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Entrevista: Heitor Humberto (Banda Gentileza) e Nevilton de Alencar (Nevilton)

fevereiro 22, 2010

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Não é de hoje que Curitiba e o Paraná são palco de uma leva de bandas talentosas. Qualquer um que tenha acompanhado o cenário independente na última década certamente ouviu falar de Relespública, Terminal Guadalupe, Pelebrói Não Sei, Poléxia, ruído/mm, Wandula… Heitor Humberto e Nevilton de Alencar fazem parte da nova geração de talentos que tem surgido da terra das araucárias. À frente da Banda Gentileza, Heitor lançou um dos grandes discos de 2009. Nevilton acaba de colocar na internet o EP Pressuposto e deve lançar o primeiro CD até a metade do ano. Enquanto isso, corre o país fazendo shows praticamente semanais.

A Banda Gentileza surgiu nos corredores do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Paraná, quando Heitor precisou de companheiros para apresentar suas músicas autorais nas festinhas da faculdade. O que começou como quarteto hoje é um sexteto, completado por Artur Lipori (trompete), Emilio Mercuri (guitarra), Diego Perin (baixo), Diogo Fernandes (bateria) e Tetê Fontoura (sax, teclado). Já o Nevilton começou com uma banda cover em Umuarama e, à medida que as composições próprias foram surgindo a formação foi enxugando até o atual trio (com Tiago Lobão no baixo e Chapolla na bateria), que decidiu comprar a idéia.

Para entender melhor o que pensam e a trajetória desses dois talentos da música paranaense eu e o Marcelo Costa, do Scream & Yell, fizemos uma longa entrevista com os dois e o baixista da Banda Gentileza, Diego. O resultado você confere abaixo. As fotos são da Liliane Callegari.

Qual a primeira lembrança de vocês em relação à música? Essa coisa de começar a tocar, pegar um instrumento, fazer um som…

Heitor: A minha mãe é professora de piano, então desde que nasci tem música em casa.

Nevilton: Ai é covardia (risos)

Heitor: Ela se aposentou este ano, então já faz um tempo que ela não estuda, mas ela tocava bastante, e eu cresci com ela tocando piano em casa. Quando comecei a crescer, não sei por que e de onde, pirei que queria tocar violino, e toquei dos sete aos treze, quando me mudei de Joinville. Nessa época fiz violino e teoria musical, e toquei na Orquestra de Joinville, uma coisa mais clássica. Quando fui para Curitiba, eu mal conhecia a minha vida sem ter que parar uma hora por dia e estudar violino para ir pra aula. Era uma obrigação. Várias vezes quando a piazada ia brincar, eu ficava tocando violino. Enchia o saco. Quando cheguei em Curitiba, com treze anos, decidi dar um tempo e fiquei sem fazer nada. Óbvio que nunca mais voltei, parei de estudar e hoje em dia toco apenas por hobby na banda.

Nevilton: Meus pais dizem que eu me acalmo muito com música desde pequeno. Eu era agitado e ficava calminho com a música. Botava um Gonzagão na vitrola e eu parava de chorar. Quando eu tinha uns cinco ou seis anos me colocaram na aula de teclado. Alguns primos já tocavam algum instrumento. E do teclado eu fui para o violão, do violão fui para a guitarra, e da guitarra… comecei a pular (risos) e virei isso aqui…

E as primeiras bandas?

Nevilton: Tive várias bandinhas… Tudo começou com um amigo que chegou e disse: estou tocando baixo, tem um amigo baterista, e queria que você tocasse, cantasse uns Nirvana que a gente está tirando…

Com quantos anos?

Nevilton: Uns 14 anos. Coloquei um captador no meu violão de cordas aço, colocava distorção e tocava Nirvana. Passei uns três anos tocando um pouquinho com essas bandas, e algumas queriam tocar um negócio meio metal, um lance pesado. Comecei a estudar mais a guitarra quando comecei a tocar oficialmente. Ai veio a Superlego, que fazia covers dos anos 80, e a gente fez show pra caramba. Comprei a guitarra, o ampli, todas essas histórias. A gente começou a fazer o trabalho autoral porque eu já vinha compondo músicas. Acho que a gente tocou com o Heitor no Festival Tinidos (em Curitiba), no Motorrad…

Heitor: A Superlego tocou com a gente antes, no Porão do Rock, em 2006 (acho), numa noite que tinha a gente, o Vanguart e o Charme Chulo e não foi ninguém ver (risos), mas foi muito divertido. Eles tocaram Inimigos do Rei (risos).

Nevilton: Isso (risos). O nosso repertório já era bastante autoral, mas a banda já não era um quinteto. Eu cantei nesse dia (em Curitiba), e a Superlego inicialmente não era isso. Quando começamos a fazer um som autoral, rolou um papo de “a gente está tocando e ganhando pouco”, e a galera foi saindo. Eu e o (Tiago) Lobão conversamos. “Acho que os caras não vão querer mais tocar. Vamos fazer uma viagem?”.

O Lobão já estava tocando com você?

Nevilton: Já. O Lobão e o Fernandinho, baterista anterior do trio, eram do Superlego. Do quinteto a gente virou um trio. Nesse meio tempo deu aquela bambeada. “Não sei se quero tocar esse som autoral, é muito difícil”. O Fernando também estava desanimado. Então eu e o Lobão fomos para Los Angeles e voltamos cheios de idéias. Vamos agitar. Conversamos com o Fer, mas o resto dos meninos nem queria mais saber da gente.

Eles fizeram outra banda cover?

Nevilton: Não. Um virou pai agora, o outro entrou no terceiro curso de faculdade, e pararam de tocar. Eu e o Lobão estamos nessa. O Fernandinho desistiu pouco tempo atrás. O ano passado foram 49 shows oficiais, mais umas coisas alternativas (tipo se apresentar na escola), e o Fer tinha outros compromissos e não aguentou o tranco. De repente a banda não estava rendendo o suficiente para ele estar satisfeito e ele pulou fora… do nada.

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Nevilton

Heitor, como rolou essa fase de parar de tocar violino e encontrar a galera? Você já conhecia alguém quando chegou em Curitiba?

Heitor: Quando sai de Joinville, estranhei muito. Em Curitiba o pessoal é mais fechado, eu não conhecia ninguém, então continuei voltando pra Joinville várias vezes, aquela coisa de moleque pré-adolescente que não se adapta. Eu tinha um grande amigo lá, que é meu amigo até hoje, o Ronaldo, e a gente começou a fazer um som. Ele tocava violão, e eu comecei a compor – com 12, 13 anos – aquelas letras de rimas bem primárias, e ele musicava. Inclusive, uma que a gente toca até hoje, “Sempre Quase”, uma bem baladinha, foi ele quem fez. É dessa época. A gente chegou a gravar uma demo em casa, que tenho até hoje. Era uma dupla que se chamava Arrotem (risos), violão e voz e uma batucada que a gente fazia com berimbau. Dois anos depois, gravei outra demo. Eu e um amigo do colégio falávamos muita besteira, e escrevíamos essas besteiras. A gente cantarolava e as pessoas ao redor, na sala de aula, já começavam a reconhecer as nossas músicas, e pensei: “Cara, vamos gravar?”. Ele tocava baixo e eu arranhava a guitarra, e marcamos um estúdio, por uma hora, pra gente ensaiar e fazer as músicas, e na hora seguinte gravar. O nome dessa banda é Tomara Que Você Morra (risos), e é uma bosta (mais risos).

E como eram as cidades de vocês? Tinha lugar pra tocar?

Heitor: Até por estar no colégio, eu não saia. Nem sei dizer. Lembro de alguns bares de nome, como o Café Beatnick, o Circus…

Alguma banda de Curitiba…

Heitor: Na época havia algumas bandas que tocavam no teatro do colégio, como Os Cão… Tinha o Pelebrói Não Sei, que durou um bom tempo, o Bubarelas, essas são as que mais me lembro de acompanhar.

Vocês chegaram a tocar em teatro de colégio?

Heitor: Não. A gente chegou a vender 50 cópias da nossa fita demo naquele esquema de chegar para o professor: “Compra”. Nessa época eu saia pouco, não acompanhava tanto a cena musical de Curitiba. Isso aconteceu mais na época da faculdade, quando a gente começou a montar a banda.

Nevilton: Umuarama nunca teve cena (risos). Até hoje (mais risos). Então quando comecei a tocar mais, eu sabia que tinha uma banda na cidade chamada Hypnoise, que o Lobão e o Fernando tocavam, e eles tocavam covers de Pixies, Cake, Pavement, essas coisas que hoje em dia eu escuto pra caramba. Até acho que isso tenha influenciado na sonoridade do trio. Foi um choque ouvir Pavement pela primeira vez. “Que louco, que estranho”. E eles praticamente eram a cena, e só tocavam covers. Eles tinham umas quatro ou cinco músicas gravadas, mas não sei se publicaram. Eu tenho essas gravações e acho super bonitinhas, bem legais. Quando comecei a tocar também encarei umas festas de escola, mas só Nirvana… Quando a gente começou a tocar um pouco melhor já arriscou um (Black) Sabbath. Então a gente fez umas músicas falando do verde (risos), que eram muito engraçadas, para participar do festival do IAP, o Instituto Ambiental do Paraná. A gente gravava as demos na sala, aquela barulheira, ninguém entendia porra nenhuma, mas era legal. Hoje em dia, nós somos a cena de Umuarama. E, ao mesmo tempo, somos bem falados, tipo: “Eles vão tocar em Cuiabá”, mas quando a gente está na cidade é aquela coisa: “Esses caras não desistem dessa merda” (risos).

Próximo passo: como foi formar as bandas que vocês têm hoje? Como se deu isso de encontrar a galera e decidir fazer um som?

Heitor: Eu fui fazer jornalismo, e me identifiquei mais com o pessoal veterano, e alguns deles já tinham bandas. Inclusive, em várias festinhas de faculdade que a gente fazia no Salim, um bar bem pequeno em Curitiba, essas bandas faziam uns showzinhos. Comecei a conhecer o pessoal, e eu tinha algumas músicas dessa época do Ronaldo, de Joinville, já estava tocando violão, e pedi para me deixarem tocar umas três ou quatro músicas entre as bandas, coisa de chato que pede espaço para tocar a sua música. Um dia eles cometeram o erro de deixar, e eu fui lá e toquei algumas, e quem estava lá acabou gostando bastante. Quando rolou uma festa seguinte, eles falaram: “Heitor, toca aquelas músicas suas de novo, a gente quer ouvir”. Eu fui e toquei e foi legal. Na terceira eles pediram de novo, e o pessoal das bandas que estava lá subiu no palco pra me acompanhar. Pegaram baixo, guitarra e bateria, ficavam olhando o que eu tocava e tentavam acompanhar. Ficou uma… ninguém conhecia as músicas e começaram a estragar pacas o que já não era grande coisa (risos). Um dia fizeram um convite oficial para eu tocar numa festa, então chamei algumas das pessoas que tinha tocado comigo na festa anterior pra gente ensaiar. E era mais ou menos o Johnz, a banda que o Túlio, do Pagodeversions, tinha montado em Curitiba. A gente ensaiou, fez esse show e no começo do ano seguinte me convidaram para fazer um show no Putz, o Festival de Cinema Universitário de Curitiba, e daí era num cinema, um show de verdade. A gente ensaiou e formatou as músicas. Ficou o Diego Garapa (baixo), o Diogo Fernandes (bateria) e o Jota (guitarra). Daí eles já botaram o arranjo deles. E quando acabou aquele show, a gente gostou do resultado. Não tinha pretensão nenhuma. Era só mais um ensaio para mais um show, e muita gente veio comentar, então decidimos continuar e gravar as músicas.

Em 2004 a cena de Curitiba estava bem agitada. O De Inverno fazia festivais, havia bandas boas no circuito alternativo. Vocês viam essas bandas?

Diego: Era uma cena mod, na verdade. Tinha Faichecleres, Dissonantes e mais trocentas bandas mod.

Heitor: Tinha a Reles… mas a gente não via muito, até porque não se identificava com o som.

Nessa época o Terminal Guadalupe já tinha disco, a Poléxia já tinha disco…

Heitor: Eu ouvia falar, mas não ia muito atrás. Ia ver umas bandas de fora que tocavam na cidade. O Fuck Fuckers… o Resist Control. Um pouco depois a gente gravou o primeiro EP, e ai sim, caímos pros bares e começamos a conhecer as bandas e fazer parte da cena musical de Curitiba. Antes era mais evento de faculdade mesmo.

