop maluco, mas a gente também viu dois shows do Foo Fighters, Elvis Perkins, três shows do Guns ‘n Roses, Raconteurs, Gnars Barkley, Beck…

Trabalhando?

Nevilton: Trabalhando. Ganhava 80 dólares por cada show como segurança, e eles nunca colocavam a gente num lugar muito sério. Arranjavam lugares tipo a saída de emergência – olhando pro palco.

Eles pagavam para vocês verem os shows… risos

Nevilton: Sim (risos). A gente chegava duas horas antes pra pegar todas as coordenadas. Tipo um show do Guns, você tem muitas restrições. Ninguém podia entrar de cartola no local… e ai se o cara insistisse, a gente ia e chamava o supervisor, que era um cara bem forte (risos). A gente ganhava dinheiro pra ver esses shows, e ficava empolgado querendo fazer um som. Com o dinheiro que ganhei lá comprei microfone, controlador midi, notebook. Deixei todas as roupas lá e voltei com a mala cheia de coisinhas. O Lobão ficou mais um mês e meio, e assim que cheguei comecei a gravar “Balada da Vida Irônica”. O Lobão gravou o baixo de “Boleroteque” quando voltou, o resto eu já tinha feito. Ele chegou dia 27 de junho e eu já tinha fechado um show pro dia 30. E a partir do momento que eu peguei o gosto por gravar, divulgar ficou mais fácil, e fui virando esse marketeiro que sou hoje (risos).

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Heitor Humberto

Nesse ponto as duas bandas pegam um caminho diferente. O Heitor foi e gravou um disco enquanto vocês gravaram as demos, mas se concentraram nos shows…

Nevilton: Por causa das demos. A gente mandava para algumas bandas e fazia algumas parcerias. O primeiro show da Superlego em Maringá foi com a Família Palim. O primeiro show em Curitiba foi com a Poléxia, e a gente levou a Poléxia pra Umuarama, e foi um show legal numa boate bizarra. Foi lindo. A gente levou o Charme Chulo pra lá nessa época. Eles tocaram no mesmo dia de um baile de uma banda chamada Tradição, mas o bailão custava R$ 25 e o show do Charme Chulo era R$ 10 homens, R$ 8 mulheres, e lotou. Quando eles tocaram aquelas brincadeiras deles, “Moreninha Linda”, a galera dançava. Muito legal.

E a Banda Gentileza chegou a tocar fora de Curitiba nessa época?

Heitor: A gente tocava num bar de Curitiba tentando fazer o nome e ralando muito. Demorou pra ter público. Acho que no show que a gente fez semana passada em Curitiba finalmente tinha gente pra assistir de verdade. Antes eram amigos.

O disco Banda Gentileza foi gravado quando?

Heitor: Ano passado. A gente fez esse disco a jato. Decidimos que queríamos gravar um disco, e em janeiro já traçamos o cronograma do ano. Fechamos com o Plínio (Profeta, produtor), fechamos estúdio, fizemos ensaio até maio, quando o Plínio chegou para a pré-produção e em junho a gente foi para o estúdio. O disco tem 12 músicas, e a gente já tinha gravado várias nos dois GGG. Decidimos regrava-las porque gostávamos delas. Hoje em dia, por mim, eu regravaria todas (risos)…

O que você mudaria?

Heitor: Principalmente a voz. Foi a nossa primeira vez em estúdio, afinal, os dois anteriores eram ao vivo, e pelo fato da gente tocar sempre em barzinho com o som sempre bizarro e sem retorno, eu não sabia como eu cantava. Quando a gente foi gravar o disco eu pensei que precisava aprender a cantar e fui fazer aula de canto. Na primeira aula a professora falou: “Para de berrar. Agora. Pode cantar baixinho. No estúdio você aumenta o volume depois”. E então comecei a interpretar, tentar dar uma certa dinâmica para aquilo. “Preguiça”, por exemplo, eu acho que ficou bem boa, mas nas outras… eu poderia ter feito melhor, mas o que está no disco é bem espontâneo, sincero.

Você não está sozinho: todo mundo eclama da inexperiência no primeiro disco. O Rodrigo Lemos, inclusive, reclama da voz dele no primeiro disco da Poléxia…

Heitor: Ele acha frio…

Nevilton: E é um disco tão bonito. “O Avesso” é dessa época que a gente fez a festa em Umuarama e foi sensacional. A Poléxia fazia um trabalho bonito, tocava o coração…

Diego: Eles eram o top (em Curitiba) na época…

Heitor: Houve uma expectativa muito grande em Curitiba pelo disco deles. A gente ouvia a galera comentando: “Eles estão gravando”. “Eles vão lançar o disco”.

Diego: E ao vivo tinha o efeito Dudu, que era foda…

Qual foi o primeiro show que vocês viajaram tipo 100 km pra tocar?

Nevilton: Qualquer show pra gente é fora (risos), porque Maringá é 170km de Umuarama. Maringá foi um dos primeiros lugares em que a gente chegou tocando música própria. “Sem cover hoje. Sem tocar Nenhum de Nós” (risos).

Heitor: Antes de Umuarama mesmo?

Nevilton: Antes. Em Umuarama a gente estava fazendo um dinheirinho legal tocando nas duas boates que tinha na cidade, mas só cover, e lotava. A gente não passou barra em relação a público na região. A barra que a gente passou foi fora, lugares como Curitiba… teve uma vez lá que deu R$ 43 de bilheteria.

Heitor: Bem vindo a Curitiba (risos).

Quanto é um bom público em Umuarama?

