Archive for the ‘Documentário’ Category

"Herbert de Perto" foge do dramalhão simples e se torna uma homenagem sincera

outubro 8, 2009

1_foto Mauricio Valadares

A vida não é filme. A primeira cena do documentário “Herbert de Perto” mostra o cantor e guitarrista do Paralamas do Sucesso no esplendor de sua juventude e no auge do sucesso nos anos 80 falando com uma confiança impactante: “Acho que sempre consegui todas as coisas que eu quis, e não vejo nada que eu queira que eu não me sinta capaz de conseguir. Mesmo que acontecesse uma tragédia eu ia começar de novo e ia conseguir tudo de novo”. Corta. Um Herbert Vianna mais velho, já na cadeira de rodas, assiste ao vídeo em sua casa e faz uma cara de reprovação: “esse mané aí não sabe o que ta falando”.

Leia entrevista com os diretores
Estreias de cinema do dia 09/10/2009

Entre os dois momentos há uma história que todos conhecem: no dia 04 de fevereiro de 2001, Herbert Vianna e sua mulher, Lucy, sofreram um acidente no Rio de Janeiro. O ultraleve que Herbert pilotava para ir à festa de Fernanda, mulher de Dado Villa-Lobos, caiu na água. O vocalista ficou internado no hospital por dois meses, numa luta contra a morte. Em conseqüência do acidente, ficou paraplégico. Lucy morreu na tragédia.

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Seria muito fácil, com um roteiro desses, fazer um dramalhão piegas sobre a celebração da vida. Ao contrário disso, o documentário, dirigido por Roberto Berliner e Pedro Bronz, faz um retrato quase que imparcial de toda a vida do cantor, abrangendo desde a peregrinação por diversas cidades na infância até os shows pós-acidente. E, claro, foca boa parte de seu tempo na história do Paralamas.

Como todo documentário desse estilo que se preze, o filme é recheado de imagens raras ou inéditas, mostrando os bastidores dos anos 80 com maestria. A cena em que “Meu Erro” aparece pela primeira vez é sensacional, com cada membro da banda tocando sua parte separadamente enquanto Gilberto Gil conta a importância de um trio de rock. Berliner tem papel fundamental nesse resgate. Ele foi um dos primeiros a registrar os shows que aconteciam no Circo Voador no começo da década de 80, quando o local era o ponto de ebulição do nascente rock nacional. Mais do que isso, amigo pessoal de Herbert desde os anos 80, era dono de um material bruto fantástico de 250 horas, cuidadosamente decupado por Pedro.

Mais do que apenas imagens, o que vem à luz são histórias de bastidores engraçadas e pitorescas, como por exemplo o que a mãe de Herbert, achou da primeira demo gravada pela banda. Ou então a do primeiro violão do músico, que ele customizou para conseguir tocar melhor as notas mais agudas. A paixão de Herbert pela aviação também é tratada com carinho, até desembocar no fatídico acidente. O depoimento de Dado, que viu a cena de longe, é emocionante e cuidadoso.

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A parte final do filme trata do pós-acidente e da importância que a família e os amigos tiveram na recuperação de Herbert. É nessa hora que a câmera de Berliner fica mais pessoal, acompanhando o cantor no limite possível de sua intimidade. Os ensaios com a banda, as gravações dos novos álbuns, o retorno ao Circo Voador, a primeira aparição pública, tudo serve para mostrar a força de vontade de um guerreiro. Mas, sem dúvida, o momento mais emocionante fica por conta da homenagem do músico a Lucy, a amada falecida, que termina com uma sacada sensacional do diretor.

A participação de Pedro Bronz no projeto foi essencial para garantir o distanciamento necessário e tão fundamental para um bom resultado. O filme é mais um passo para documentar a história do principal movimento jovem da música brasileira. “Herbert de Perto” poderia ser um dramalhão mas é uma grande homenagem a um dos gênios do rock dos anos 80.

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"Em nossa mente imaginamos estribilhos"

agosto 3, 2009

Todo mundo sabe que a melhor e mais importante banda do rock gaúcho é a Graforréia Xilarmônica. Fundada na metade dos anos 80, ela foi responsável por moldar o que hoje é conhecido como este gênero. Sem a Graforréia não existiriam a Bidê ou Balde ou a Video Hits, principais bandas em termos de criatividade vindas do extremo sul do país nesta década que finda. O cinismo e senso melódico da Graforréia e forma de tratar isso, como num caos sonoro, influenciaram toda uma geração. Sem contar que eles foram uma das primeiras bandas a reverenciar e cultuar a Jovem Guarda, quando isso ainda não era moda. Roberto e Erasmo sempre foram parte fundamental da equação sonora da banda.

O documentário “Erga-te, Graforréia Xilarmônica”, dirigido por Felipe Ferreira, se propõe a contar essa história. Com imagens raras de shows antigos, aparições na TV e entrevistas com Frank Jorge (baixo), Carlos Pianta (guitarra), Alexandre Birck (bateria) e Marcelo Birck (guitarra), é um documento fundamental para entender a dinâmica particular da banda. Estão lá a história da formação da banda, da escolha do nome, a saída de Marcelo e principalmente uma análise pelos membros da influência da banda e por que a Graforréia continua sendo única e inimitável. Obrigatório para quem gosta de rock nacional.

A Graforréia acabou “oficialmente” em 2001, num show no festival Upload, em São Paulo, descrito por todos que estiveram presentes como histórico. Desde então, a banda se reúne esporadicamente para shows. Em 2007 lançaram o disco “Ao Vivo” pelo selo Senhor F, com duas músicas inéditas, uma delas “40 anos”, de onde saiu o verso que dá título ao post. Além de tudo isso, a Graforréia é responsável pelo clássico-mor do rock gaúcho, “Amigo Punk”, que tem a história de sua composição contada no documentário.

A primeira parte do documentário está lá em cima. Aqui a 2, 3, 4, 5, 6 e 7. Ótima dica do Matias.

Amigo Punk – Graforréia Xilarmônica