Nevilton: Uma pergunta? Qual foi o teor alcoólico para você tocar na primeira festa de faculdade? (risos)

Diego: O Heitor sempre foi cara de pau… (mais risos)

Heitor: Mas deve ter tido uma iniciativa alcoólica… (mais risos)

E vocês, Nevilton. O trio já estava formado…

Nevilton: No terceiro ano do colégio, quando a gente estava começando a pensar na faculdade, eu comecei a gravar uma fita demo chamada “A Base do Teto Desaba”. Nessa demo tem algumas músicas que a gente chegou a tocar com a banda, como “Luz e Sol”. E eu fiz como o Heitor: vendi 70 fitas demos no colégio, na formatura do terceiro ano, pra todos os pais de amigos (risos). Eu passei em Engenharia, na UEM, conheci uma galera de música, mas ninguém fazia nada, e eu já estava bem empolgado com essa história de tocar. Um dia, eu ainda estava morando em Maringá, bem próximo a desistir da Engenharia, fui pra Umuarama abrir um show do Hypnoise. Era violão e voz, e eu tocava MPB e aquelas músicas da minha demo. Foi ali que conheci o Lobão. Ele olhou a minha pasta e disse: “Nossa, velho, você toca Anjos do Inferno?”. É um grupo na linha dos Demônios da Garoa, mas anterior, 1940, algo assim. E a gente ficou super amigo e começou a conversar um monte nesse dia, e já combinamos: eu tinha um monte de músicas, ele tinha um monte de riffs, “Sábado, o que você vai fazer?”. Eu ia dar umas aulas de violão, mas marcamos dele passar lá em casa. Em doze horas, o tempo todo junto, a gente escreveu, arranjou e gravou a primeira versão de “Delicadeza”. Tinha acabado de abrir uma padaria 24 horas em Umuarama (risos) – hoje ela nem existe mais – e a gente ficou ali em casa compondo, e se batesse uma fome às 4h da manhã, a gente ia pra padaria. Depois dessa eu desgracei a vida do Lobão (risos). Ele parou de tocar cover, deixou o emprego no banco…

Heitor, e como vocês partem para gravar o primeiro disco…

Heitor: Quando a gente fez o show na Cinemateca e percebeu que estava legal, eu pensei: preciso registrar essas músicas para concretizar que é uma banda. Pois não era uma banda. Era eu chamando eles para tocar num show ou outro. Eles já tinham um outro projeto e eu pensando que tinha que materializar aquele negócio. E lá em Curitiba estava rolando uma história que eu acho genial, que é a Grande Garagem que Grava. Eles pegam uma verba e lançam um monte de disco gravado ao vivo com uma qualidade bacana…

Prum monte de banda que não tem registro…

Heitor: Isso. E eles dão o CD pra você e você vende pelo preço que você quiser. E você pode mandar fazer mais discos com o dinheiro que você arrecada. Muita banda gravou discos de uma hora pra outra, gente que ninguém conhecia. Só que era um projeto de lei municipal de incentivo, e a banda tinha acabado de surgir. Eu fui lá bater na porta deles perguntando se tinha como gravar, e eles me falaram que o projeto tinha acabado, mas que eles estavam com a estrutura toda lá. Então eu propus: “Eu pago uma quantia que seja suficiente para vocês realizarem esse projeto pra mim, e a gente lança o disco”. Eles toparam. Juntei uma grana, e começamos a ensaiar para gravar ao vivo. A idéia era boa. Você gravava o disco e em duas semanas ele estava na sua mão e você já podia sair divulgando. Só que era ao vivo. Imagina a banda sem entrosamento… A gente estava super nervoso, e errou tanto. Quando terminou o show, eu fui pra salinha e o pessoal contou que tinha queimado uma placa de som. E eu falei: “Graças a Deus, cara” (risos). E eles: “Vocês estavam tocando e se divertindo tanto que a gente não quis falar nada. Vamos marcar um novo show pra daqui um mês?”. E a gente voltou a ensaiar, ensaiar e ensaiar, e ficou um pouco melhor. Ai a gente começou a divulgar…

Esse momento, esse clique nos interessa. Como surgiu em vocês essa vontade de mostrar o trabalho, essa coisa de acreditar que vocês estavam fazendo algo legal…

Heitor: A gente nem tinha público. Ninguém nos conhecia além de alguns amigos. A idéia foi gravar e depois começar a divulgar. Parti do pressuposto de que com o disco eu iria conseguir chegar às pessoas, chegar nas casas e conseguir um espaço para fazer show. A gente já tinha percebido que a recepção da galera tinha sido muito positiva nos shows anteriores. Não era só elogio de amigo. Era gente comentando a letra, a música, sabe. E acho que isso acabou incentivando mais a gente.

E vocês, Nevilton? Como foi gravar os EPs que renderam o Pacotão?

Nevilton: Desde que fiz “A Base do Teto Desaba” comecei a aprender umas coisas de gravações… em casa mesmo. Tanto é que as gravações do Pacotão são todas caseiras…

Você ainda não tinha entrado em estúdio em Umuarama?

Nevilton: Não. No meu caso, é tudo caseiro. Os meninos já tinham entrado em estúdio com a Hypnoise, mas eu tinha mesa de som, um computador e um programa, e comecei a mexer com isso, comecei a aprender algumas coisas. Um dia vou achar uma cópia do “A Base do Teto Desaba” e trago pra vocês. É horrível (risos). É natural. Guitarra e voz. Uma música ou outra que a gente fazia uma arranjinho com teclado, Fruit Loop (risos). No “Pacotão”, a bateria das três últimas músicas, que são da nossa primeira demo, são todas em Fruit Loop. Eu tinha que gravar tudo. A gente participava de um site chamado DemoClub e já tinha música publicada no começinho do Trama Virtual. No começo, a parada do Trama Virtual era Cansei de Ser Sexy, Bonde do Role, Leela e Nevilton de Alencar, em sétimo com uma música chamada “Flores”, que era de uma gravação bizarra: guitarra, gaita e voz. A gente vai rearranjar ela. E desde essa época eu comecei a divulgar, mandar pra todos os amigos, e de gostar dessa coisa de gravar. Quando a gente voltou de Los Angeles, eu trouxe vários equipamentos que ajudaram a facilitar o processo todo…

Como foi essa ida para Los Angeles?

Nevilton: A Superlego começou a se desmaterializar e eu o Lobão decidimos viajar. “Vamos viver em inglês um pouquinho?”. Foi uma idéia maluca. A gente teve um mês pra vir pra São Paulo, pegar o visto e ir. Chegamos lá e ficamos fascinados. Tinha um monte de shows de bandas que a gente nunca tinha ouvido falar, tipo My Morning Jacket. Um puta show animal com som foda, iluminação bonita, e tudo organizado. Vimos vários artistas em lugares menores e voltamos super empolgados. Decidimos apostar naquelas músicas, coisas como “Delicadeza”, que é uma parceria minha com o Lobão, “A Máscara”, que a gente tocava na Superlego. Fiquei pensando que não queria montar uma banda nova que, do nada, os caras desanimassem e a gente tivesse que mudar o nome. “Vai ser Nevilton e quem quiser nos acompanhar que nos acompanhe”…

Quanto tempo vocês ficaram lá?

Nevilton: Seis meses. Foi o suficiente para ter um puta choque.

Fazendo o que lá?

Nevilton: Qualquer coisa (risos). A gente foi pra lá num esquema de trabalhar em staff, em shows e eventos, tipo a Semana do Automóvel de Los Angeles. A gente ficava lá trabalhando “overnight” em vários empregos. De showzinhos a showzões. Shows de hip hop maluco, mas a gente também viu dois shows do Foo Fighters, Elvis Perkins, três shows do Guns ‘n Roses, Raconteurs, Gnars Barkley, Beck…

Trabalhando?

Nevilton: Trabalhando. Ganhava 80 dólares por cada show como segurança, e eles nunca colocavam a gente num lugar muito sério. Arranjavam lugares tipo a saída de emergência – olhando pro palco.

Eles pagavam para vocês verem os shows… risos

Nevilton: Sim (risos). A gente chegava duas horas antes pra pegar todas as coordenadas. Tipo um show do Guns, você tem muitas restrições. Ninguém podia entrar de cartola no local… e ai se o cara insistisse, a gente ia e chamava o supervisor, que era um cara bem forte (risos). A gente ganhava dinheiro pra ver esses shows, e ficava empolgado querendo fazer um som. Com o dinheiro que ganhei lá comprei microfone, controlador midi, notebook. Deixei todas as roupas lá e voltei com a mala cheia de coisinhas. O Lobão ficou mais um mês e meio, e assim que cheguei comecei a gravar “Balada da Vida Irônica”. O Lobão gravou o baixo de “Boleroteque” quando voltou, o resto eu já tinha feito. Ele chegou dia 27 de junho e eu já tinha fechado um show pro dia 30. E a partir do momento que eu peguei o gosto por gravar, divulgar ficou mais fácil, e fui virando esse marketeiro que sou hoje (risos).

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Heitor Humberto

Nesse ponto as duas bandas pegam um caminho diferente. O Heitor foi e gravou um disco enquanto vocês gravaram as demos, mas se concentraram nos shows…

Nevilton: Por causa das demos. A gente mandava para algumas bandas e fazia algumas parcerias. O primeiro show da Superlego em Maringá foi com a Família Palim. O primeiro show em Curitiba foi com a Poléxia, e a gente levou a Poléxia pra Umuarama, e foi um show legal numa boate bizarra. Foi lindo. A gente levou o Charme Chulo pra lá nessa época. Eles tocaram no mesmo dia de um baile de uma banda chamada Tradição, mas o bailão custava R$ 25 e o show do Charme Chulo era R$ 10 homens, R$ 8 mulheres, e lotou. Quando eles tocaram aquelas brincadeiras deles, “Moreninha Linda”, a galera dançava. Muito legal.

E a Banda Gentileza chegou a tocar fora de Curitiba nessa época?

Heitor: A gente tocava num bar de Curitiba tentando fazer o nome e ralando muito. Demorou pra ter público. Acho que no show que a gente fez semana passada em Curitiba finalmente tinha gente pra assistir de verdade. Antes eram amigos.

O disco Banda Gentileza foi gravado quando?

Heitor: Ano passado. A gente fez esse disco a jato. Decidimos que queríamos gravar um disco, e em janeiro já traçamos o cronograma do ano. Fechamos com o Plínio (Profeta, produtor), fechamos estúdio, fizemos ensaio até maio, quando o Plínio chegou para a pré-produção e em junho a gente foi para o estúdio. O disco tem 12 músicas, e a gente já tinha gravado várias nos dois GGG. Decidimos regrava-las porque gostávamos delas. Hoje em dia, por mim, eu regravaria todas (risos)…

O que você mudaria?

Heitor: Principalmente a voz. Foi a nossa primeira vez em estúdio, afinal, os dois anteriores eram ao vivo, e pelo fato da gente tocar sempre em barzinho com o som sempre bizarro e sem retorno, eu não sabia como eu cantava. Quando a gente foi gravar o disco eu pensei que precisava aprender a cantar e fui fazer aula de canto. Na primeira aula a professora falou: “Para de berrar. Agora. Pode cantar baixinho. No estúdio você aumenta o volume depois”. E então comecei a interpretar, tentar dar uma certa dinâmica para aquilo. “Preguiça”, por exemplo, eu acho que ficou bem boa, mas nas outras… eu poderia ter feito melhor, mas o que está no disco é bem espontâneo, sincero.

Você não está sozinho: todo mundo eclama da inexperiência no primeiro disco. O Rodrigo Lemos, inclusive, reclama da voz dele no primeiro disco da Poléxia…

Heitor: Ele acha frio…

Nevilton: E é um disco tão bonito. “O Avesso” é dessa época que a gente fez a festa em Umuarama e foi sensacional. A Poléxia fazia um trabalho bonito, tocava o coração…

Diego: Eles eram o top (em Curitiba) na época…

Heitor: Houve uma expectativa muito grande em Curitiba pelo disco deles. A gente ouvia a galera comentando: “Eles estão gravando”. “Eles vão lançar o disco”.

Diego: E ao vivo tinha o efeito Dudu, que era foda…

Qual foi o primeiro show que vocês viajaram tipo 100 km pra tocar?

Nevilton: Qualquer show pra gente é fora (risos), porque Maringá é 170km de Umuarama. Maringá foi um dos primeiros lugares em que a gente chegou tocando música própria. “Sem cover hoje. Sem tocar Nenhum de Nós” (risos).

Heitor: Antes de Umuarama mesmo?

Nevilton: Antes. Em Umuarama a gente estava fazendo um dinheirinho legal tocando nas duas boates que tinha na cidade, mas só cover, e lotava. A gente não passou barra em relação a público na região. A barra que a gente passou foi fora, lugares como Curitiba… teve uma vez lá que deu R$ 43 de bilheteria.

Heitor: Bem vindo a Curitiba (risos).

Quanto é um bom público em Umuarama?

Nevilton: No show da Poléxia foram 600 pessoas. A gente sempre tentava levar uma banda da região que tivesse fazendo algo autoral e uma banda de fora pra tocar com a gente lá.

Heitor: A gente fez algo parecido em Curitiba, o “Gentileza convida”. Era mensal e sempre tinha uma banda de Curitiba e outra de fora. Começamos com Supercordas, que estava bombando na Folha de São Paulo, e Charme Chulo, que estava na mesma onda. Fizemos um cartaz lindo, o preço estava acessível e… show vazio. O segundo foi Instiga e Sabonetes. Baixamos o preço, divulgamos e… ninguém foi. A gente fez outros…

Quando pegou?