Nevilton: No show da Poléxia foram 600 pessoas. A gente sempre tentava levar uma banda da região que tivesse fazendo algo autoral e uma banda de fora pra tocar com a gente lá.

Heitor: A gente fez algo parecido em Curitiba, o “Gentileza convida”. Era mensal e sempre tinha uma banda de Curitiba e outra de fora. Começamos com Supercordas, que estava bombando na Folha de São Paulo, e Charme Chulo, que estava na mesma onda. Fizemos um cartaz lindo, o preço estava acessível e… show vazio. O segundo foi Instiga e Sabonetes. Baixamos o preço, divulgamos e… ninguém foi. A gente fez outros…

Quando pegou?

Heitor: Não pegou! A gente fez um especial de natal no final do ano com um cartaz lindo. A galera comentou. O preço era R$ 3, convidamos integrantes de várias bandas de Curitiba – para que não houvesse outro evento concorrendo com a gente (risos) – e… bar vazio. Desde então desisti de produzir shows em Curitiba. Não pegou. Foi triste.

Nevilton: Nós tocamos três vezes em Curitiba em 2007, e nenhuma em 2008. A gente não tinha essa coisa de “saiu na Folha de São Paulo”, sabe, mas a gente fazia a nossa divulgação bizarra. Vários jornais do interior falavam da gente, mas porque nós mandávamos material pra eles.

Como vocês vêem as carreiras das bandas agora nesse cenário doido que a gente está vivendo? Como vocês pensam o futuro da Banda Gentileza e do Nevilton?

Heitor: Agora com o disco, percebemos uma ascensão nos últimos meses em termos de público…

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Em termos de crítica também. O disco foi eleito o 11º melhor álbum de 2009 na votação do Scream & Yell, sendo o melhor disco de estréia do ano…

Heitor: Sim, sim. A gente tocou em Joinville no final do ano e foi bem legal. Um mês e meio depois eles nos chamaram de novo pra tocar e a gente pensou: “Faz tão pouco tempo que tocamos lá. Será que vale a pena?”. Mas fomos e a casa lotou e tinha fila para entrar, a galera cantando as músicas. Daí voltamos pra tocar em Curitiba. Começou tarde, bar lotado, e a mesma coisa que Joinville, galera cantando e tal. Aqui em São Paulo o lugar era grande, era no final da tarde, choveu, e mesmo assim deu um público legal. Terminou o show e a galera veio pra cima do palco conversar, comprar CD. Teve dois caras que viajaram para nos ver. É tipo um sonho de moleque de você montar uma banda e ter uma receptividade, sabe. Já estou realizado. O trabalho agora é tentar fazer essa música chegar ao maior número de pessoas possível. Confesso que estou bem otimista e bastante animado.

Vocês têm alguma idéia de como fazer a música chegar a mais pessoas?

Heitor: A gente fez alguns brainstorms…

Diego: E acabou bêbado… (risos)

Heitor: Talvez fazer um clipe legal ajude bastante… porque ter uma entrevista, ter uma resenha não significa nada…

Diego: A minha prima leu a resenha que saiu do nosso disco na Folha de São Paulo, e o cara detona, e ela: “Que legal que saiu na Folha, que massa”. E eu: “Mas o cara não gostou”… (risos)

É aquele velho ditado: não existe publicidade ruim… porque vai o cara e diz que o disco não é bom porque lembra isso, isso e isso, e o leitor lê e pensa: “È exatamente o que eu gosto”…

Heitor: Tanto o cara do Globo quanto a Folha falaram: “A banda se perdeu em meio a muitas influências sem saber onde queria chegar”. E esse foi o ponto que mais elogiaram em todos os outros lugares, essa coisa de dar uma unidade a tantas coisas diferentes.

E você, Nevilton. Como foi receber a notícia de que vocês fizeram o segundo melho show nacional do ano, segundo a votação do Scream & Yell?

Nevilton: Fiquei assustado, mas acho que a nossa tática está funcionando, que é de tocar em qualquer lugar. E isso só está ajudando. Quando a gente completou dois anos de banda já tínhamos 100 shows. É show pra caramba. E isso faz a gente criar pegada, anima cada vez mais…

Faz vocês pularem cada vez mais alto (risos)…

Nevilton: E eu já descobri que dar cambalhota não é uma boa idéia (risos). Fiquei com uma dor na coluna por dois meses… mas isso tudo é resultado da gente estar tocando muito… e metendo a cara. Eu sempre fui muito otimista. Tanto é que o Lobão não ia largar o emprego no Banco do Brasil se não tivesse um cara com ele que acreditasse muito nas coisas. As nossas músicas sempre foram acessíveis. Não tem crise. A gente mostra pra mãe dos amigos, e elas gostam. Os amigos gostam. Por que uma pessoal normal no fim de tarde, passando roupa e ouvindo rádio, não vai gostar de uma música dessas?

Heitor: É a mesma coisa que a gente sente…

Nevilton: A nossa tática pra chegar até a galera é tocar em todas as situações possíveis que estiverem ao nosso alcance. Vai virando uma bola de neve.

Ser um trio facilita pra vocês?

Nevilton: Facilita muito… (risos)

Ser um sexteto dificulta pra vocês, Heitor?

Heitor: Das seis pessoas, duas volta e meia tem plantão no fim de semana.

