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Nevilton lança “De Verdade”

outubro 20, 2011

O Nevilton lançou nesta quinta-feira (20), no Album Virtual da Trama, seu primeiro CD, “De Verdade”.  Tive o prazer de assinar o release do disco, reproduzido abaixo. Clica aqui e baixa de graça, vale muito o download. Para quem é de São Paulo, tem show amanhã, sexta, no Studio SP dentro do Cedo e Sentado. O show tá previsto para as 22h e o ingresso é R$ 20 (ou R$ 10 na lista).

Há algo de especial no espírito das cidades do interior do Brasil. As tardes e noites tranquilas, sem nada para fazer, que levam os jovens a saírem de casa e gastarem o tempo sentados nas esquinas, jogando conversa fora ou tocando violão são um bom exemplo. Sem maldade aparente, passar noites de frio se aquecendo ao relento à base de um conhaque qualquer ou fazendo um churrasco com os amigos é uma arte que exercita a sociabilidade e simplicidade. As pessoas parecem inocentes, mas não menos felizes.

Umuarama, no noroeste do Paraná, é uma dessas cidades. Com cerca de 100 mil habitantes, ela também é o berço da banda Nevilton, power trio de rock simples e direto que lança seu disco de estreia, “De Verdade”, pelo selo Sombrero/Fora do Eixo Discos e pelo Álbum Virtual da Trama. Formada por Nevilton Alencar (voz e guitarra), Tiago Lobão (baixo) e Flipi Stipp (baterista), a banda é fruto direto de sua cidade natal , traduzindo, de certa forma, este espírito lúdico em canções.

Na estrada desde 2007, o Nevilton já fez mais de 250 shows, cobrindo todas as regiões do Brasil. Fosse em mega palcos como a abertura para o Green Day em São Paulo ou em pequenos botecos de Porto Velho, em Rondônia, a energia e a entrega eram as mesmas. Não à toa, a banda ganhou a fama de ter um dos melhores shows do Brasil. Pelo caminho, além das milhagens, deixaram uma coletânea de canções distribuídas em um CD-R e um EP, “Pressuposto”, lançado no ano passado. Faltava um registro oficial completo para encerrar o ciclo.

Gravado em 2009 no estúdio da YB, ainda com o baterista Fernando Livoni, “De Verdade”, o disco, soa como um greatest hits para quem acompanha o cenário independente brasileiro nos últimos anos. “Pressuposto”, “A Máscara”, “Bolo Espacial”, “Me Espere Menino Lobo”, “Vitorioso Adormecido” e algumas outras são velhas conhecidas do público. Entre as novidades, destaque para o riff nervoso e tenso de “Por Um Triz” e “Fortuna”, que desaba em um samba meio torto e relaxado.

Honrando a tradição de bons power trios da história do rock, o Nevilton produz um som coeso e explosivo, característica que fica nítida ao vivo. Apoiando-se em uma cozinha segura e que não deixa espaços sonoros a serem preenchidos, a banda faz uma cama perfeita para a guitarra de Nevilton, um dos melhores instrumentistas do Brasil. Seu jeito de tocar único alterna riffs, bases e solos de forma tão natural quanto apertar um botão de liga e desliga.

Há, no entanto, na fórmula sonora do trio algo um pouco diferente. Nevilton é rock sem ser carrancudo, com assinatura tupiniquim da melhor estirpe. Não porque emule regionalismo em todas as músicas, mas porque se utiliza dos elementos da música brasileira para emoldurar canções pop assobiáveis. Sem vergonha de citar Tião Carreiro e Pardinho, forrozeiros, Placebo e Sidney Magal nos shows, eles incorporam as mais difusas inspirações em músicas de três ou quatro acordes. Coisa de quem cresceu ouvindo muita rádio no interior – e, mais tarde, montou sua primeira banda para tocar cover das músicas que sua turma gostava.

O resultado são rocks que, por mais que entortem sua harmonia com acordes dissonantes e quebradas de ritmo, mantém uma veia pop indiscutível. É música de apelo radiofônico sem ser vulgar, pop-rock inteligente de fácil assimilação sem ser rasteiro. Unido ao carisma da banda, não é de se espantar que, independente do tamanho da plateia, após alguns minutos de show qualquer público esteja domado e repetindo as letras.