Heitor: Não pegou! A gente fez um especial de natal no final do ano com um cartaz lindo. A galera comentou. O preço era R$ 3, convidamos integrantes de várias bandas de Curitiba – para que não houvesse outro evento concorrendo com a gente (risos) – e… bar vazio. Desde então desisti de produzir shows em Curitiba. Não pegou. Foi triste.

Nevilton: Nós tocamos três vezes em Curitiba em 2007, e nenhuma em 2008. A gente não tinha essa coisa de “saiu na Folha de São Paulo”, sabe, mas a gente fazia a nossa divulgação bizarra. Vários jornais do interior falavam da gente, mas porque nós mandávamos material pra eles.

Como vocês vêem as carreiras das bandas agora nesse cenário doido que a gente está vivendo? Como vocês pensam o futuro da Banda Gentileza e do Nevilton?

Heitor: Agora com o disco, percebemos uma ascensão nos últimos meses em termos de público…

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Em termos de crítica também. O disco foi eleito o 11º melhor álbum de 2009 na votação do Scream & Yell, sendo o melhor disco de estréia do ano…

Heitor: Sim, sim. A gente tocou em Joinville no final do ano e foi bem legal. Um mês e meio depois eles nos chamaram de novo pra tocar e a gente pensou: “Faz tão pouco tempo que tocamos lá. Será que vale a pena?”. Mas fomos e a casa lotou e tinha fila para entrar, a galera cantando as músicas. Daí voltamos pra tocar em Curitiba. Começou tarde, bar lotado, e a mesma coisa que Joinville, galera cantando e tal. Aqui em São Paulo o lugar era grande, era no final da tarde, choveu, e mesmo assim deu um público legal. Terminou o show e a galera veio pra cima do palco conversar, comprar CD. Teve dois caras que viajaram para nos ver. É tipo um sonho de moleque de você montar uma banda e ter uma receptividade, sabe. Já estou realizado. O trabalho agora é tentar fazer essa música chegar ao maior número de pessoas possível. Confesso que estou bem otimista e bastante animado.

Vocês têm alguma idéia de como fazer a música chegar a mais pessoas?

Heitor: A gente fez alguns brainstorms…

Diego: E acabou bêbado… (risos)

Heitor: Talvez fazer um clipe legal ajude bastante… porque ter uma entrevista, ter uma resenha não significa nada…

Diego: A minha prima leu a resenha que saiu do nosso disco na Folha de São Paulo, e o cara detona, e ela: “Que legal que saiu na Folha, que massa”. E eu: “Mas o cara não gostou”… (risos)

É aquele velho ditado: não existe publicidade ruim… porque vai o cara e diz que o disco não é bom porque lembra isso, isso e isso, e o leitor lê e pensa: “È exatamente o que eu gosto”…

Heitor: Tanto o cara do Globo quanto a Folha falaram: “A banda se perdeu em meio a muitas influências sem saber onde queria chegar”. E esse foi o ponto que mais elogiaram em todos os outros lugares, essa coisa de dar uma unidade a tantas coisas diferentes.

E você, Nevilton. Como foi receber a notícia de que vocês fizeram o segundo melho show nacional do ano, segundo a votação do Scream & Yell?

Nevilton: Fiquei assustado, mas acho que a nossa tática está funcionando, que é de tocar em qualquer lugar. E isso só está ajudando. Quando a gente completou dois anos de banda já tínhamos 100 shows. É show pra caramba. E isso faz a gente criar pegada, anima cada vez mais…

Faz vocês pularem cada vez mais alto (risos)…

Nevilton: E eu já descobri que dar cambalhota não é uma boa idéia (risos). Fiquei com uma dor na coluna por dois meses… mas isso tudo é resultado da gente estar tocando muito… e metendo a cara. Eu sempre fui muito otimista. Tanto é que o Lobão não ia largar o emprego no Banco do Brasil se não tivesse um cara com ele que acreditasse muito nas coisas. As nossas músicas sempre foram acessíveis. Não tem crise. A gente mostra pra mãe dos amigos, e elas gostam. Os amigos gostam. Por que uma pessoal normal no fim de tarde, passando roupa e ouvindo rádio, não vai gostar de uma música dessas?

Heitor: É a mesma coisa que a gente sente…

Nevilton: A nossa tática pra chegar até a galera é tocar em todas as situações possíveis que estiverem ao nosso alcance. Vai virando uma bola de neve.

Ser um trio facilita pra vocês?

Nevilton: Facilita muito… (risos)

Ser um sexteto dificulta pra vocês, Heitor?

Heitor: Das seis pessoas, duas volta e meia tem plantão no fim de semana.

Nevilton: Tenho certeza que a Banda Gentileza não tocou em Umuarama ainda porque é mais difícil levar vocês. A Poléxia foi num carro só… o Charme Chulo também… o Terminal Guadalupe só tocou em Umuarama porque eles já tinham fechado Paraíso do Norte e Maringá. A gente tem um Uno, que a gente bateu depois de um show: “Chorei. Acabou. Acabou”, mas nessa última viagem ele fez 17km o litro (risos). Ele agüenta muita viagem ainda (mais risos). Você coloca o trio ali dentro, enche de comida e vamos encarando. Demoramos dois dias de estrada para chegar em Palmas para um show. No dia seguinte, o jornal do Estado do Tocantins dizia: “Na noite do Pato Fu, o melhor show foi de uma banda do Paraná, Nevilton”. Isso não tem preço.

Já que falamos do futuro, queremos saber um pouco do passado e o quanto incomoda vocês quando alguém escreve, por exemplo, no caso da Banda Gentileza, que vocês lembram Los Hermanos...

Nevilton: A gente fala em Los Hermanos. Acho que hoje em dia, qualquer coisa lembra…

Heitor: Não tem ranço, não incomoda, mas eu fico pensando: “É só isso que ele consegue escrever?”. Não dá para levar muito a sério um cara que escreve isso. A Adriane Perin escreveu no blog da De Inverno uma coisa legal após ter visto um show nosso: “Volta e meia comparam eles a Los Hermanos, mas não foram os Los Hermanos os primeiros a misturar rock com MPB. Por que eles não são comparados a Novos Baianos?”.

Mas é diferente. Pra essa nova geração, da qual vocês fazem parte, o Los Hermanos bateu muito forte. Tanto que não só o “Bloco do Eu Sozinho” ganhou disparado a votação de Melhores da Década, como o “Ventura” ficou em segundo com uma larga vantagem. Por isso queremos saber: o Los Hermanos influenciou vocês? Quais bandas influenciaram?

Heitor: Pô, foi no início da faculdade (o sucesso do Los Hermanos) e bateu muito forte. Eu não gostava do rock nacional, porque nada me agradava, não dizia nada pra mim. E fui ouvir o “Bloco” um tempo depois de lançado. Eu vi o clipe de “Todo Carnaval Tem Seu Fim” na MTV, numa madrugada, e fiquei pensando: “Eles estão fazendo isso?!?!”. Não tinha nada a ver com o primeiro disco, era diferente. Comecei a ouvir, ouvir e ouvir e não tinha ninguém fazendo aquilo. Tinha uma qualidade nas letras, uma preocupação estética, mas com muita espontaneidade. Aquilo é muito sincero, autêntico. Bateu e bateu muito forte. Havia uma comoção no país inteiro, shows lotados com todo mundo cantando de cabo a rabo todas as canções. A influência é inegável, mas não é só isso.

Diego: Tanto é que gravamos o disco agora, e a banda são seis pessoas: cada uma escuta uma coisa diferente.

Heitor: Perguntaram pra nós, numa entrevista, o que cada um estava ouvindo, e eu nunca tinha parado para pensar nisso, e cada um falou uma coisa diferente. Então, tem uma influência grande (de Los Hermanos), mas não é só isso. Não é difícil perceber.  Agora eu pergunto pra vocês, que são do meio, porque será que falam isso?

Por vários pequenos motivos: o espaço para uma resenha em um jornal ou numa revista é mínimo. Você precisa apresentar algo para o leitor de uma forma rápida, sucinta, e que faça com que ela leia e tenha uma idéia do som. Impresso é diferente de site, por exemplo, que não há limitação de toques. Essa entrevista de duas horas vai entrar inteira. Na revista seria 1/5 dela. Então, no impresso, você precisa focar em imagens que ampliem o universo para o leitor.

Heitor: Mas é de uma forma negativa?

Não acredito. De repente o cara achou que o som era apenas isso, e cravou. É a leitura dele. É uma maneira de situar o leitor…

Heitor: Mas no nosso caso não é só isso…

Mas é a referência que mais bate.

Nevilton: No meu caso, o Los Hermanos me aproximou da música brasileira. Tive outras aproximações também, mas o Los Hermanos impressionou. Não era como ouvir um disco do Chico Buarque ou um do Detonautas. Era novo, acessível.

Heitor: E o Mombojó veio na cauda, depois veio o Móveis (Colônias de Acaju). Porque quando se fala deles ninguém fala em Los Hermanos?

O Mombojó é cauda mesmo, mas ai já rola uma diferença estética. O Los Hermanos era Chico Buarque. O Mombojó era Jorge Ben. E isso faz diferença. Mas tem algo ali, inevitável. Já o Móveis… o público do Móveis é herança dos Los Hermanos. E o “C_mpl_te” aproximou ainda mais as duas bandas, sonoramente.

Nevilton: Foi o Lobão quem me mostrou o Mombojó pela primeira vez. Ele tinha ido ver o show do Pixies, em Curitiba, e o Mombojó abriu. E depois, quando rolou aquele show com a gente, Banda Gentileza, Charme Chulo e Vanguart, vocês tocaram uma versão de “Adelaide”, do Mombojó, e ficou lindinha…

Diego: E que verso bonito, né: “O que eu entendo por seu meu é tudo que posso lhe dar”…

Nevilton, e quando falam pra você “Nando Reis”. O que você acha?

Nevilton: Eu acho divertido. Não está estreitando. É muito por causa de “A Máscara”. Talvez pelo jeito que a gente tenha gravado… a estrutura daquela demo talvez lembre algumas coisas, mas eu nunca tive um contato muito próximo com o som do Nando Reis. Faz pouco tempo ganhei aquele disco que ele gravou em Seattle, “Para Quando o Arco-íris Encontrar o Pote de Ouro”…

Diego: E tem o seu timbre de voz…

Nevilton: Mas se falar das minhas desafinações comparando com o Nando Reis, eu ouço muito mais Stephen Malkmus e… eu acho ok (risos). Não me sinto nem um pouco ofendido com nada. Sem contar que o Nando Reis às vezes até aproxima outras pessoas, tipo: “Oi, eu sou do fã clube do Nando Reis”, e eu: “Que legal, você gostou da nossa música?”. E ela: “Gostei, gostei pra caramba”. Que lindo.

Tem gente que já falou em The Who…

Nevilton: Olha a impressão que a gente está dando (risos)…

…e o Supegrass dos primeiros discos…

Nevilton: Hoje estou ouvindo mais Supergrass. E conhecia, mas comecei a ouvir mais depois que o pessoal começou a comentar. E fui ouvir para descobrir o porquê, né. Me identifiquei muito. Tem vários backing vocals no estilo “lalalalalalalala” e umas coisas muito divertidas. Mas eu conhecia o “In It for the Money” e o “I Should Coco” muito superficialmente. Não foi uma influência direta.

Talvez sejam as mesmas referências…

Nevilton: Talvez o The Who…

Sem pensar muito: tem uns sete mil CDs aqui. Se tivesse que pegar um e sair correndo, qual seria?

Heitor: Um só? … Acho que iria ser o disco que mais me marcou, que é o “Roots”, do Sepultura. Marcou demais.

Nevilton: Não sei. Juro que não sei. Acho que seria o máximo que coubesse na minha mão. Eu sempre tive contato com Pavement por MP3. Talvez eu levasse uns Pavement… mas é muita coisa boa.

Quais bandas com quem vocês tocaram juntos ou já viram ao vivo que vocês acharam fodas?

Heitor: Móveis Coloniais de Acaju. Você sai de casa pra ver uma parada que te deixa feliz.

Nevilton: Eu fui ver eles no Planeta Terra e me chocou. Na hora que eu entrei já tinha um buraco no meio da platéia e eles estavam lá agitando. Que louco. Mas tem vários shows que me deixaram impressionado. Por exemplo, eu conhecia as músicas do Beto Só fazia uns quatro anos, mas nunca esperava ver ele ao vivo, já que ele não tem uma agenda lotada, e fui vê-lo em Curitiba, e foi um show lindo. Um show incontestável é o do Macaco Bong. Vi alguns shows deles, e todos foram chocantes. Eles fizeram um show com a Pata de Elefante no Itaú Cultural que, pra mim, separou meninos de homens. O show deles foi amplo, abriu a história. Das bandas que conheço, o grande show é o do Macaco Bong.

E o que vocês pensam de suas bandas no futuro?