Nevilton: Tenho certeza que a Banda Gentileza não tocou em Umuarama ainda porque é mais difícil levar vocês. A Poléxia foi num carro só… o Charme Chulo também… o Terminal Guadalupe só tocou em Umuarama porque eles já tinham fechado Paraíso do Norte e Maringá. A gente tem um Uno, que a gente bateu depois de um show: “Chorei. Acabou. Acabou”, mas nessa última viagem ele fez 17km o litro (risos). Ele agüenta muita viagem ainda (mais risos). Você coloca o trio ali dentro, enche de comida e vamos encarando. Demoramos dois dias de estrada para chegar em Palmas para um show. No dia seguinte, o jornal do Estado do Tocantins dizia: “Na noite do Pato Fu, o melhor show foi de uma banda do Paraná, Nevilton”. Isso não tem preço.

Já que falamos do futuro, queremos saber um pouco do passado e o quanto incomoda vocês quando alguém escreve, por exemplo, no caso da Banda Gentileza, que vocês lembram Los Hermanos...

Nevilton: A gente fala em Los Hermanos. Acho que hoje em dia, qualquer coisa lembra…

Heitor: Não tem ranço, não incomoda, mas eu fico pensando: “É só isso que ele consegue escrever?”. Não dá para levar muito a sério um cara que escreve isso. A Adriane Perin escreveu no blog da De Inverno uma coisa legal após ter visto um show nosso: “Volta e meia comparam eles a Los Hermanos, mas não foram os Los Hermanos os primeiros a misturar rock com MPB. Por que eles não são comparados a Novos Baianos?”.

Mas é diferente. Pra essa nova geração, da qual vocês fazem parte, o Los Hermanos bateu muito forte. Tanto que não só o “Bloco do Eu Sozinho” ganhou disparado a votação de Melhores da Década, como o “Ventura” ficou em segundo com uma larga vantagem. Por isso queremos saber: o Los Hermanos influenciou vocês? Quais bandas influenciaram?

Heitor: Pô, foi no início da faculdade (o sucesso do Los Hermanos) e bateu muito forte. Eu não gostava do rock nacional, porque nada me agradava, não dizia nada pra mim. E fui ouvir o “Bloco” um tempo depois de lançado. Eu vi o clipe de “Todo Carnaval Tem Seu Fim” na MTV, numa madrugada, e fiquei pensando: “Eles estão fazendo isso?!?!”. Não tinha nada a ver com o primeiro disco, era diferente. Comecei a ouvir, ouvir e ouvir e não tinha ninguém fazendo aquilo. Tinha uma qualidade nas letras, uma preocupação estética, mas com muita espontaneidade. Aquilo é muito sincero, autêntico. Bateu e bateu muito forte. Havia uma comoção no país inteiro, shows lotados com todo mundo cantando de cabo a rabo todas as canções. A influência é inegável, mas não é só isso.

Diego: Tanto é que gravamos o disco agora, e a banda são seis pessoas: cada uma escuta uma coisa diferente.

Heitor: Perguntaram pra nós, numa entrevista, o que cada um estava ouvindo, e eu nunca tinha parado para pensar nisso, e cada um falou uma coisa diferente. Então, tem uma influência grande (de Los Hermanos), mas não é só isso. Não é difícil perceber.  Agora eu pergunto pra vocês, que são do meio, porque será que falam isso?

Por vários pequenos motivos: o espaço para uma resenha em um jornal ou numa revista é mínimo. Você precisa apresentar algo para o leitor de uma forma rápida, sucinta, e que faça com que ela leia e tenha uma idéia do som. Impresso é diferente de site, por exemplo, que não há limitação de toques. Essa entrevista de duas horas vai entrar inteira. Na revista seria 1/5 dela. Então, no impresso, você precisa focar em imagens que ampliem o universo para o leitor.

Heitor: Mas é de uma forma negativa?

Não acredito. De repente o cara achou que o som era apenas isso, e cravou. É a leitura dele. É uma maneira de situar o leitor…

Heitor: Mas no nosso caso não é só isso…

Mas é a referência que mais bate.

Nevilton: No meu caso, o Los Hermanos me aproximou da música brasileira. Tive outras aproximações também, mas o Los Hermanos impressionou. Não era como ouvir um disco do Chico Buarque ou um do Detonautas. Era novo, acessível.

Heitor: E o Mombojó veio na cauda, depois veio o Móveis (Colônias de Acaju). Porque quando se fala deles ninguém fala em Los Hermanos?

O Mombojó é cauda mesmo, mas ai já rola uma diferença estética. O Los Hermanos era Chico Buarque. O Mombojó era Jorge Ben. E isso faz diferença. Mas tem algo ali, inevitável. Já o Móveis… o público do Móveis é herança dos Los Hermanos. E o “C_mpl_te” aproximou ainda mais as duas bandas, sonoramente.

Nevilton: Foi o Lobão quem me mostrou o Mombojó pela primeira vez. Ele tinha ido ver o show do Pixies, em Curitiba, e o Mombojó abriu. E depois, quando rolou aquele show com a gente, Banda Gentileza, Charme Chulo e Vanguart, vocês tocaram uma versão de “Adelaide”, do Mombojó, e ficou lindinha…

Diego: E que verso bonito, né: “O que eu entendo por seu meu é tudo que posso lhe dar”…

Nevilton, e quando falam pra você “Nando Reis”. O que você acha?

Nevilton: Eu acho divertido. Não está estreitando. É muito por causa de “A Máscara”. Talvez pelo jeito que a gente tenha gravado… a estrutura daquela demo talvez lembre algumas coisas, mas eu nunca tive um contato muito próximo com o som do Nando Reis. Faz pouco tempo ganhei aquele disco que ele gravou em Seattle, “Para Quando o Arco-íris Encontrar o Pote de Ouro”…

Diego: E tem o seu timbre de voz…

Nevilton: Mas se falar das minhas desafinações comparando com o Nando Reis, eu ouço muito mais Stephen Malkmus e… eu acho ok (risos). Não me sinto nem um pouco ofendido com nada. Sem contar que o Nando Reis às vezes até aproxima outras pessoas, tipo: “Oi, eu sou do fã clube do Nando Reis”, e eu: “Que legal, você gostou da nossa música?”. E ela: “Gostei, gostei pra caramba”. Que lindo.