Quase quatro anos se passaram desde a formação da banda e o maior cartão de visitas do Nevilton, porém, continua sendo “Paz e Amores”. “Viver em paz, com quem quer que seja, ouvindo música e bebendo cerveja, essa é a vida que eu pedi para Deus, só isso e nada mais”, diz o refrão. Apesar de mirar alto com sua proposta sonora, Nevilton sabe que a felicidade está nas pequenas coisas. Como um verdadeiro operário da música, ele tem trabalhado nos últimos anos em busca do sucesso, em um esquema de guerrilha. Chegou a hora de colher os resultados. Ouça o disco, vá ao show. Você não se arrependerá.

Bloco do Eu Sozinho

outubro 17, 2011

Aí o tal projeto do Barba tocando o Bloco que eu falei semana passada tocou em São Paulo pela primeira vez. A parada é meio picareta – o Rodrigo, vocalista, erra a entrada de umas duas músicas, o Melvin, no baixo, errou umas mudanças de acorde -, mas é válida. Afinal, se tanta gente monta banda pra fazer cover de terceiros, por que o Barba não pode homenagear a banda que fez parte?

Justiça seja feita: a proposta é seguida à risca. A banda toca o “Bloco do Eu Sozinho” na íntegra e depois emenda umas covers da época da turnê do disco e algumas da estreia – “Anna Julia” entre elas. Nada do “Ventura”, nada do “4”. Faz sentido em um show de comemoração de 10 anos de um disco.

Foi uma noite bem agradável, até porque parecia um show do Los Hermanos das antigas: povo cantando tão alto quanto a banda, pulando, vibrando, aquela comoção tradicional que eram as apresentações do quarteto. E o Barba continua tocando muito. Ou seja, se você curte Los Hermanos, é diversão garantida.

Novos adultos, pessoas velhas?

outubro 15, 2011

Estava lendo um post lá no Febre Alta quando bateu aquela vontade, por motivos óbvios, de ouvir Walverdes. Fui direto no “Anticontrole”, não sem antes dar aquela paradinha pra curtir o esporro urgente de “Câncer”. Guitarra no talo é bom pra dar uma animada numa tarde chuvosa de sábado.

Foi quando eu me liguei que o Walverdes não fez nenhum show decente de lançamento do “Breakdance”, de 2010, em São Paulo. Eu lembro que eles tocaram em algum lugar tosco em um dia de semana que não deu público (Outs, muito provavelmente), não gostaram nada da apresentação e queriam voltar. Desde então, Mini (guitarra e voz), Patrick (baixo) e o Marcos (bateria) ainda não pisaram em um palco de São Paulo (o Marcos pisou, mas foi com a Bidê, o que é outra história).

Fuçando no YouTube eu achei o vídeo que abre o post, gravado pelo Palugan num show de novembro de 2005. “Playback”, o quinto disco da banda, tinha sido lançado em setembro do mesmo ano. Eu não estava lá (ainda fazia faculdade em Floripa), mas pelo que dá pra perceber tinha uma galera assistindo na primeira fila (já reparou como ninguém mais fica na beira do palco vendo show em São Paulo?), curtindo e cantando junto.

Por que em 2005 o Walverdes fez um show de lançamento decente em São Paulo e em 2010 não? “Breakdance” saiu pela Monstro, teoricamente maior gravadora independente do Brasil. Quem mudou: o público? A banda (apesar de não terem limpado o som)? Os produtores? Ou todo mundo? De certa forma, como disse uma amiga, é bem difícil envelhecer no rock.

Lembrei na hora da nova coluna do Álvaro na Folha. Sem entrar no mérito musical, o APJ foi certeiro na resposta à matéria da própria Folha. Entre outras coisas, o Álvaro fala sobre o circuito de shows independentes em São Paulo e no Brasil. Pegando o exemplo do Walverdes, me parece que hoje em dia pouca gente no meio arrisca algo. Vivemos num cenário conservador, cheio de novos adultos.