Nevilton: O mesmo que eu vinha pensando dois anos atrás, mas com muito mais animo. Eu já era animado sem saber que existia uma critica que falava de pessoas que não estão na mídia, reles mortais (risos), hoje em dia sou muito mais “putinha” do que era (mais risos). Tem muita música ainda pra fazer. Tem uma turnê pela frente. Nós já confirmamos o Abril Pro Rock, no Recife, e vamos aproveitar o festival para fazer mais umas dez datas no Nordeste. Eu vejo que vamos fazer mais de 50 shows até junho. Se em 2009 foram 49 shows no ano, em seis meses de 2010 a gente já vai ter feito isso. É a tática que eu falei antes: a gente vai atingir muita gente pessoalmente, no palco. Não há negatividade. Está muito legal…

Heitor: Eu quero montar um trio (risos) e fazer 50 shows até o meio do ano (mais risos).
Diego: A gente está pensando em dividir a Banda Gentileza em dois trios… (risos), mas… sério, a gente ainda nem começou…

Heitor: Temos plena noção disso. A gente precisa plantar mais, precisa fazer a música chegar ás pessoas. Temos uma dificuldade muito grande de fazer show. Existe convite que a gente recusa porque não tem como faltar dois dias no trabalho. Estamos buscando meios…

Diego: Um milionário para adotar a gente (risos)…

Heitor: … mas a gente também está otimista. A recepção está sendo muito boa, então o plano é continuar o trabalho. Divulgar, circular, tocar. Quando a gente decidiu gravar o disco, estávamos numa reunião na casa do Artur (Lipori), e conversamos: “Vai custar tanto. A gente não tem esse dinheiro. Vamos ter que fazer uma dívida. Vai valer a pena?”. A gente gravou e está acontecendo um monte de coisa legal. O disco não passou em branco, entrou em listas de melhores do ano, estou realizado. Agora é pensar no segundo disco…

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Entrevista Pitty

fevereiro 1, 2010

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“É bom que as pessoas que gostam da gente se acostumem porque eu sou inquieta pra caralho e nunca vou conseguir fazer o mesmo sempre.” Pitty, a autora da frase, começa 2010 já com uma novidade no currículo: dia 13 de fevereiro toca pela primeira vez em um trio elétrico no carnaval de Salvador, dentro do Circuito Osmar. Se isso vai desagradar os fãs xiitas, a baiana parece não estar nem aí.

Foi assim quando lançou no ano passado “Me Adora”, o primeiro single de seu terceiro trabalho em estúdio, Chiaroscuro. Balada fortemente influenciada pelos grupos vocais femininos da Motown, a música causou estranheza em alguns e conquistou outros tantos. Ironia do destino, uma música que contém um semi-desabafo contra a crítica musical foi eleita a 5ª melhor do ano pela revista Rolling Stone – com voto meu, inclusive.

Na entrevista abaixo, feita no finalzinho do ano passado, Pitty admite que está em plena evolução musical, que o último disco traz elementos que a cantora queria usar há muito tempo. Apesar de ainda trazer várias letras fracas, Chiaroscuro representa uma ótima evolução sonora. A cantora aprendeu a trabalhar com as sutilezas, e “Me Adora” é um grande exemplo disso, ao não precisar ser direta para expressar sua mensagem.

É como se a cantora saísse de uma certa adolescência musical que predominava nos primeiros discos, em um amadurecimento claro e que todas as pessoas têm em algum momento da vida, mas que poucas vezes é acompanhado como o dela, uma pessoa pública e que expressa muito de si em suas letras. Acompanhar os próximos capítulos dessa história pode trazer boas surpresas. Quem sabe num futuro não muito distante Pitty consiga processar em um disco completo todas as idéias e a criatividade que fizeram de “Me Adora” uma das grandes músicas de 2009 no Brasil.

(Aproveita e, além da entrevista abaixo, lê a resenha do show de lançamento de Chiaroscuro que eu fiz no iG Música)

No dia do show do lançamento em São Paulo, você falou que várias coisas mudaram entre o segundo e o terceiro discos. Quais foram as principais mudanças?

Essa coisa do tempo, ele vai passando e a gente vai adquirindo coisas novas e descobre novas formas de fazer as coisas. O que eu senti de diferença entre os primeiros discos e esse foi o aprendizado das coisas que vêm com o tempo. Por mais que às vezes eu tivesse vontade de fazer algumas coisas que eu fiz no Chiaroscuro antes, eu nem sabia como chegar naquilo.

Que coisas?

– Eu sempre pirei muito em coros, sempre gostei muito de blues e jazz, e aqueles coros meio Motown, mas eu não sabia como fazer pra executar aquilo dentro do meu som, não sabia como juntar. Nesse disco eu já consegui chegar mais perto do resultado que eu imaginava.

As músicas do disco novo parecem mais densas, intensas. Há uma explicação para isso?

– Não tem explicação racional, só posso supor, assim como todo mundo. Também concordo com você. Não sei objetivamente, mas eu atribuo ao tempo, a gente vai se descobrindo ao passo que fica mais velho, vai descobrindo do que gosta, o que é influencia mais externa, o que é passageira.

Há um clichê no rock que diz que à medida que as bandas crescem elas amadurecem e suavizam o som. Com você foi o contrário, ta mais pesado que os outros.

– Hoje o som pesado pra mim ta associado a outras coisas. Som pesado pra mim quando eu era mais nova era guitarra alta, distorcida e rápida. Eu descobri que não é apenas isso, peso tem a ver com densidade, com elementos, com timbre, tem a ver com a mixagem da música, a ordem que você coloca os elementos, camadas, você pode fazer uma música muito mais pesada se você tiver várias camadas sonoras. Nesse disco eu experimentei muito as texturas, em todas as músicas tem uma camada de som que você não identifica a primeira vez que houve, mas ela está lá, pra fazer essa parede, isso faz com que a música fique mais densa. Foi um lance que eu saquei escutando coisas como TV On The Radio, Last Shadow Puppets, Scarlett Johansson, escutando as músicas deles eu pensava que aquilo não era necessariamente pesado mas é denso pra caramba. Por que, como? Ai eu fui pesquisar como eles faziam isso e descobri o lance das texturas, das camadas diferentes. E as bandas influenciaram de uma forma sutil, porque dificilmente quem ouve meu disco reconhece essa influência, mas tá ali. Você pega um pouco de tudo que ouve. Eu acho esse disco bem foda em termos de textura.

Você possui muitas letras confessionais. Parafraseando o filme “Quase Famosos”, é preciso ter vivido uma situação para escrever sobre, é preciso sofrer por amor pra escrever sobre isso?

– Depende. Tem gente que consegue captar a dor do outro sem nunca ter vivido e tem gente que só sabe escrever sobre coisas que sentiu. Eu me encaixo na segunda opção. Eu não tenho a sensibilidade de outras pessoas sentirem, tipo o Chico Buarque que escreve de uma forma feminina, mas ele não é mulher. Ele consegue captar a parada. Eu não tenho muito isso, me expresso melhor sobre coisas que eu senti, por isso fica bem confessional. Eu costumo escrever muito em primeira pessoa, e talvez isso seja um reflexo do ter que sentir para escrever. Já tentei, como exercício, escrever em terceira pessoa, escrever sobre um fato isolado. Ainda tô nesse exercício, quero descobrir outras formas de escrever, mas até então minha melhor forma de expressão tem sido a respeito de coisas que eu senti.

Então, se você escreve sobre as coisas que realmente sente, falando da música que abre o disco, “8 ou 80”, você se diverte mais com os culpados? Você também é uma culpada? O que é ser um culpado?

– Totalmente, me divirto mais com os culpados. O que eu escrevo é muito verdade, são confissões. O refrão de 8 ou 80 foi uma conclusão que cheguei que as pessoas que eu mais me dou bem são aquelas que não são convencionais perante a sociedade, que não agem de acordo com todas as regras, os marginais. Eu me identifico com eles, com os malditos, é pra eles que eu olho com admiração, tipo “achei minha galera”. Claro, eu consigo conviver com os inocentes, mas acho que eles são muito inofensivos, o fato de ser inofensivo não cria em mim uma fascinação tão grande quanto as pessoas que vivem de forma marginal.

Dá pra dizer que escrever é uma terapia pra você?

– Totalmente, é minha maior terapia e no momento a única, desde que eu me entendo por gente, desde que aprendi a escrever, eu soube que isso me fazia muito bem. Começou de forma bem cotidiana, de ser menina e ter um diário, aos 8 anos de idade. Com o tempo isso foi evoluindo, a escrita foi ficando cada vez mais profunda e reveladora e mais com caráter aliviador pra mim. Durante muito tempo, até hoje, eu consigo resolver coisas no papel que eu não consigo resolver na vida real. Elaborando essas questões a meu respeito e às coisas à minha volta no papel eu consigo olhar pra elas com um distanciamento que é saudável pra mim, é como se tirasse isso de mim e observasse de fora e me entendesse um pouco mais.

Falando especificamente do primeiro single, “Me Adora”, quando você tocou ele no mesmo show em São Paulo fez meio que um desabafo, falando que algumas pessoas tinham reagido mal a talvez a musica mais diferente que você gravou até hoje. Rolou isso de fã não entender?

– A aceitação foi maior que a não aceitação. Ela é uma música que tem suas peculiaridades dentro da nossa carreira, é diferente do que a gente tinha feito, tem um refrão com um palavrão, óbvio que ia causar uma reação desagradável em algumas pessoas. Não é uma canção fácil, apesar de ser muito pop e melódica, mas é um pop estranho, tem suas arestas, não é macia, não desce redondo. O que rolou de não aceitação é que alguns fãs antigos são muito radicais, querem que a banda continue sempre a mesma coisa, tem saudade do que a banda fez no primeiro disco, e é normal esse tipo de gente existir. Acho que, na verdade, é a maioria das pessoas, que querem que as coisas continuem do jeito que elas conhecem, a mudança traz desconforto. Mudança é você lidar com o novo, é pensar tudo de novo sobre uma coisa, então muita gente teve que repensar a nosso respeito. Isso traz um conflito, mas é pro bem. É bom que as pessoas que gostam da gente se acostumem porque eu sou inquieta pra caralho e nunca vou conseguir fazer o mesmo sempre, então se eles têm essa expectativa é melhor gostar de outra coisa que vai ser sempre igual, que eles vão se decepcionar menos. Porque eu acho que mudança é sempre positiva, é sempre pra frente. “Me Adora” trouxe tanta coisa boa, pra gente foi tão bacana ouvir pessoas que nem gostavam do nosso som e falaram “agora sim, agora bateu”. Pessoas mais velhas que têm outras referências, que não são as mesmas de um moleque de 14 anos. Galera mais nova vai reconhecer isso daqui um tempo, eu sei porque quando eu tinha 14 anos eu também não conhecia, eu conhecia Dead Kennedys e Bad Brains e achava que aquilo era tudo na vida. É 80%, mas não é tudo. Teve mais benesses que coisas ruins. Valeu a pena comprar essa briga.

E você já falou que, além de ser uma música de amor, ela também é uma música pra crítica musical. Teve alguma crítica especifica em todo esse tempo que te incomodou demais, que essa música seja uma resposta?

– Não é pra nenhum fato específico, não foi pra um jornalista específico, mas na real “Me Adora”, quando aplicada a essa circunstância, é um resumo de tudo que aconteceu desde o começo até hoje. Foi meu jeito de observar todas as vezes que a gente foi criticado de maneira completamente superficial e leviana, até o fato de você se deparar com a preguiça mental de um monte de gente que tá ali pra resenhar sua obra mas que não tá muito preocupado em descobrir qual a parada, tá a fim mesmo de te colocar no mesmo balaio da nova geração do rock e tal, tá na mesma época é tudo igual. Existe gente que vai resenhar o disco e ouve cinco segundos de cada faixa só porque é um trabalho, ele tá ali sem vontade, e acha que já tem opinião pra falar sobre aquilo. O grande negocio é aprender a lidar com isso. Por que ao mesmo tempo tem outra galera que ouve com cuidado e que por mais que não goste do som consegue sacar o que tem de bom e ruim ali. E eu dou muito valor às críticas construtivas, é bacana ter a visão de fora. O que eu mais gosto nesta música, voltando, é o duplo sentido, é o fato de que ela é um mistério, ela pode ser aplicada a tudo isso e a mais n situações que você pensar.

E qual foi a experiência de gravar o disco com uma câmera registrando tudo, teve desconforto?

– Desconforto nenhum, mas só pelo fato de que o (Ricardo) Spencer é um amigo íntimo há muitos anos, não era um cara com uma câmera, era ele, nosso brother, que eu conheço desde que tenho 15 anos. Então o conforto e tranqüilidade vêm disso, e de confiar nele totalmente, de saber que as coisas que ele vai captar são condizentes, eu conheço ele enquanto cineasta e sei das referências dele, que são iguais às minhas, então tem uma confiança enorme no trabalho um do outro.

Quem te chama atenção no rock brasileiro independente hoje em dia?