Tem gente que já falou em The Who…

Nevilton: Olha a impressão que a gente está dando (risos)…

…e o Supegrass dos primeiros discos…

Nevilton: Hoje estou ouvindo mais Supergrass. E conhecia, mas comecei a ouvir mais depois que o pessoal começou a comentar. E fui ouvir para descobrir o porquê, né. Me identifiquei muito. Tem vários backing vocals no estilo “lalalalalalalala” e umas coisas muito divertidas. Mas eu conhecia o “In It for the Money” e o “I Should Coco” muito superficialmente. Não foi uma influência direta.

Talvez sejam as mesmas referências…

Nevilton: Talvez o The Who…

Sem pensar muito: tem uns sete mil CDs aqui. Se tivesse que pegar um e sair correndo, qual seria?

Heitor: Um só? … Acho que iria ser o disco que mais me marcou, que é o “Roots”, do Sepultura. Marcou demais.

Nevilton: Não sei. Juro que não sei. Acho que seria o máximo que coubesse na minha mão. Eu sempre tive contato com Pavement por MP3. Talvez eu levasse uns Pavement… mas é muita coisa boa.

Quais bandas com quem vocês tocaram juntos ou já viram ao vivo que vocês acharam fodas?

Heitor: Móveis Coloniais de Acaju. Você sai de casa pra ver uma parada que te deixa feliz.

Nevilton: Eu fui ver eles no Planeta Terra e me chocou. Na hora que eu entrei já tinha um buraco no meio da platéia e eles estavam lá agitando. Que louco. Mas tem vários shows que me deixaram impressionado. Por exemplo, eu conhecia as músicas do Beto Só fazia uns quatro anos, mas nunca esperava ver ele ao vivo, já que ele não tem uma agenda lotada, e fui vê-lo em Curitiba, e foi um show lindo. Um show incontestável é o do Macaco Bong. Vi alguns shows deles, e todos foram chocantes. Eles fizeram um show com a Pata de Elefante no Itaú Cultural que, pra mim, separou meninos de homens. O show deles foi amplo, abriu a história. Das bandas que conheço, o grande show é o do Macaco Bong.

E o que vocês pensam de suas bandas no futuro?

Nevilton: O mesmo que eu vinha pensando dois anos atrás, mas com muito mais animo. Eu já era animado sem saber que existia uma critica que falava de pessoas que não estão na mídia, reles mortais (risos), hoje em dia sou muito mais “putinha” do que era (mais risos). Tem muita música ainda pra fazer. Tem uma turnê pela frente. Nós já confirmamos o Abril Pro Rock, no Recife, e vamos aproveitar o festival para fazer mais umas dez datas no Nordeste. Eu vejo que vamos fazer mais de 50 shows até junho. Se em 2009 foram 49 shows no ano, em seis meses de 2010 a gente já vai ter feito isso. É a tática que eu falei antes: a gente vai atingir muita gente pessoalmente, no palco. Não há negatividade. Está muito legal…

Heitor: Eu quero montar um trio (risos) e fazer 50 shows até o meio do ano (mais risos).
Diego: A gente está pensando em dividir a Banda Gentileza em dois trios… (risos), mas… sério, a gente ainda nem começou…

Heitor: Temos plena noção disso. A gente precisa plantar mais, precisa fazer a música chegar ás pessoas. Temos uma dificuldade muito grande de fazer show. Existe convite que a gente recusa porque não tem como faltar dois dias no trabalho. Estamos buscando meios…

Diego: Um milionário para adotar a gente (risos)…

Heitor: … mas a gente também está otimista. A recepção está sendo muito boa, então o plano é continuar o trabalho. Divulgar, circular, tocar. Quando a gente decidiu gravar o disco, estávamos numa reunião na casa do Artur (Lipori), e conversamos: “Vai custar tanto. A gente não tem esse dinheiro. Vamos ter que fazer uma dívida. Vai valer a pena?”. A gente gravou e está acontecendo um monte de coisa legal. O disco não passou em branco, entrou em listas de melhores do ano, estou realizado. Agora é pensar no segundo disco…

O rei do rancor?

fevereiro 20, 2010

O título do post também podia ser “As polêmicas de Ed Motta”. O cantor deu uma entrevista curta para a Billboard deste mês sobre o último disco, Piquenique. Lá no final, a alfinetada.

Billboard: Você já mencionou que seu disco favorito é Aja, do Steely Dan. Por quê?

Ed Motta: Pela qualidade de estúdio, excelência de composição, até pelo ponto de vista técnico. É uma música bem feita, bem executada e feita por músicos, tudo que acabou no mundo. Desde Malcolm McLaren (empresário do Sex Pistols de 75 a 78) é esse monte de bicão que não sabe tocar, é aplaudido e ainda ganha muito dinheiro.”

Lembrei na hora da discussão dele com o Álvaro Pereira Jr., editor do Fantástico e colunista da Folha de São Paulo, no Altas Horas. A partir de 5’20” – e as respostas do APJ são sensacionais.