Eu sei que quando se mexe com dinheiro, principalmente o do próprio bolso, a coisa é complicada. Tive uma curta carreira de produtor em Floripa. O primeiro show deu lucro de R$ 800, o segundo prejuízo de R$ 1 mil. Antes que a conta ficasse mais vermelha, percebi que aquela vida não era pra mim. Não sou arrojado no que diz respeito a finanças. Parei de mexer com produção e fui cuidar da carreira como jornalista, mas sem sair da área.

Para mim, trabalhar com produção é um jogo arriscado. No começo você vai tateando, lucra num dia, perde no outro, e assim vai aprendendo com os erros. É uma aposta, principalmente se você não tem grana sobrando, mas acredito que com competência, um bom tino comercial e, claro, sorte (porque ninguém chega a lugar algum sem um pouco dela), mais cedo ou mais tarde é possível se dar bem no ramo.

Aí é que a porca torce o rabo, com o perdão do bordão clichê. Uma vez estabelecido, você pode continuar fazendo algumas apostas ou simplesmente trabalhar com o que sabe que vai dar dinheiro. Meu lado esquerdinha já se foi há um bom tempo para condenar quem opta pela segunda opção: vivemos no capitalismo e, bem, se o seu negócio é ganhar dinheiro e você sabe como, não há nada de errado. É só não querer passar por vanguarda.

O Walverdes, formado em 1993, é representante de uma outra geração, quando a estrutura do indie era diferente e mais precária – a rede de festivais independentes, por exemplo, era bem menor. Continuam lançando discos, fazendo alguns poucos shows, mas já assumiram a vida fora da música como a principal. De certa forma, dá para dizer que o único sobrevivente dessa turma é o Autoramas, que continua vivendo só de música desde os anos 90.

É óbvio que o tema é mais complexo, profundo e não se encerra neste texto – envolve formação de público, por exemplo -, no do Álvaro ou no da Folha, mas uma pergunta fica: agora que a estrutura do cenário melhorou, quantos artistas dessa geração vão sobreviver pelos próximos 15 anos?

“Como confiar em alguém que só fala de trabalho?
Que descobre bossa nova e se acha muito cool
Que nunca entende por que ando descabelado
Gasta em decoração em vez de comprar discos legais

Novos adultos, pessoas velhas”

A grande chance de Rodrigo Amarante

outubro 10, 2011

É engraçado que gostar de Los Hermanos hoje em dia tenha virado quase uma vergonha. Perceba em qualquer conversa que aborde o grupo e que envolva mais dos que quatro ou cinco pessoas: automaticamente os detratores falarão mais alto, ridicularizando a banda e seus fãs fiéis. Será inevitável que os dois ou três que gostem do quarteto a defendam, mas geralmente sem muita convicção. Uma situação que pode mudar com o provável lançamento do disco solo de Rodrigo Amarante em 2012.

Convenhamos, no entanto, que nos últimos anos os fãs de Los Hermanos não têm realmente muito do que se orgulhar. “4”, derradeiro disco da banda, era extremamente irregular e mostrava a dupla central criativa cada vez mais distante: enquanto os bons momentos vinham do ensolarado Amarante – como em “O Vento” -, Camelo estava cada vez mais introspectivo – como em “Dois Barcos”. O abismo era tão aparente que os próprios perceberam e, ao se unirem para gravar o quinto disco, em 2007, preferiram separar a banda por tempo indeterminado a lançar um trabalho ruim.

Cada um seguiu seu caminho sem ressentimentos e mantendo a amizade – os shows de reunião, tanto no SWU como abrindo para o Radiohead, mostram isso. Camelo demorou um pouco, mas lançou seu aguardado primeiro disco solo, “Sou”, que comprovou o que todos temiam: as músicas eram ainda mais arrastadas e herméticas que as composições do “4” – em outras palavras, era um disco chato. Ele ainda lançou um MTV Ao Vivo que ninguém deu bola e veio com “Toque Dela”, um álbum mais fácil, porém esquecível, no início deste ano. Por mais que ainda mantenha sua relevância na música nacional, Camelo foi mais importante no noticiário nestes anos fora do Los Hermanos devido às comparações com Polanski.