– Tem muita gente legal fazendo coisas no underground, e eu acompanho porque são todos meus amigos. Muita coisa fico sabendo por causa do Fabrício Nobre, essa galera que tá sempre fomentando a cena, e são todos meus amigos desde aquela época. Das bandas novas eu sou completamente apaixonada pelo Macaco Bong, acho um absurdo os três no palco, Bruno (Kayapy) é o Hendrix da minha vida. Gostei muito do Black Drawing Chalks, de Goiânia, ouvi umas músicas na internet. De banda novíssima essas duas, gosto muito do Vanguart, curto muito o primeiro disco. Tem o Instituto que eu acho massa, eles tem uma noite de dub que você vai e dança a noite toda. As coisas tão rolando, e a distância da visão das pessoas e realidade ao meu respeito é muito louca, a banda deu certo e hoje eu tenho a oportunidade de tocar no programa da Hebe, mas as pessoas não sabem que eu continuo andando com a mesma galera, continuo indo ver show aqui na Augusta.

Você acha que rock no Brasil é gueto?

– Ainda é gueto, mas acho que já foi mais. Pra deixar de ser, a própria galera que faz rock tem que perder um pouco o medo de se deparar com as coisas mais populares. Sinto que o pessoal tem muito medo, toda vez que aparece uma oportunidade mais popular pra fazer, tem medo do que vão falar, de “se eu for em tal programa vão achar quer eu não sou mais rock”. Tem que se desprender dos medos e ser a mesma banda no Inferno ou na Virada do Ano na Paulista.

Bateu esse medo em você quando saiu do independente de Salvador?

Bateu e bate. Por que eu sei que a visão das pessoas fica meio turva quando você vai pra grande mídia. A gente precisa da grande mídia pra divulgar o nosso som, mas às vezes ela não tá preparada pra divulgar esse tipo de som. Rola um certo desconhecimento, desse tipo de segmento, então acaba te juntando com um monte de coisa que é nada a ver. Claro que bateu o medo, e bate até hoje. Muitas das coisas que eu não fiz na minha carreira foi por causa desse medo, de ser confundida, tipo “se eu fizer isso aqui eu sei que vou falar pra um monte de gente, mas uma galera que curte rock vai achar que agora zoou mesmo”. Então são muitas escolhas. Tenho consciência de que a galera que olha pra gente hoje só sabe das coisas que eu fiz, não sabe das que eu não fiz, que eu disse não.

Pra que você disse não?

– Fazer playback em todos os programas de televisão que você possa imaginar, e isso é só um exemplo que lembrei agora. Fomos constantemente convidados a fazer playback, e eu sempre recusei com cuidado pra não parecer presunçoso, eu achava que não ia ser bom pra gente. Foi uma opção que eu nunca quero que soe arrogante. Disso até recusar posar nua por muito dinheiro.

Chegou a ter convite pra posar nua?

– Chegou, mais de uma vez, e eu optei pelo não, porque dinheiro não é tudo. Eu ia ganhar muita grana, mas não ia nem conseguir usar ela depois de tanta vergonha.

Banda Gentileza lança CD com show em São Paulo

novembro 13, 2009

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Eles vêm de Curitiba, mas espantam a atmosfera cinzenta da capital paranaense em sua sonoridade. Unindo viola caipira com saxofone, rock com lirismo, a Banda Gentileza acaba de lançar um disco homônimo multicolorido. Neste sábado, às 20h, a banda faz show em São Paulo, no Espaço +Soma, para divulgar o álbum, produzido por Plínio Profeta. Heitor Humberto, vocalista da banda, conta um pouco da história do sextexto, comenta a cena de Curitiba e fala como foram as gravações do CD na entrevista abaixo.

Banda Gentileza no Espaço +Soma
14 de novembro, a partir das 20h
Rua Fidalga, 98 – Vila Madalena – São Paulo, SP
R$ 10

Esse é o primeiro álbum de vocês. Quais as expectativas?

A expectativa é grande. Várias das músicas que gravamos neste álbum já estavam nos nossos dois primeiros EPs, que foram gravados ao vivo. Apesar desses dois primeiros registros serem mais “crus”, menos trabalhados, conseguimos alguma repercussão em Curitiba, em Santa Catarina e também em São Paulo. Além de possibilitar o trabalho com o produtor Plínio Profeta. Ou seja, a gente acredita bastante no potencial dessas músicas, cada uma apontando para uma direção diferente, mas que ficaram bastante coesas dentro do álbum. E a produção do Plínio foi muito importante nesse sentido, pois as músicas formaram um belo conjunto. E é justamente com essa proposta que a gente espera alcançar novos ouvintes, marcar novos shows e criar novas expectativas.

Como rolou o contato pra trabalhar com o Plínio Profeta?

Quando a gente começou a pensar mais seriamente em gravar um álbum, concluímos que precisaríamos de um produtor bacana que tivesse bastante referência de diferentes estilos e que pudesse entender a nossa proposta. Eu já conhecia o trabalho do Plínio pelos artistas que ele produziu e que, de uma forma ou outra, tinham a ver com a sonoridade Banda Gentileza: Pedro Luís e a Parede, Kátia B., Lenine, Lucas Santtana, Pavilhão 9, O Rappa, Xis, entre outros. Para nós, seria ótimo poder trabalhar com ele. Mandei um e-mail e ele foi bem receptivo, pediu algumas de nossas músicas para conhecer o nosso trabalho. Ele ouviu e disse que tinha gostado da nossa mistura, que topava produzir o nosso disco. Depois disso, foi só conciliar as agendas para iniciar os trabalhos.

Vocês fizeram meio que um reality show das gravações. Teve bom resultado de retorno do público?

O retorno foi ótimo. A rotatividade de pessoas que assistiram ao vivo as gravações foi muito grande. A gente podia acompanhar sempre o número de computadores conectados e chegamos a picos de 40 pessoas simultaneamente (o que pra gente foi sensacional). Teve também o lado de nos aproximarmos das pessoas, pois o pessoal podia escrever no chat. Então eles faziam perguntas, queriam saber qual música estávamos gravando, como estava sendo o processo no estúdio etc. E a gente respondia tudo na hora pela câmera. Além do mais, teve gente que não conhecia a banda, mas assistiu às nossas transmissões por curiosidade e passou a nos conhecer. E por último, teve uma repercussão na imprensa dessa nossa iniciativa, o que atraiu ainda mais pessoas para a TV Gentileza.

Vocês são relativamente novos na cena de Curitiba. Como vocês sentem ela? É bem diversificada, mas por que não vinga tanto quanto cenas de outras cidades? O que falta?

Por partes. Sobre a cena: Há uns meses eu estava convencido de que a cena de Curitiba estava em ebulição, que não demoraria para ser destaque no Brasil. Isso porque dava para perceber que os shows estavam sendo melhor produzidos, as bandas mais preocupadas. Mas quando você toma conhecimento da movimentação e da organização que estão rolando em Cuiabá (meu deus, com moeda própria!), em Vitória, no Circuito Fora do Eixo, tudo com uma cena organizada, com pesquisas, com patrocínio, com ideias novas, é de ficar com o queixo caído. Eu continuo achando que a cena de Curitiba está muito boa, mas fica claro que ainda temos um grande caminho pela frente em termos do que precisamos fazer e aonde queremos chegar com tudo isso. Acho que falta uma visão global para entender o nosso potencial, conhecer o nosso nicho, o nosso mercado. Falta um festival de peso, por exemplo. Recentemente tivemos o De Inverno que está batalhando muito para crescer. Felizmente neste ano foi uma grande edição. Eu espero que ele cresça cada vez mais. Acho que o Ivan e a Adriane estão fazendo a parte deles. Então, na minha opinião, apesar de ser perceptível que as pessoas por aqui estão tentando deixar tudo cada vez melhor, ainda falta alguma coisa. O negócio é se espelhar nas belas iniciativas que estão rolando pelo Brasil para desenvolver algo semelhante por aqui e não apenas olhar para o umbigo e manter o discurso vazio de que “a cena de Curitiba é uma das melhores do Brasil e em breve deve estourar”, pois isso vem sendo repetido há algum tempo e infelizmente não se tornou realidade ainda.

A cena curitibana é bem diversificada mesmo, conta com bandas que se dedicam a diferentes estilos, o que é maravilhoso. Tem ruído/mm, Charme Chulo, Copacabana Club, Sabonetes, Anacrônica, Stella Viva, Chucrobilly Man, só pra citar alguns nomes. São todas bandas curitibanas, mas é impossível dizer que há uma estética, uma cara da cidade. E isso é muito bom, torna a cena muito rica.

O que falta? Na minha opinião, falta parar com essa eterna expectativa de que uma banda curitibana se destaque. E eu acho que essa expectativa, essa cobrança, só vai se encerrar quando algum grupo ou artista da cidade tiver um desempenho comercial e de público semelhante ao Skank, Jota Quest, Titãs ou coisa parecida, já que o Bonde do Rolê, por exemplo, lançou álbum por uma puta gravadora, fez shows importantes, participou de festivais, mas ainda assim a gente espera alguém daqui estourar. No meio independente, ruído/mm lançou um EP super elogiado, o Copacabana Club está subindo cada vez mais, mas parece que ainda não foi o bastante. Então na verdade eu acho que é uma questão de conceito, é uma questão de esperar que uma banda de Curitiba gere repercussão tanto na imprensa quanto entre o grande público. E por que isso ainda não aconteceu? Porque nada do que fizemos até hoje despertou em grande escala a atenção dos críticos, da imprensa, ou das grandes gravadoras. E por que não? Ou porque nunca teve apelo mercadológico ou porque nunca surgiu algo que realmente seja bom o bastante para isso. Se tivesse, a gente não estaria falando sobre isso.

Felizmente, as bandas estão se profissionalizando, trabalhando com produtores importantes que estão sabendo extrair o melhor cada banda, cada qual no seu estilo. Enfim, os grupos estão lançando trabalhos caprichados tecnicamente. Resta agora convencer o restante do país que o produto é bom. E aí a gente volta pro início da pergunta: o que fazer e como trabalhar com o potencial da cena curitibana?

A banda já teve muitas formações?

Algumas. Começamos como um quarteto (duas guitarras, baixo e bateria). Mas quando o nosso amigo Artur começou a tocar trompete, imediatamente o chamamos para testar umas linhas nas músicas que a gente já tinha. Em 2007, gravamos o nosso segundo EP e queríamos mais um metal na banda. Convidamos a Tetê, que tocava saxofone em uma banda feminina (a Toca Toca Errado). Foi aí que viramos um sexteto. Em 2008, depois de dois novos integrantes, tivemos uma baixa: o Jota, guitarrista, acabou saindo da banda e entrou o Emílio. Hoje, apenas o Diogo toca um instrumento (bateria). O resto da banda alterna bastante: o Emílio toca guitarra, violão, bandolim, viola caipira e ukelele. O Diego fica no baixo, mas também se aventura na concertina. O Artur assopra o trompete, toca baixo e guitarra. A Tetê comanda o saxofone e o teclado. Eu vario entre guitarra, violino e cavaquinho.

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Vocês trocam bastante de instrumentos no palco e também usam violino, sopros e tudo mais. Árcade Fire é uma referência?

É uma referência, afinal todos na banda gostam de Arcade Fire. Mas acho que acaba não sendo uma influência direta, pois na hora de compor ou criar arranjos, não nos lembramos deles. A questão de usar vários instrumentos tem sido bem natural: quando alguém arranja um instrumento novo, tentamos ver como ele pode se encaixar na nossa sonoridade. Ou então pode acontecer o contrário: a vontade de explorar uma nova textura nos leva a buscar um instrumento que já tínhamos, mas não usávamos (violino e viola caipira, por exemplo) ou instrumentos que não tínhamos e precisariam ser adquiridos (cavaquinho e ukelele).

Qual o papel e a importância da música caipira e regional no som e na formação de vocês?

São importantes na medida em que nos despertam a vontade de agregá-las às nossas composições. O Emílio toca viola caipira e é o que melhor domina esse estilo dentro da banda, já fez algumas oficinas nessa área. Mas o nosso maior interesse é nos divertir enquanto tentamos descobrir estilos que não temos contato mais direto, como valsa, bolero ou músicas do leste europeu. Enfim, coisas que nos proporcionam passeios agradáveis.

Por onde sai este primeiro CD?

Vamos lançar do próprio bolso mesmo. Faz tempo que sonhamos em lançar um disco de estúdio e resolvemos correr atrás para que ele fosse viabilizado o quanto antes, sem selo ou gravadora. Depois que a primeira tiragem estiver pronta, vamos ver se surgem novas possibilidades.

Entrevista – Hotel Avenida

outubro 26, 2009

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O Hotel Avenida, uma das promissoras bandas da efervescente cena de Curitiba, acaba de lançar um EP ao vivo, gravado no projeto Acústico Mundo Livre FM, que você pode baixar aqui. O disco tem seis faixas, sendo quatro de composição própria (destaque para “Só o amor pode partir seus joelhos”) e duas covers, “Nuvem de Lágrimas” (sim, aquela mesma) e “Meu abismo, meu abrigo”, de Lobão.

