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Sobre trilhas sonoras pessoais

dezembro 3, 2011

Se, em um sem número de anos, algum pesquisador da história da música brasileira perguntar, com curiosidade genuína, “qual foi a melhor coisa que aconteceu em 2011 no país?”, a resposta certa será, sem dúvida, Pedro Bonifrate.

Para os incautos, no entanto, é importante salientar que Bonifrate não é novidade. Na ativa desde a primeira metade da década passada, ele é líder do Supercordas, uma das bandas mais engenhosas e inventivas de nosso tempo. Tampouco seu “Um Futuro Inteiro”, grande álbum de 2011, é artigo novo: o cantor possui uma prolífica produção solo, paralela à banda, que reúne dois álbuns e um infinito de canções.

(“Apenas o Fim”, estreia de Matheus Souza na direção e espécie de filme da geração Los Hermanos, possui duas músicas de Bonifrate. “Unicórnio em 2D” e “Rumo à Lua”, intercaladas em momentos chaves da trama, funcionam tão bem quanto a música dos próprios Hermanos que fecha a película).

Mas se as tintas oníricas da psicodelia dão o tom do trabalho na banda, quando solo Bonifrate se desenha mais cru e natural, com um pé e meio no folk. No entanto, convém avisar: sim, há influência de Dylan, principalmente nos primeiros discos, mas para entender “Um Futuro Inteiro” é necessário mirar mais ao nordeste do Brasil e encontrar Belchior.

Bonifrate é um tipo de compositor raro nos dias de hoje: aqueles que não encerram um único significado em cada canção. “Um Futuro Inteiro” é, em sua gênese, um disco sofrido de amor, mas poderia muito bem ser a trilha sonora da Primavera Árabe, por exemplo. Uma “Farsa do Futuro Enquanto Agora”, como diz o título de uma das composições. Em toda sua carreira, Bonifrate se vale de imagens abstratas para criar metáforas universais, trilhas sonoras pessoais.

A síntese da safra atual está em “Cantiga da Fumaça”, música de “Um Futuro”. Partindo de terra arrasada (“as ruas andam vazias, o bonde sem condutor”), Bonifrate cria em quase seis minutos um hino de renovação pessoal e coletiva. Se há quem diga que não existe amor em SP – ou em qualquer outro lugar -, o cantor propõe aqui uma alternativa: pega tudo que quiser, guarda na memória e se una com sua gangue de almas destemidas. É hippie ao extremo, mas de forma natural.

“Cantiga da Fumaça” tem a aura daquelas canções que encerram ciclos. Culpa, talvez, da simplicidade do aranjo, levado por um violão lento e pontuado por frases longas e sentimentais de harmônica. Soa como Dylan em 65 com “Like a Rolling Stone”. Não que Bonifrate tenha tais pretensões, e nem é o caso de se ater ferrenhamente à comparação. A época é de revoluções pessoais, íntimas, particulares. Exatamente como sugere a canção.

A foto é da Katia, lá do Flickr da Alavanca

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