Novas de Rômulo Fróes – e o projeto Versão Brasileira

fevereiro 20, 2010

Rômulo Fróes tocou algumas músicas inéditas que devem fazer parte de seu próximo álbum, Um Labirinto em Cada Pé, na noite de quinta-feira, 18/02, no CB. O show já contou com a participação de Rodrigo Campos, recém incorporado à banda de Rômulo, no cavaquinho e violão. As músicas (uma no vídeo acima, outra abaixo) já mostram uma volta ao samba mais “balançado” que Rômulo pretendo com o novo disco. Vale a pena esperar.

Aliás, você pode ler mais sobre Um Labirinto em Cada Pé na próxima edição da Rolling Stone, com textinho meu. A entrevista, feita um pouco antes do carnaval, foi responsável pelo meu maior arrependimento do ano até agora. Esqueci de levar o gravador e, depois de terminar as perguntas da pauta, a conversa ainda rolou por mais de hora e meia, num bate-papo natural sobre música brasileira que mostrou que Rômulo é um dos artistas mais articulados e lúcidos dessa nova geração. Agora aprendi a lição: nunca deixar de levar gravador pra entrevista. Mas é um erro que deve ser corrigido em breve, numa parceria legal com o Scream & Yell que deve trazer ótimas entrevistas para este espaço.

O show de Rômulo no CB fez parte do projeto Versão Brasileira, idealizado pelo próprio cantor e pelas meninas da Agência Alavanca. A nova festa leva a nova geração da MPB para um dos templos de “rock de roqueiro” de São Paulo, uma iniciativa interessante e até ousada, de certa forma. O show de Curumin, no dia 04/02, inaugurou o projeto em grande estilo, com o baterista apresentando as músicas de Japan Pop Show em sua melhor forma. Semana que vem, dia 25, a festa encerra seu primeiro mês em grande estilo, com show dos cariocas do Do Amor. Imperdível.

Vídeos do Rômulo do Mac e do Curumin do Bruno =)

Porque é carnaval

fevereiro 12, 2010

O Móveis Coloniais de Acaju gravou essa semana nos estúdios da Trama uma versão carnavalesca de “Adeus”, a música que abre o segundo disco da banda, C_mpl_te. Dá para baixar a música aqui.

Nevilton lança o EP pressuposto – e alguns discos para ouvir em 2010

fevereiro 10, 2010

capa

A banda paranaense Nevilton colocou na internet esta madrugada o EP Pressuposto, que pode ser baixado de graça aqui ou aqui. O lançamento é uma prévia do disco da banda, que sai na metade do ano. Criada em Umuarama em 2007, após o guitarrista Nevilton e o baixista Lobão voltarem de uma temporada de seis meses em Los Angeles, a banda chamou a atenção da crítica no começo de 2009, se tornando uma das apostas da cena independente nacional com seu show explosivo e contagiante. No ano passado o trio – com o baterista Chapolla – rodou o Brasil nos festivais independentes e fez cerca de 50 shows. Para este ano, a meta é atingir a marca de 100 shows. Com uma sonoridade retrô britânica aliada a um bom pop radiofônico, a banda já foi chamada por aí de “o Supergrass brasileiro”. Faz sentido. Saca o vídeo que os chapas do Urbanaque fizeram do último show da banda, no Centro Cultural São Paulo.

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E os discos mais esperados de bandas nacionais para 2010? O Lívio tá fazendo um levantamento bem interessante sobre isso lá no Bloody Pop. Além dos discos que ele já citou lá (destaque meu para o Cérebro Eletrônico, no vídeo acima), quem também promete bastante para este ano são as bandas guitarreiras que vêm do sul. O Superguidis já lançou o primeiro single, Não Fosse o Bom Humor, e prepara o terceiro álbum para o final de março. O guitarrista Lucas Pocamacha deu detalhes sobre o lançamento em entrevista para o Urbanaque.

O trio Walverdes também já está com o disco novo pronto, que sai pela Monstro sem data definida ainda. Um amigo que ouviu disse que está muito bom, menos pesado e mais guitarreiro, tão bom e impactante quanto o grande lançamento da banda, Anticontrole.

Mas, pessoalmente, o disco mais esperado do ano é o dos cariocas do Do Amor, que soltaram na rede no fim de semana o clipe acima, meio nonsense, da música “Cachoeira”. O disco homônimo está na fase de mixagem e deve sair no final de março. A lista de faixas é essa que segue abaixo.

1-“Vem Me Dar” (Gustavo Benjão/Marcelo Callado)
2-“Chalé” (Ricardo Dias Gomes)
3-“Morena Russa” (Gustavo Benjão)
4-“Shop-Chop” (Ricardo Dias Gomes)
5-“I Picture Myself” (Ricardo Dias Gomes)
6-“Perdizes” (Marcelo Callado)
7-“Meu Corpo Ali” (Marcelo Callado)
8-“Brainy Dayz” (Gustavo Benjão/Gabriel Bubu)
9-“Dar Uma Banda” (Gabriel Bubu/Gustavo Benjão)
10-“Homem-bicho” (Gustavo Benjão/Marcelo Callado/Gabriel Bubu/Ricardo Dias Gomes)
11-“Pepeu Baixou Em Mim” (Gustavo Benjão/Marcelo Callado)
12-“Exploit” (Ricardo Dias Gomes/Gabriel Bubu)
13-“Isso é Carimbó” (Gustavo Benjão)
14-“Lindo Lago Do Amor” (Gonzaguinha)

Para quem acompanha a banda – que faz uma fusão de axé, carimbó, indie, lambada e tantos outros ritmos sem perder a qualidade – o setlist já é bem conhecido e vem com cara de best of. A banda foi uma das sensações do circuito de festivais independentes em 2008 e angariou fãs pelo Brasil. Depois de um hiato quase sem shows em 2009, muito por causa do lançamento de Zii & Zie, de Caetano Veloso (o baterista Marcelo Callado e o baixista Ricardo Dias Gomes fazem parte da banda Cê, que acompanha Veloso), a banda promete voltar com força total aos palcos em 2010. Se você gosta de Vampire Weekend, não deixe de ouvir.