Formada basicamente da união de Ivan Santos (ex-OAEOZ) e o vocalista Giancarlo Rufatto, a banda tem como objetivo fazer “canções à moda antiga sobre a vida”, segundo Gian. A entrevista abaixo foi feita no começo de agosto, para uma matéria que acabou tomando outros rumos. Eis a íntegra.

P.S.: Vale muito a pena baixar também o EP ao vivo no Rock de Inverno, que contém a grande música da banda, a pungente “Eu não sou um bom lugar”. Aproveita e relê a minha cobertura do Rock de Inverno deste ano.

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A banda tem poucos meses mas vocês já conseguiram bom destaque em blogs nacionais e tocaram para um bom público no festival da Oi. Tinham essa expectativa de que as coisas acontecessem tão rápido?

Ivan: Sinceramente não. Até porque é um meio muito competitivo. Tem muita banda por aí e as vezes é difícil se destacar. Muitas bandas levam anos pra conseguir o espaço que a gente conquistou em pouco mais de seis meses, com apenas cinco shows e um single lançado. O convite para o Expressões Oi, principalmente, foi uma grata surpresa, pois não imaginava que a gente fosse escolhido com tanta banda boa e com mais nome que a gente que se inscreveu. E poder tocar ao ar livre, no domingo a tarde, com equipamento e som de primeira, pra um público diferente, que não frequenta bares e shows noturnos, foi uma grande satisfação.

Por outro lado, apesar da banda em si ser nova, todos nós já temos uma boa experiência com trabalhos anteriores. Já sabemos um pouco mais do “caminho das pedras”. E hoje temos autonomia total pra gravar e os contatos pra divulgar o trabalho, o que facilita as coisas. Essa experiência anterior, acredito, foi decisiva para que a gente conseguisse esse destaque em tão pouco tempo.

Gian: Não é que as coisas aconteceram “rápido”, elas estavam acontecendo em um outro estado, digamos menos sólido, antes mesmo da banda existir. O Ivan sempre ficava batendo na tecla que eu deveria ter uma banda pra me apresentar, mostrar as canções dos meus discos como elas eram gravadas e quando o OAEOZ parou no ano passado, começamos a gravar juntos o que gerou o EP “Ivan Santos & Giancarlo Rufatto”. Foi ali que a banda começou – inclusive cogitamos chamar o EP de Hotel Avenida, mas como gravamos tudo em casa, ficou com nossos nomes. Foi a partir do lançamento no final de 2008 que começamos a mexer os pauzinhos pra tocar ao vivo e nesse processo, muitas pessoas ajudaram na sedimentação da banda. Dos integrantes (eu, Ivan, Carlão Zubek, Igor Ribeiro, Eduardo Patrício, Allan Yokohama e Rubens K) aos blogs que nos deram espaço desde antes do primeiro show como o In New Music We Trust e o Subtropicalia. E quando a gente gravou o primeiro single da banda, não existia outro caminho pra gente que não o de pedir ajuda a todos os blogs de amigos para o lançamento.

Então, calhou de a banda ganhar as paginas de todos os jornais do estado, ser selecionada para o Expressões Oi (duas vezes – já que meu trabalho solo também havia sido) e tocar no Rock de Inverno para passarmos a existir fora do bolha indie de Curitiba o que definitivamente é bem legal, o virtual é legal, mas eu recomendo a realidade.

Expliquem um pouco as referências sonoras. Tava pensando outro dia e cheguei a classificar o som de vocês como um “folk-rock com sentimento”. Faz sentido?

Ivan: É por aí. A gente brinca dizendo que a Hotel Avenida é uma banda de canções à moda antiga, no sentido de que a gente não está preocupado em inovar nem em reinventar a roda, mas sim em fazer boas canções, com as quais as pessoas possam se identificar e gostar. O folk sem dúvida é uma referência básica, assim como o soul e o rhythm and blues. Cada integrante acaba contribuindo com um background diferente. Eu citaria ainda coisas como o trabalho solo do Mark Lanegan, Grant Lee Philips, Cowboy Junkies, Gutter Twins, Mercury Rev e Spiritualized, Black Crowes, enfim, muita coisa.

Gian: Eu nunca pensei em folk-rock porque vejo as canções apenas como música pop. Eu gosto de pensar que a Hotel Avenida tem de ser “uma banda de canções a moda a antiga” com partes cantáveis em coro, melodias para dançar, letras para ler e pensar. Tem tudo isso nos discos de artistas que eu gosto, no Bruce Springsteen por ex. Até me incomoda que a associação com música melancólica seja a primeira impressão passa. A questão é que cantamos sobre a vida e a vida na maior parte do tempo é feita de “quases” e de coisas que não conseguimos.

“Eu não sou um bom lugar” é uma música bem intensa, que cresce durante a audição. Como ela foi composta?

Gian: A música é uma tentativa de fazer soul (na hora de mixar inclusive mandei Otis Redding para o pessoal ouvir) e fala sobre ações equivocadas que o ser humano faz ao longo da vida. Tive de explicar pra minha mãe que na parte em que eu cito “Jesus, Maria e sua gangue” não era um sentimento propriamente meu e sim uma ironia para com o exagero evangélico. Eu gosto de colocar religião nas letras e quase sempre no contraponto do lado egocêntrico do cara que vai morrer porque a mulher não o quis.

Vocês dois tinham outros projetos anteriores ao Hotel. Como ficam eles agora com a banda?

Ivan: No caso do OAEOZ, minha banda anterior, a gente parou mesmo. Depois de onze anos, vários discos lançados, cheguei a conclusão de que era hora de virar a página, pois acho que já tínhamos feito tudo o que poderíamos fazer, e não havia mais sentido em insistir em algo apenas por obrigação. Ao mesmo tempo, em 2008 eu e o Gian começamos a compor e gravar juntos, e a partir do EP que lançamos no final do ano, resolvemos montar uma banda para tocar essas canções ao vivo, o que acabou gerando a Hotel Avenida. E até por questão de disponibilidade de tempo, percebi que não haveria como levar a frente duas bandas simultaneamente. Então a minha ideia, pelo menos no momento, é me dedicar exclusivamente à nova banda.

Gian: Eu continuo gravando coisas em casa e sigo com meu trabalho solo, mas dei uma diminuída na velocidade em que eu lançava discos em 2008. Pouco antes do lançamento do primeiro single do Hotel eu lancei o Machismo EP e muita gente que veio à procura de mais material da banda acaba baixando meus trabalhos solos que são base dos shows da banda enquanto não lançamos as musicas novas que já tocamos nos shows. Fora o fato de que todo mundo tem seu projeto, sua banda própria e seguem lançando coisas. O Carlão acabou de lançar um disco novo do folhetim Urbano. O Eduardo é produtor e também tem discos solos, o Igor tem a Orquestra Mecânica. Acho que é por isso que a banda se chama Hotel.

Tem planos de gravar um CD? Pra quando? Ter um CD ainda é fundamental numa época onde o MySpace é tão forte?

Ivan: A princípio não temos uma preocupação imediata de gravar um “CD cheio”. A nossa ideia é ir gravando canções a medida que a gente ache que vale a pena e lançando através de singles e ou EPs. Até porque hoje em dia, as pessoas tem cada vez menos tempo e mais informação pra processar, e dificilmente ouvem um cd inteiro com dez, doze músicas, por melhor que seja. É mais fácil chamar a atenção das pessoas com um single ou um EP do que com um disco.

Mas em outubro nós vamos gravar uma participação no programa Acústico Mundo Livre, da rádio de mesmo nome daqui de Curitiba, que vai gerar um EP ao vivo no estúdio, com seis músicas, que deve ser lançado até o final do ano. E estamos estudando a possibilidade de lançar um bootleg com as gravações ao vivo do nosso show no Rock de Inverno 7.

Gian: De concreto existe a gravação do Acústico Mundo Livre Fm, em que registraremos 4 canções novas em formato ao vivo e lançaremos como EP. Isso deve acontecer em outubro e acho que seguiremos lançando singles e EPs virtuais. O CD pra mim virou item que você entrega a quem ainda não te conhece. Nos shows eu faço algumas cópias e entrego caso alguém venha perguntar informações sobre a banda. No geral é assim que funciona, o MySpace tem sido veículo forte de aproximação com o público, mas há sempre uma ou outra pessoa que é pega de surpresa e eu gosto muito quando isso acontece.

E shows fora de Curitiba, tem planos, algo marcado?

Ivan: Já temos alguns convites, inclusive pra tocar em São Paulo e no interior do Estado, e só estamos acertando agendas pra armar isso de fato.

Gian: Após o Expressões Oi e o Rock de inverno 7 rolaram convites para shows em São Paulo e no interior do estado. O plano agora é tocar onde for possível.

Serviço de utilidade pública

outubro 13, 2009

do amor

Hoje à noite, às 22h, tem Do Amor no programa Ronca Ronca, apresentado pelo Maurício Valladares na Oi FM (você pode ouvir online aqui). A banda deu uma sumida esse ano, muito por causa da divulgação do disco novo de Caetano Veloso (o baterista Marcelo Callado e o baixista Ricardo Dias Gomes são da banda de Caê). No programa eles vão tocar versões acústicas de suas músicas e o produtor Chico Neves aparece pra mostrar um pouquinho do aguardado primeiro disco da banda, que estava prometido para 2009. Aqui tem uma matéria que eu fiz com eles no ano passado.

Atualização: já dá pra ouvir o programa aqui.

O lado indie da banda, com “Chalé”

E o lado axé, com “Meu Coração”

Foto de Liliane Callegari

Entrevista – Juliano Polimeno, da Phonobase

outubro 7, 2009

Juliano Polimeno é a cabeça por trás da Phonobase, empresa que faz, em conjunto com os músicos, a gestão das bandas Cérebro Eletrônico e Jumbo Elektro. Para o lançamento do último álbum do Jumbo, eles montaram uma estratégia com diversos formatos de MP3 para venda e mais: lançaram uma plataforma Fan2Fan, para que cada pessoa que quiser monte uma loja vendendo o disco em seu site e ganhe uma porcentagem disso. Juliano bateu um papo com o blog para falar sobre a plataforma, a nova indústria musical e como Cérebro, Jumbo e bandas independentes se encaixam nisso tudo.

P.S.: Essa entrevista inaugura uma “série” no blog, onde tentarei discutir com pessoas importantes e relevantes do cenário musical os rumos que essa indústria está tomando – e qual a perspectiva do independente.

JulianoPolimeno

– Vocês fizeram uma pesquisa no começo do ano sobre consumo de música pelo público. Quais foram os principais resultados? O público de hoje ainda compra discos?

Na verdade, foi uma pesquisa feita para a banda Cérebro Eletrônico em que constavam questões sobre o relacionamento do público com a banda e também perguntas sobre a forma de consumo de música. Nossa expectativa inicial era de cerca de 200 respondentes, mas tivemos quase 700 inscritos. É preciso ficar claro que se trata de uma parcela do público, aquele com acesso à internet (já que a pesquisa era online) e, para nós, representa uma parcela – ainda que bastante representativa – da totalidade do público do Cérebro Eletrônico.

Entre os principais resultados, destacaria a forma como as pessoas conheceram a banda, com a vitória da “recomendação de amigos” com 21%, seguida dos blogs com 17%, programas de TV com 16% e através de shows com 11%. Outro dado importante é que 43% dos respondentes disseram que baixaram o álbum “Pareço Moderno” gratuitamente tanto através do EP que disponibilizamos para blogs e sites quanto através de links “piratas”, torrent, etc. Em contrapartida, é interessante observar os resultados da pergunta seguinte:

Q25. Em que formato você gostaria de adquirir o próximo disco da banda?
Um CD normal com preço honesto    23.29%
MP3 de graça    20.89%
Um CD simples e barato    11.64%
Um CD com conteúdo extra, versões, vídeos, fotos, etc    10.85%
MP3 a um preço honesto    9.89%
Um formato especial e exclusivo, mesmo que um pouco mais caro    8.29%

Nesse sentido, me parece que há uma certa ambiguidade entre a “prática” do consumo e a “opinião” prévia ou “intuito” sobre a forma de consumo de música. Ainda na pergunta seguinte, o resultado também parece comprovar essa “teoria da ambiguidade” entre prática e pensamento. Quando perguntados se topariam comprar o próximo álbum da banda antes dele ficar pronto (cerca de 6 meses antes) para ter acesso a conteúdos exclusivos como prévia das músicas, vídeos da gravação, faixas extras, etc, 57,7% disseram que sim e 31,2% que não topariam.

Outras perguntas também demostraram essa ambiguidade e, de modo geral, isso foi o que mais nos chamou a atenção. Se o público ainda compra discos? Ele pensa que sim, mas na prática não.