Amarante, artisticamente, também não fez muita coisa. Lançou um disco com a Orquestra Imperial e um com o Little Joy, além de manter viva sua colaboração com Devendra Banhart. Nada que realmente demonstrasse a que veio: “Carnaval Só Ano que Vem”, o registro da Orquestra, é um belo disco, mas resultado de um enorme trabalho coletivo; “Little Joy”, a parceria com o baterista do Strokes Fabrizio Moretti, une um monte de musiquinhas bonitas e agradáveis, mas completamente inofensivas.

O disco que deve sair em 2012 é, de fato, o momento em que Amarante mostrará finalmente suas ideias musicais. Não adianta especular sobre como o disco virá: os trabalhos pós-“4” pouco trazem pistas estéticas atuais de Amarante. De acordo com o Mauricio Valladares, no programa Ronca Ronca da OiFM, o cantor volta ao Brasil no início do ano que vem e deve liberar o disco em março. Uma vez anunciado, porém, ele já se torna um dos lançamentos mais aguardados de 2012.

Afinal, por mais que hoje o grupo seja ridicularizado por seus detratores, o Los Hermanos é a banda mais importante da década 00 no Brasil. Excluindo Emicida, os tecnobregas e o CSS e seus sub-filhotes, absolutamente todo mundo que surgiu no cenário independente após 2001 deve algo ao Los Hermanos. “Bloco do Eu Sozinho” é um marco histórico: foi o disco que fez toda uma geração perder a vergonha de ouvir samba e música popular brasileira.

A revolução involuntária hermânica só foi possível, é óbvio, porque tanto “Bloco” quanto o disco seguinte, “Ventura”, eram duas obras sensacionais – o disco de estreia, homônimo e mais esporrento, também é brilhante –, unindo lirismo com peso e vigor, melodias doces com letras acima da média. Além disso, souberam criar uma relação íntima e direta com o público, uma equação que gerou fãs tão fieis que as apresentações da banda sempre foram marcadas pela plateia cantando mais alto que a banda.

O culto ainda existe. No show do SWU do ano passado, mesmo separados do palco pela área VIP os fãs se faziam escutar durante músicas como “O Vencedor” e “Cara Estranho” – os confetes e serpentinas usuais foram poucos, mas estiveram presentes. A claudicante apresentação de Camelo no Rock in Rio deste ano só foi salva por “Além do que se Vê”, uma das grandes músicas de “Ventura”. E, desde o começo do ano, Rodrigo Barba tem tocado o “Bloco” na íntegra com uma banda que inclui os metais da época dos Hermanos e Gabriel Bubu, que acompanhava a banda, na guitarra. Os relatos são de que shows no Teatro Odisseia, no Rio, têm filas enormes do lado de fora. Quem não consegue entrar fica cantando na porta, junto – o vídeo abaixo mostra um pouco da comoção.

Depois do estouro de “Anna Julia”, o Los Hermanos nunca voltou a ser mainstream, mas se tornou a maior banda do underground, sendo responsável direta pelo aumento de público dele. Durante uma conversa no ano passado, Fabrício Ofuji, produtor do Móveis Coloniais de Acaju, comentava a ausência do Los Hermanos do cenário. “Teria sido melhor se eles tivessem continuado, muita gente parou de ouvir coisas novas quando eles acabaram”, disse, frente à questão de se o Móveis teria “herdado” muitos fãs do quarteto.

Muito se questiona hoje sobre qual o próximo estágio da atual geração do independente brasileiro. Há uma percepção de que o público existe, mas a pergunta é: o tamanho da cena e a popularidade dos artistas são suficientes? Ou é necessário um passo adiante em termos de visibilidade? Mais ainda: como dar esse próximo passo em busca de um público maior? Dependendo da qualidade e do desempenho, talvez a resposta para o dilema esteja no disco solo de Amarante.

As fotos do show do Los Hermanos no SWU são da Liliane Callegari