Cover de "Everybody Hurts" pelo Haiti é lançada

fevereiro 8, 2010

Foi lançada neste domingo, 07/02, durante o SuperBowl, a cover da música “Everybody Hurts”, do REM, gravada para arrecadar fundos para o Haiti. A canção pode ser comprada pela internet na Amazon neste link. A versão em CD estará disponível a partir de hoje.

Produzida por Simon Cowell, de “American Idol”, “Britain’s Got Talent” e “X-Factor”, a música tem participação de astros da música como Robbie Willians, Rod Stewart, Jon Bon Jovi, Susan Boyle e Miley Cyrus. O vídeo da canção, publicado acima, mistura imagens da gravação em Los Angeles com cenas da devastação provocada pelo terremoto no dia 12 de janeiro no Haiti.

Leia também: Astros regravam “We Are the World” pelo Haiti

Uma hora de música brasileira selecionada por mim

fevereiro 5, 2010

Nessa sexta fiz uma seleção de 16 músicas para o programa Play Unbuttoned, da Rádio Levi’s. Só entrou música brasileira, sem muito compromisso com atualidade ou gênero musical. Teve rock, psicodelismo, rock rural, samba-rock, brega-psicodélico e axé indie. Dá uma olhada no setlist =)

“Sobre o Amor e seu Trabalho Silencioso” – Ceu
“Cangote” – Ceu
“A Casa é Sua” – Arnaldo Antunes
“O Tempo” – Móveis Coloniais de Acaju
“Coração Atonal” – Zeca Viana
“Me Adora” – Pitty
“Magrela Fever” –  Curumin
“Mais” – Pipodélica
“Unicórnio 2D” – Bonifrate
“Céu Sem Cor” – Pelebrói Não Sei
“Chapecó” – Repolho
“Música de Amor” – Autoramas
“Dói” – Cidadão Instigado
“Pepeu Baixou em Mim” – Do Amor
“Galo Maringá” –  Charme Chulo
“Não Fosse o Bom Humor” – Superguidis

Entrevista Pitty

fevereiro 1, 2010

pitty

“É bom que as pessoas que gostam da gente se acostumem porque eu sou inquieta pra caralho e nunca vou conseguir fazer o mesmo sempre.” Pitty, a autora da frase, começa 2010 já com uma novidade no currículo: dia 13 de fevereiro toca pela primeira vez em um trio elétrico no carnaval de Salvador, dentro do Circuito Osmar. Se isso vai desagradar os fãs xiitas, a baiana parece não estar nem aí.

Foi assim quando lançou no ano passado “Me Adora”, o primeiro single de seu terceiro trabalho em estúdio, Chiaroscuro. Balada fortemente influenciada pelos grupos vocais femininos da Motown, a música causou estranheza em alguns e conquistou outros tantos. Ironia do destino, uma música que contém um semi-desabafo contra a crítica musical foi eleita a 5ª melhor do ano pela revista Rolling Stone – com voto meu, inclusive.

Na entrevista abaixo, feita no finalzinho do ano passado, Pitty admite que está em plena evolução musical, que o último disco traz elementos que a cantora queria usar há muito tempo. Apesar de ainda trazer várias letras fracas, Chiaroscuro representa uma ótima evolução sonora. A cantora aprendeu a trabalhar com as sutilezas, e “Me Adora” é um grande exemplo disso, ao não precisar ser direta para expressar sua mensagem.

É como se a cantora saísse de uma certa adolescência musical que predominava nos primeiros discos, em um amadurecimento claro e que todas as pessoas têm em algum momento da vida, mas que poucas vezes é acompanhado como o dela, uma pessoa pública e que expressa muito de si em suas letras. Acompanhar os próximos capítulos dessa história pode trazer boas surpresas. Quem sabe num futuro não muito distante Pitty consiga processar em um disco completo todas as idéias e a criatividade que fizeram de “Me Adora” uma das grandes músicas de 2009 no Brasil.

(Aproveita e, além da entrevista abaixo, lê a resenha do show de lançamento de Chiaroscuro que eu fiz no iG Música)

No dia do show do lançamento em São Paulo, você falou que várias coisas mudaram entre o segundo e o terceiro discos. Quais foram as principais mudanças?

Essa coisa do tempo, ele vai passando e a gente vai adquirindo coisas novas e descobre novas formas de fazer as coisas. O que eu senti de diferença entre os primeiros discos e esse foi o aprendizado das coisas que vêm com o tempo. Por mais que às vezes eu tivesse vontade de fazer algumas coisas que eu fiz no Chiaroscuro antes, eu nem sabia como chegar naquilo.

Que coisas?

– Eu sempre pirei muito em coros, sempre gostei muito de blues e jazz, e aqueles coros meio Motown, mas eu não sabia como fazer pra executar aquilo dentro do meu som, não sabia como juntar. Nesse disco eu já consegui chegar mais perto do resultado que eu imaginava.

As músicas do disco novo parecem mais densas, intensas. Há uma explicação para isso?

– Não tem explicação racional, só posso supor, assim como todo mundo. Também concordo com você. Não sei objetivamente, mas eu atribuo ao tempo, a gente vai se descobrindo ao passo que fica mais velho, vai descobrindo do que gosta, o que é influencia mais externa, o que é passageira.