– Esses resultados já foram usados para o lançamento do Jumbo Elektro também?
De certa forma sim, pois tanto a pesquisa quanto o acompanhamento do mercado, de outras empresas e estratégias, etc, acabam reformatando diariamente nossa forma de pensar e agir no mercado fonográfico. Mas acho também que o lançamento do novo álbum do Jumbo Elektro foi mais um experimento da Phonobase para tentar entender o público a partir de estratégias diferentes. Com o Cérebro oferecemos diversos produtos físicos e com o Jumbo a idéia foi oferecer diferentes opções de produtos digitais para ver o que acontece.

– Vocês estão com a proposta do Fan2Fan, que é uma loja virtual para cada usuário. Como surgiu essa idéia?
Surgiu em uma noite de insônia na qual minha cabeça não soube mais onde ficava o botão de desligar. Trabalhar com música hoje, mais do que tudo, envolve uma coisa que o mercado parece ter deixado de lado em nome do “modelo único de negócios”: a criatividade. Tudo aqui na Phonobase parte de uma idéia criativa, é a partir dela que montamos as planilhas e não o contrário.

A idéia do Fan2Fan é muito simples e, basicamente, une certos conceitos das “redes sociais” com os “programas de afiliados” de empresas como a Amazon, na qual o usuário recebe porcentagens sobre as vendas efetuadas. O Fan2Fan une distribuição, divulgação e relacionamento direto com a base de fãs.

– Qual o impacto que está tendo? E qual a expectativa a longo prazo?
Ainda é cedo para tirar conclusões e apresentar resultados consistentes já que o lançamento da plataforma tem apenas 15 dias, mas só a repercussão da plataforma Fan2Fan no mercado, na imprensa e na opinião direta dos fãs já representa uma vitória para nós e para o pessoal do Jumbo.

– O que é o Direct-to-fan? Pode falar algo?
Será uma plataforma de serviços para artistas e bandas que queiram gerir sua carreira sem muitos intermediários e atingir os fãs de forma direta. A idéia é oferecer ferramentas – como por exemplo o Fan2Fan, mas também serviços no mundo “real” – para que ele possa administrar sua carreira. Isso tudo com o auxílio profissional da Phonobase.

– Ano passado o Cérebro teve um problema com a APCM, que tirou um link de um EP, disponibilizado pela própria banda, do 4Shared, o que mostra que talvez a política de varrer links pela web segue apenas critérios quantitativos. Qual a sua visão do episódio e desse método?
Quando isso aconteceu, deixamos claro que somos a favor dos direitos autorais e sua proteção, mas contra ações de “terrorismo autoral” que parecem nem ao menos tentar entender como e para onde está caminhando o mercado de música. Ações como essa ao invés de alimentar uma cultura do “pague pela música que você gosta” geram mais argumentos para que as pessoas não comprem música, pois elas são tratadas como bandidos e não como consumidores em potencial. É uma estratégia burra e imbecil a de processar os próprios clientes, isso só os afasta mais ainda.

– Estamos passando por um momento de transição no mercado fonográfico. Você acha que esse modelo que conhecemos hoje e que reinou por décadas pode sobreviver ainda ou está fadado a morrer?
O modelo baseado exclusivamente na venda de cópias físicas está sim fadado a morrer. É só olhar os números. Mas isso não quer dizer que ele não possa conviver com outras formas, métodos e modelos. Como dizem por aí, acredito que a indústria deixará de vender cópias para vender serviços.

– Qual é o melhor modelo de negócio com música?
O período de “caça ao novo modelo” está aberto já há algum tempo e eu realmente acho que não existe o modelo único, aplicável a todos. Isso é tudo o que a “velha” indústria quer: um modelo substituto que possibilite os mesmos ganhos de 20 anos atrás. Desse ponto de vista, é engraçado ver a dita “nova indústria” também entrar na caça ao modelo único. O paradigma é não ter mais paradigma. Vamos voltar a ter um relacionamento mais próximo com o artista e montar modelos customizados para cada um deles, de acordo com a fase da carreira em que ele se encontra e, mais importante, de acordo com sua proposta artística seja ela “indie” ou “mainstream”. E isso inclui tudo: direitos autorais, shows, produtos físicos e digitais, licenciamentos, parcerias com outras empresas, etc.

– Sobre a questão do download levatanda pelo Zero Quatro recentemente. O download de MP3 grátis pode ser prejudicial para bandas independentes também?
Acho que é mais prejudicial para os artistas pequenos e em início de carreira. O Radiohead está em um patamar em que pode perguntar quanto você quer pagar pelo download, pois uma base de milhões de fãs garante que pelo menos alguns milhares irão pagar. Além disso, no caso do Radiohead, também já estava previsto o lançamento do CD, da edição especial, da versão com as músicas que ficaram de fora, e mesmo que todos os milhões de fãs não tivessem pago pelo download, uma renda significativa estaria garantida com a venda desses produtos.

Apesar do discurso vigente de que as novas tecnologias de produção musical reduziram bastante o custo de gravação de um álbum (o que é relativo), a verdade é que uma produção com qualidade, em um bom estúdio, pagando todos os músicos, técnicos e equipe, montando um plano de divulgação mínimo, etc, tem um custo significativo que certamente não se aproxima do zero. Além disso, a “facilidade” de distribuição pela internet trouxe um outro problema que também requer investimento: chamar a atenção do público. Sinceramente, não acredito na fórmula “grave em casa, coloque no MySpace e aguarde o sucesso”. Isso é mentira. O único que ganha alguma coisa com isso é o MySpace.

De outro lado, acho que só um relacionamento mais próximo com a base de fãs, de uma forma em que ele se sinta “parceiro” da banda pode fazer com que ele pague alguma coisa pela música. Gosto muito de projetos como o Sellaband e o ArtistShare em que o fã é chamado para ajudar a financiar um álbum. Não é um modelo, mas uma ferramenta interessante.

– Tanto no lançamento do Cérebro como no do Jumbo vocês colocaram várias formas da pessoa comprar, ou até podendo baixar de graça, dependendo da qualidade do áudio. As pessoas pagam para baixar com mais qualidade?

No caso do Cérebro a estratégia estava voltada para uma gama de produtos físicos (ainda que também tenhamos disponibilizado versões digitais) que ia de um cartão de download, passando por duas versões do CD (uma mais simples e outra em embalagem digipack com conteúdos extras) e chegando a uma caixa com conteúdos exclusivos e tiragem limitada. Nesse projeto concluimos que existe público para cada um desses formatos. Todos os produtos venderam bem e, de certa maneira, a venda de cada um deles estava ligada ao tipo de relacionamento que a pessoa tinha com a banda. Os cartões de download venderam muito bem pela internet para um público que estava conhecendo a banda e as caixas venderam bastante para pessoas que já conheciam o Cérebro há mais tempo e queriam “possuir” algo exclusivo.

Para o Jumbo Elektro nos concentramos mais nos produtos digitais e, como disse antes, foi um “experimento” para ver como funcionaria. Até agora, pouco depois do lançamento, vendemos algumas unidades do MP3 em 320kbps e também do FLAC, além do CD que também vendeu. O WAVE ainda não saiu. Obviamente, o download gratuito é o mais procurado. Mas ainda é cedo para demais para avaliar.

– Acha que esse modelo é viável?
A estratégia usada para o Cérebro é viável e vamos repeti-la no próximo álbum. Dessa forma você atinge uma gama maior de consumidores que vai do cara que só quer conhecer a banda (e faz o download gratuito) até aquele que já possui alguma relação com o artista e quer guardar uma lembrança, levar um “souvenir”, seja ele o CD, uma camiseta, um adesivo, uma caixa ou um álbum digital com qualidade superior. No caso do Jumbo, precisamos esperar mais um pouco pra saber como a estratégia vai se comportar.

– Há quem diga que o download deve acabar em algum tempo, tudo vai partir pro streaming. Concorda? Como isso pode impactar esse modelo independente?
Eu acho que as coisas irão conviver. Download, streaming, CD, vinil, produtos de merchandise, etc. A somatória disso tudo é que possibilitará ao artista e seus parceiros obterem uma renda com o fonograma e com a “marca”.

– Você se posicionou contra o patrocínio público de arte no twitter. Por quê?
Não sou contrário às Leis de Incentivo, apenas fiz uma ressalva de que alguns  projetos financiados com dinheiro público deveriam ser como um Plano de Negócios no qual você precisa comprovar, a médio ou longo prazo, sua capacidade de auto-suficiência. Funcionaria, portanto, como um mecanismo de financiamento bancário ou via investidor só que a fundo perdido. Mas todas as obrigações e responsabilidade contidas em um Business Plan estariam ali e solicitações futuras estariam condicionadas à apresentação de resultados. Caso contrário, a lei não estimula a capacidade empreendedora do “proponente” e se transforma em um ciclo de dependência que condiciona a produção à captação de recursos. Contrapartida pra mim é capacidade empreendedora e de auto-suficiência. Por isso não concordo com os incentivos dados a grandes artistas como Ivete Sangalo e Caetano Veloso. Eles são auto-suficientes e, nesse caso, a lei funciona apenas como um mecanismo de aumentar a renda liquída desses artistas.

– Como fazer o financiamento então?
No início de um projeto, o financiamento pode – e talvez seja necessário – ser feito pelas Leis de Incentivo contanto que preveja a apresentação de um plano de auto-suficiência minimamente executável e que estejam definidas algumas responsabilidades básicas. O que me incomoda é o “ciclo da dependência” que essas leis acabam possibilitando.

– Por exemplo, o CD do Cérebro teve uma caixa especial com um monte de material especial. Fica muito caro bancar isso? E se paga só com venda?

É bom dizer que não usamos nenhuma lei de incentivo para o “Pareço Moderno”. A Phonobase e a banda financiaram o projeto todo com recursos próprios. Obviamente fica mais caro fazer as caixas do que simplesmente mandar prensar os CDs, mas nesse caso o projeto todo funcionou organicamente unindo a estratégia de marketing à concepção e venda dos produtos. Pensando somente na venda, após quase 2 anos do lançamento, o caixa ficou deficitário em cerca de R$4.000,00. Mas se contarmos as receitas com direitos autorais e shows, o projeto deu lucro. Com o Cérebro Eletrônico temos um plano de médio e longo prazo e nossa expectativa é que os produtos do próximo álbum da banda se paguem apenas com a venda. Isso está no Business Plan que fizemos para o Cérebro.

Entrevista – Eduardo "Xuxu"

setembro 24, 2009

Cassim Barbaria 2

(Cassim & Barbária, da esquerda para a direita: Marcio Silva, Xuxu, Cassim, Marcio Leonardo, Zimmer)

Eduardo “Xuxu” Vicari pode ser considerado, sem exagero, uma das principais figuras do rock catarinense em todos os tempos. Durante oito anos foi guitarrista, vocalista e o principal compositor da Pipodélica, a melhor banda de rock já surgida na terra do Guga – e dona de um dos dez melhores discos da década, Simetria Radial (2003). Desde o fim da banda no início de 2008, porém, ele tem se dedicado a alguns novos projetos, como o coletivo Insecta e, principalmente, à banda Cassim & Barbária.

Nascida da união da carreira solo de Cassim (ex-Bad Folks) com os remanescentes da Pipodélica Xuxu, Márcio Leonardo (baixo) e Heron (bateria), a banda já lançou um EP homônimo pelos selos americano BNS Sessions e brasileiro midsummer madness e tocou em festivais internacionais como o South By Southwest e Canadian Music Week. Nas palavras de Xuxu, a sonoridade da banda é uma “mistura inusitada de krautrock com canções de melodias fortes e sempre um pé correndo em direção ao experimentalismo. Ou seja, lindo!” A entrada de Zimmer (Ambervisions) na segunda bateria e programações

Mas Xuxu ainda guarda nas mangas um EP solo, Outro Doce, quase finalizado. As quatro músicas que estão no MySpace do músico mostram a usual preocupação com timbres e camadas, dando vasão ao lado mais experimental do cantor com os dois pés fincados no psicodélico. “Tempo ao tempo” é uma dessas baladas singelas que conquistam na primeira audição, quase uma canção de ninar de corações inquietos.

Às vésperas de viajar para o Canadá para dois shows, o guitarrista conversou com o blog por e-mail sobre o Cassim (agora com o baterista Marcio Silva), cena de Floripa, disco solo e uma possível volta da Pipodélica. O resultado você confere abaixo.

pipodelica
(Chutando traseiros com a Pipodélica no John Bull, em Floripa)

– Numa época em que boa parte das bandas brasileiras cantam em português, o Cassim & Barbaria canta em inglês. Vocês tem feito bastante shows fora do Brasil. A língua foi uma opção pelo mercado internacional?

Não foi opção, em que pese tenha ajudado a lançarmos o disco nos EUA pela BNS Sessions. Mas vale lembrar que formamos a Barbária a partir do trabalho solo do Cassim. Fundimos as duas coisas ao começarmos a tocar juntos. O Cassiano compõe mais em inglês naturalmente. Parece que é assim desde que tocou no Magog e ainda no Bad Folks. Mas não só. Catastrofismo, que fecha nosso show é dele, e é em português. Da mesma forma quando começamos a tocar juntos e vieram músicas em alemão e agora espanhol. É o que vem no disco que começaremos a gravar quando voltarmos do Canadá, em outubro.