Há um clichê no rock que diz que à medida que as bandas crescem elas amadurecem e suavizam o som. Com você foi o contrário, ta mais pesado que os outros.

– Hoje o som pesado pra mim ta associado a outras coisas. Som pesado pra mim quando eu era mais nova era guitarra alta, distorcida e rápida. Eu descobri que não é apenas isso, peso tem a ver com densidade, com elementos, com timbre, tem a ver com a mixagem da música, a ordem que você coloca os elementos, camadas, você pode fazer uma música muito mais pesada se você tiver várias camadas sonoras. Nesse disco eu experimentei muito as texturas, em todas as músicas tem uma camada de som que você não identifica a primeira vez que houve, mas ela está lá, pra fazer essa parede, isso faz com que a música fique mais densa. Foi um lance que eu saquei escutando coisas como TV On The Radio, Last Shadow Puppets, Scarlett Johansson, escutando as músicas deles eu pensava que aquilo não era necessariamente pesado mas é denso pra caramba. Por que, como? Ai eu fui pesquisar como eles faziam isso e descobri o lance das texturas, das camadas diferentes. E as bandas influenciaram de uma forma sutil, porque dificilmente quem ouve meu disco reconhece essa influência, mas tá ali. Você pega um pouco de tudo que ouve. Eu acho esse disco bem foda em termos de textura.

Você possui muitas letras confessionais. Parafraseando o filme “Quase Famosos”, é preciso ter vivido uma situação para escrever sobre, é preciso sofrer por amor pra escrever sobre isso?

– Depende. Tem gente que consegue captar a dor do outro sem nunca ter vivido e tem gente que só sabe escrever sobre coisas que sentiu. Eu me encaixo na segunda opção. Eu não tenho a sensibilidade de outras pessoas sentirem, tipo o Chico Buarque que escreve de uma forma feminina, mas ele não é mulher. Ele consegue captar a parada. Eu não tenho muito isso, me expresso melhor sobre coisas que eu senti, por isso fica bem confessional. Eu costumo escrever muito em primeira pessoa, e talvez isso seja um reflexo do ter que sentir para escrever. Já tentei, como exercício, escrever em terceira pessoa, escrever sobre um fato isolado. Ainda tô nesse exercício, quero descobrir outras formas de escrever, mas até então minha melhor forma de expressão tem sido a respeito de coisas que eu senti.

Então, se você escreve sobre as coisas que realmente sente, falando da música que abre o disco, “8 ou 80”, você se diverte mais com os culpados? Você também é uma culpada? O que é ser um culpado?

– Totalmente, me divirto mais com os culpados. O que eu escrevo é muito verdade, são confissões. O refrão de 8 ou 80 foi uma conclusão que cheguei que as pessoas que eu mais me dou bem são aquelas que não são convencionais perante a sociedade, que não agem de acordo com todas as regras, os marginais. Eu me identifico com eles, com os malditos, é pra eles que eu olho com admiração, tipo “achei minha galera”. Claro, eu consigo conviver com os inocentes, mas acho que eles são muito inofensivos, o fato de ser inofensivo não cria em mim uma fascinação tão grande quanto as pessoas que vivem de forma marginal.

Dá pra dizer que escrever é uma terapia pra você?

– Totalmente, é minha maior terapia e no momento a única, desde que eu me entendo por gente, desde que aprendi a escrever, eu soube que isso me fazia muito bem. Começou de forma bem cotidiana, de ser menina e ter um diário, aos 8 anos de idade. Com o tempo isso foi evoluindo, a escrita foi ficando cada vez mais profunda e reveladora e mais com caráter aliviador pra mim. Durante muito tempo, até hoje, eu consigo resolver coisas no papel que eu não consigo resolver na vida real. Elaborando essas questões a meu respeito e às coisas à minha volta no papel eu consigo olhar pra elas com um distanciamento que é saudável pra mim, é como se tirasse isso de mim e observasse de fora e me entendesse um pouco mais.

Falando especificamente do primeiro single, “Me Adora”, quando você tocou ele no mesmo show em São Paulo fez meio que um desabafo, falando que algumas pessoas tinham reagido mal a talvez a musica mais diferente que você gravou até hoje. Rolou isso de fã não entender?

– A aceitação foi maior que a não aceitação. Ela é uma música que tem suas peculiaridades dentro da nossa carreira, é diferente do que a gente tinha feito, tem um refrão com um palavrão, óbvio que ia causar uma reação desagradável em algumas pessoas. Não é uma canção fácil, apesar de ser muito pop e melódica, mas é um pop estranho, tem suas arestas, não é macia, não desce redondo. O que rolou de não aceitação é que alguns fãs antigos são muito radicais, querem que a banda continue sempre a mesma coisa, tem saudade do que a banda fez no primeiro disco, e é normal esse tipo de gente existir. Acho que, na verdade, é a maioria das pessoas, que querem que as coisas continuem do jeito que elas conhecem, a mudança traz desconforto. Mudança é você lidar com o novo, é pensar tudo de novo sobre uma coisa, então muita gente teve que repensar a nosso respeito. Isso traz um conflito, mas é pro bem. É bom que as pessoas que gostam da gente se acostumem porque eu sou inquieta pra caralho e nunca vou conseguir fazer o mesmo sempre, então se eles têm essa expectativa é melhor gostar de outra coisa que vai ser sempre igual, que eles vão se decepcionar menos. Porque eu acho que mudança é sempre positiva, é sempre pra frente. “Me Adora” trouxe tanta coisa boa, pra gente foi tão bacana ouvir pessoas que nem gostavam do nosso som e falaram “agora sim, agora bateu”. Pessoas mais velhas que têm outras referências, que não são as mesmas de um moleque de 14 anos. Galera mais nova vai reconhecer isso daqui um tempo, eu sei porque quando eu tinha 14 anos eu também não conhecia, eu conhecia Dead Kennedys e Bad Brains e achava que aquilo era tudo na vida. É 80%, mas não é tudo. Teve mais benesses que coisas ruins. Valeu a pena comprar essa briga.