– Defina o som do Cassim.

O do Cassim eu acho que tem a ver com a mentalidade quase atormentada do Cassiano, de querer fazer mil coisas ao mesmo tempo. Ao fundirmos com a Barbária, acabamos tomando um  rumo diferente. O Cassim & Barbária cada um entende de uma forma. Eu digo que é tudo muito pessoal ou digo que “acho” porque tratamos de música muito abstratamente. Particularmente, gosto de tocar nesse coletivo porque pra mim é uma mistura inusitada de krautrock com canções de melodias fortes e sempre um pé correndo em direção ao experimentalismo. Ou seja, lindo!

– O que mudou com a entrada do Zimmer na banda? E qual foi a importância disso?

Além de ser um elemento agregador muito forte, ele também tem uma dinâmica de trabalho administrativo diferenciada. Somos amigos desde criança, faz mais de 20 anos e trabalho com ele faz muito. Ter alguém com visão estratégica e capacidade de execução remando pro mesmo lado é excelente. Especialmente considerando que temos feito muitos shows no exterior e temos tido que lidar tanto com prazos e questões burocráticas quanto com a parte musical. Musicalemente falando, ele também acrescentou muito, porque tem uma visão artística fabulosa. Não é só informação enciclopédica. Tratamos de conceito profundamente. Ele acabou trazendo com ele a segunda bateria, que nos deu um punch fantástico e toda a bagagem do noise e música experimental, que é um universo que ele já faz parte há muito tempo, com ABESTA e outros projetos. Além de tudo, sempre que tenho dúvida em qual comida escolher, peço ajuda a ele…

– Depois de muito tempo como segundo guitarrista na Pipodélica, você assumiu a frente das guitarras no Cassim. O sentimento no palco é diferente?

Sim é muito diferente agora no Cassim & Barbária. E sinto-me muito mais à vontade, não sendo, por assim dizer “o centro das atenções”. Virei vocalista ou band-leader no Pipodélica por acaso. Não me sentia confortável naquela posição. Musicalmente ainda que eu também cante, tenho mais possibilidades de fazer ao vivo guitarras mais tortas e experimentais, porque não estou sempre fazendo vocais.

– Vocês lançaram um EP lá fora, primeiro, que depois foi lançado aqui no Brasil pela Midsummer Madness. Como surgiu esse contato lá fora?

Na verdade o EP foi lançado em parceria pela BNS Sessions de Nova Iorque e a midsummer madness aqui no Brasil. Foi prensado nos EUA pq saiu mais barato e estávamos indo fazer a tour lá. Mas trouxemos um monte na bagagem. São os que estamos distribuindo por aqui. O mundo independente dos EUA, ainda que mais avançado, não parece muito diferente do Brasil. O Cassiano conhece o dono do selo faz algum tempo, assim como conhecemos o Lariú aqui na midsummer e enfim, todo mundo se conhece de alguma forma. Gravamos o disco e mandamos pra ele ouvir. Ele gostou muito e quis fazer, encaminhando tudo pra que quando chegássemos, estivéssemos com o disco na mão. Mas agora o selo parece que faliu ou algo assim. Os americanos ficaram apavorados com “a crise”. Eles nunca viveram isso e parece que tiveram enormes dificuldades em lidar com contratempos financeiros. Enfim, estamos sem selo agora, acho. Mas isso não assusta. Faremos outra tour em março do ano que vem, ainda melhor. Com ou se selo.

– Qual a diferença dos shows lá fora para os aqui no Brasil?

Organização, equipos melhores e mais acessíveis, horários cumpridos e sempre cedo (o que viabiliza shows durante a semana, sem problemas). No entanto, o público é diferente. Parece mais frio e compenetrado.

– Tem planos de fazer mais shows pelo Brasil? Quando e onde?

Estamos com uma agenda extensa até o fim do ano. Ainda pode entrar uma ou duas datas, mas não muito mais pq estamos quase sem tempo pras outras coisas e também começaremos o disco novo, dessa vez um LP. A idéia é parar com tudo e gravá-lo no verão pra ter pronto quando retomarmos os shows em março, em outra tour americana. A agenda tá aqui. Encontre-nos em alguma dessas datas!

Cassim & Barbária – 2009/2

26/09 Florianópolis/SC @ Célula
30/09 Montréal/CAN @ Pop Montréal
09/10 Toronto/CAN @ Indie Week Toronto
31/10 Cuiabá/MT @ Festival Calango
05/11 Recife/PE @ TBA
06/11 Recife/PE @ TBA
07/11 Natal/RN @ Festival Do Sol
08/11 João Pessoa/PB @ Espaço Mundo
14/11 Florianópolis/SC @ Floripa Noise Festival

– É todo mundo experiente no cenário independente nacional. Isso faz muita diferença pra banda?

As vezes não. Por exemplo, eu nunca tinha tocado no exterior. Não tive problemas, mas é diferente. Mas é importante em mometos práticos, não ficar viajando muito em como gravar um disco, como fazer pra lançar, pra viajar. Mas mais do que experiência, acho que tem que estar todo mundo focado em objetivos semelhantes pros projetos evoluirem.

– Sobre Floripa. Como ta o cenário musical na cidade agora?

Eu vejo que atualmente é promissor, apesar de a cidade ainda ser muito isolada. Estamos articulando uma série de coisas, como por exemplo o SConectada que abrange os diversos coletivos de Floripa, mas também de outras cidades e que tem por objetivo criar redes de intercâmbio de informação num primeiro momento, tudo dentro das características tão peculiares de SC. O Zimmer tá a frente dessa empreitada e eu tô cuidando mais da Insecta, que nada mais é, a exemplo de outros ativos aqui, um coletivo produtor de cultura com enfoque na música independente de nicho (rock e música experimental). Nesse sentido, estou agora empenhado no planejamento do Floripa Noise, que acontece em novembro.

– O que a Insecta tem feito para movimentar?

Desde que criamos a Insecta, faz pouco mais de 1 ano, tivemos acertos e erros, naturalmente. Mas o intuito é achar um modelo de administração cultural de nicho (o nosso, rock e música experimental) que seja compatível ao nosso meio. Não adianta importarmos modelos de outros estados. Não vai funcionar aqui. Estamos no caminho certo, penso. Fizemos as Noitadas Monstro ano passado e o Floripa Noise. Este ano, fizemos mais três festas e agora estamos organizando o Floripa Noise 2009 – Experimente. Fora isso, estamos planejando o ano de 2010. De verdade, nesse fim de ano estou quase sem tempo pra dormir.

– Ano passado rolou o 1º Floripa Noise. Haverá uma edição esse ano? Como vai ser?

Sim, vai ter e vai ser muito melhor! Vamos fazer algo que queríamos desde o ano passado. Serão 10 datas, com eventos em diversos lugares da cidade. Teremos de Invasão 47, passando por uma edição do Música Livre até uma Noite do metal e noite hardcore. Enfim, tudo aquilo que gostamos por toda a cidade, envolvendo um monte de colaboradores e artistas legais daqui e de vários lugares.

– Você acha que um festival é fundamental pra cena da cidade?

Depende do tipo de festival. Daí vem a nossa mudança de escopo do Floripa Noise 2009 – Experimente. Não acho que aportar artistas de fora num lugar pra várias cabeças funcione aqui. Pra cá tem que ser evento de nicho. Talvez nem precisasse de um festival sob esse nome e sob uma data concentrada, propriamente. Enfim, depende de caso a caso. Sei que os modelos dos festivais especialmente do NE , Norte e Centro-Oeste não são assim. Mas cada meio é diferente e ninguém melhor que os produtores locais pra poder identificar essas características e adaptar seu evento.

– Como anda o disco solo? Tem previsão de lançamento?

Depois desse enxurrada de trabalho, optei por deixá-lo na geladeira um pouco. Não tenho pressa. Mas vou lançá-lo em algum momento porque gosto do conceito e do resultado que estou obtendo. Tem 4 músicas prontas lá no meu myspace – http://www.myspace.com/eduardoxuxu – A idéia é fechar um EP com 7 ou 8. Acabei também gravando solo uma música pro Tributo ao Álbum Branco lançado no ano passado, e pro Tributo ao Sgt Pepper´s que vai ser lançado agora. Ambas seguem mais ou menos a mesma estética das minhas composições que estarão nesse meu primeiro disco solo.

– O que você procurou fazer com o disco solo?

Basicamente dar vasão a composições que na época não cabiam do repertório do Pipodélica, de outros projetos e nem cabem no Cassim & Barbária. Em vista de suas características, queria explorar mais timbres mais sutis e um pouco de experimentalismo e acabei optando por tocar todos os intrumentos (exceto percussivos – que sou um desastre!), o que supriu outra lacuna do que eu sempre desejei fazer. Tenho gostado muito dos resultados.

– Não dá pra não perguntar: a Pipodélica fez alguns ensaios em setembro para tocar no Clube da Luta, mas o show acabou não rolando. Não deu vontade de fazer alguns shows completos de reunião? Vocês chegaram a falar sobre isso?

Somos todos amigos. Eu nunca me posicionei contra uma reunião nossa pra nos divertirmos e lembrar coisas boas. E acho que produzimos coisas muito boas. Tenho orgulho da nossa obra e imagino que eles também tenham. Por isso não tive problemas em ensaiarmos e não me oponho a fazer um ou outro show, se for o caso. Inclusive nossa reunião pra ensaiar foi divertidíssima e pareceu que eu nunca tinha parado de tocar aquelas músicas. Esse show que ia acontecer acabou não sendo possível porque o Cachorro (nosso batera) teve que viajar. No entanto, não vejo possibilidade de reunião pra trabalharmos juntos outra vez. Isso quer dizer: entrar em estúdio, arranjar, ensaiar com regularidade, viajar, etc. Temos enfoques musicais completamente diferentes hoje, suponho. Pra mim, não faz mais sentido algum.

Entrevista – Fernanda Takai

agosto 10, 2009

Quando lançou em 2007 o disco Onde Brilhem os Olhos Seus, Fernanda Takai colocava no mercado seu primeiro disco solo, com uma assinatura própria na sonoridade, mas ainda com um repertório preso em um artista só – Nara Leão, no caso. Assim, não é exagero dizer que Luz Negra, o registro ao vivo da turnê do álbum tem um gosto especial. O disco traz as principais músicas do disco e vários covers (e uma música própria) que Fernanda adicionou ao espetáculo a partir de seu gosto pessoal. “Agora as pessoas enxergam muito mais qual é o meu DNA musical.”

Luz Negra é a celebração de um momento especial da carreira de Fernanda. Mesmo após mais de 15 anos à frente do Pato Fu, ela conta que nunca teve tanto reconhecimento antes. “É curioso, mas parece que quando você é vocalista em uma banda você não é uma cantora. Ao sair em carreira solo você fica disponível para outros convites, e se descola da visão de que só canta coisas autorais”, reflete. Assim, ela acabou participando de shows especiais como o dos 50 anos da Bossa Nova, e o CD alcançou públicos que antes não a conheciam tanto.

A mudança de comportamento na carreira solo vai além. Fernanda ressalta a maior liberdade que teve ao definir os rumos do projeto. “Numa banda você tem que sempre obedecer à democracia, ouvir a opinião de todo mundo – e respeita-la.” Esse lado mais solto da cantora se refletiu na presença de palco, pois nos shows solos Fernanda acaba interagindo muito com o público e assumindo uma posição de crooner. “Esses shows foram um bom desafio, tenho que ter um exercício de concentração muito maior para subir ao palco e desempenhar meu papel. Cantar pop-rock é bem mais fácil”, analisa.

Além do CD, Luz Negra também sai em DVD. O repertório das duas mídias, no entanto, é diferente. Enquanto o registro visual traz todas as músicas de “Onde Brilhem os Olhos Seus” mais as adicionadas durante o processo do show, o CD traz apenas sete músicas do disco de estúdio. “Para um disco ao vivo funcionar ele tem que trazer algo que o de estúdio não tem. Por isso fiz questão de colocar todos os bônus do show e manter a espinha dorsal de Onde Brilhem”.

Entre os covers incluídos nos shows se destacam “Ordinary World”, do Duran Duran – uma das bandas favoritas de Fernanda -, a linda “There Must Be An Angel”, do Eurythmics e a homenagem a Michael Jackson com “Ben” – vale lembrar que o disco foi gravado um mês antes da morte do cantor e a música estava no repertório do show desde o começo da turnê. O disco traz também uma única música de autoria de Fernanda em parceria com o marido e guitarrista John. “5 discos” é inédita na voz de sua compositora, mas já havia sido registrada antes por Pedro Mariano.

Mesmo com todo o sucesso alcançado com o projeto, Fernanda não tem planos de continuar com a carreira solo. As únicas certezas no momento são que ela terminará a turnê, o que deve acontecer perto do carnaval de 2010. Em setembro mesmo ela e os outros músicos do Pato Fu já começam a se reunir para iniciar o processo de gravação do disco novo da banda, que deve sair no primeiro semestre do próximo ano.