E você já falou que, além de ser uma música de amor, ela também é uma música pra crítica musical. Teve alguma crítica especifica em todo esse tempo que te incomodou demais, que essa música seja uma resposta?

– Não é pra nenhum fato específico, não foi pra um jornalista específico, mas na real “Me Adora”, quando aplicada a essa circunstância, é um resumo de tudo que aconteceu desde o começo até hoje. Foi meu jeito de observar todas as vezes que a gente foi criticado de maneira completamente superficial e leviana, até o fato de você se deparar com a preguiça mental de um monte de gente que tá ali pra resenhar sua obra mas que não tá muito preocupado em descobrir qual a parada, tá a fim mesmo de te colocar no mesmo balaio da nova geração do rock e tal, tá na mesma época é tudo igual. Existe gente que vai resenhar o disco e ouve cinco segundos de cada faixa só porque é um trabalho, ele tá ali sem vontade, e acha que já tem opinião pra falar sobre aquilo. O grande negocio é aprender a lidar com isso. Por que ao mesmo tempo tem outra galera que ouve com cuidado e que por mais que não goste do som consegue sacar o que tem de bom e ruim ali. E eu dou muito valor às críticas construtivas, é bacana ter a visão de fora. O que eu mais gosto nesta música, voltando, é o duplo sentido, é o fato de que ela é um mistério, ela pode ser aplicada a tudo isso e a mais n situações que você pensar.

E qual foi a experiência de gravar o disco com uma câmera registrando tudo, teve desconforto?

– Desconforto nenhum, mas só pelo fato de que o (Ricardo) Spencer é um amigo íntimo há muitos anos, não era um cara com uma câmera, era ele, nosso brother, que eu conheço desde que tenho 15 anos. Então o conforto e tranqüilidade vêm disso, e de confiar nele totalmente, de saber que as coisas que ele vai captar são condizentes, eu conheço ele enquanto cineasta e sei das referências dele, que são iguais às minhas, então tem uma confiança enorme no trabalho um do outro.

Quem te chama atenção no rock brasileiro independente hoje em dia?

– Tem muita gente legal fazendo coisas no underground, e eu acompanho porque são todos meus amigos. Muita coisa fico sabendo por causa do Fabrício Nobre, essa galera que tá sempre fomentando a cena, e são todos meus amigos desde aquela época. Das bandas novas eu sou completamente apaixonada pelo Macaco Bong, acho um absurdo os três no palco, Bruno (Kayapy) é o Hendrix da minha vida. Gostei muito do Black Drawing Chalks, de Goiânia, ouvi umas músicas na internet. De banda novíssima essas duas, gosto muito do Vanguart, curto muito o primeiro disco. Tem o Instituto que eu acho massa, eles tem uma noite de dub que você vai e dança a noite toda. As coisas tão rolando, e a distância da visão das pessoas e realidade ao meu respeito é muito louca, a banda deu certo e hoje eu tenho a oportunidade de tocar no programa da Hebe, mas as pessoas não sabem que eu continuo andando com a mesma galera, continuo indo ver show aqui na Augusta.

Você acha que rock no Brasil é gueto?

– Ainda é gueto, mas acho que já foi mais. Pra deixar de ser, a própria galera que faz rock tem que perder um pouco o medo de se deparar com as coisas mais populares. Sinto que o pessoal tem muito medo, toda vez que aparece uma oportunidade mais popular pra fazer, tem medo do que vão falar, de “se eu for em tal programa vão achar quer eu não sou mais rock”. Tem que se desprender dos medos e ser a mesma banda no Inferno ou na Virada do Ano na Paulista.

Bateu esse medo em você quando saiu do independente de Salvador?

Bateu e bate. Por que eu sei que a visão das pessoas fica meio turva quando você vai pra grande mídia. A gente precisa da grande mídia pra divulgar o nosso som, mas às vezes ela não tá preparada pra divulgar esse tipo de som. Rola um certo desconhecimento, desse tipo de segmento, então acaba te juntando com um monte de coisa que é nada a ver. Claro que bateu o medo, e bate até hoje. Muitas das coisas que eu não fiz na minha carreira foi por causa desse medo, de ser confundida, tipo “se eu fizer isso aqui eu sei que vou falar pra um monte de gente, mas uma galera que curte rock vai achar que agora zoou mesmo”. Então são muitas escolhas. Tenho consciência de que a galera que olha pra gente hoje só sabe das coisas que eu fiz, não sabe das que eu não fiz, que eu disse não.

Pra que você disse não?

– Fazer playback em todos os programas de televisão que você possa imaginar, e isso é só um exemplo que lembrei agora. Fomos constantemente convidados a fazer playback, e eu sempre recusei com cuidado pra não parecer presunçoso, eu achava que não ia ser bom pra gente. Foi uma opção que eu nunca quero que soe arrogante. Disso até recusar posar nua por muito dinheiro.

Chegou a ter convite pra posar nua?

– Chegou, mais de uma vez, e eu optei pelo não, porque dinheiro não é tudo. Eu ia ganhar muita grana, mas não ia nem conseguir usar ela depois de tanta vergonha.