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Novos adultos, pessoas velhas?

outubro 15, 2011

Estava lendo um post lá no Febre Alta quando bateu aquela vontade, por motivos óbvios, de ouvir Walverdes. Fui direto no “Anticontrole”, não sem antes dar aquela paradinha pra curtir o esporro urgente de “Câncer”. Guitarra no talo é bom pra dar uma animada numa tarde chuvosa de sábado.

Foi quando eu me liguei que o Walverdes não fez nenhum show decente de lançamento do “Breakdance”, de 2010, em São Paulo. Eu lembro que eles tocaram em algum lugar tosco em um dia de semana que não deu público (Outs, muito provavelmente), não gostaram nada da apresentação e queriam voltar. Desde então, Mini (guitarra e voz), Patrick (baixo) e o Marcos (bateria) ainda não pisaram em um palco de São Paulo (o Marcos pisou, mas foi com a Bidê, o que é outra história).

Fuçando no YouTube eu achei o vídeo que abre o post, gravado pelo Palugan num show de novembro de 2005. “Playback”, o quinto disco da banda, tinha sido lançado em setembro do mesmo ano. Eu não estava lá (ainda fazia faculdade em Floripa), mas pelo que dá pra perceber tinha uma galera assistindo na primeira fila (já reparou como ninguém mais fica na beira do palco vendo show em São Paulo?), curtindo e cantando junto.

Por que em 2005 o Walverdes fez um show de lançamento decente em São Paulo e em 2010 não? “Breakdance” saiu pela Monstro, teoricamente maior gravadora independente do Brasil. Quem mudou: o público? A banda (apesar de não terem limpado o som)? Os produtores? Ou todo mundo? De certa forma, como disse uma amiga, é bem difícil envelhecer no rock.

Lembrei na hora da nova coluna do Álvaro na Folha. Sem entrar no mérito musical, o APJ foi certeiro na resposta à matéria da própria Folha. Entre outras coisas, o Álvaro fala sobre o circuito de shows independentes em São Paulo e no Brasil. Pegando o exemplo do Walverdes, me parece que hoje em dia pouca gente no meio arrisca algo. Vivemos num cenário conservador, cheio de novos adultos.

Eu sei que quando se mexe com dinheiro, principalmente o do próprio bolso, a coisa é complicada. Tive uma curta carreira de produtor em Floripa. O primeiro show deu lucro de R$ 800, o segundo prejuízo de R$ 1 mil. Antes que a conta ficasse mais vermelha, percebi que aquela vida não era pra mim. Não sou arrojado no que diz respeito a finanças. Parei de mexer com produção e fui cuidar da carreira como jornalista, mas sem sair da área.

Para mim, trabalhar com produção é um jogo arriscado. No começo você vai tateando, lucra num dia, perde no outro, e assim vai aprendendo com os erros. É uma aposta, principalmente se você não tem grana sobrando, mas acredito que com competência, um bom tino comercial e, claro, sorte (porque ninguém chega a lugar algum sem um pouco dela), mais cedo ou mais tarde é possível se dar bem no ramo.

Aí é que a porca torce o rabo, com o perdão do bordão clichê. Uma vez estabelecido, você pode continuar fazendo algumas apostas ou simplesmente trabalhar com o que sabe que vai dar dinheiro. Meu lado esquerdinha já se foi há um bom tempo para condenar quem opta pela segunda opção: vivemos no capitalismo e, bem, se o seu negócio é ganhar dinheiro e você sabe como, não há nada de errado. É só não querer passar por vanguarda.

O Walverdes, formado em 1993, é representante de uma outra geração, quando a estrutura do indie era diferente e mais precária – a rede de festivais independentes, por exemplo, era bem menor. Continuam lançando discos, fazendo alguns poucos shows, mas já assumiram a vida fora da música como a principal. De certa forma, dá para dizer que o único sobrevivente dessa turma é o Autoramas, que continua vivendo só de música desde os anos 90.

É óbvio que o tema é mais complexo, profundo e não se encerra neste texto – envolve formação de público, por exemplo -, no do Álvaro ou no da Folha, mas uma pergunta fica: agora que a estrutura do cenário melhorou, quantos artistas dessa geração vão sobreviver pelos próximos 15 anos?

“Como confiar em alguém que só fala de trabalho?
Que descobre bossa nova e se acha muito cool
Que nunca entende por que ando descabelado
Gasta em decoração em vez de comprar discos legais

Novos adultos, pessoas velhas”

Para salvar um domingo

março 30, 2008

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O Wonkavision faz parte de uma geração do indie nacional que já foi. Formado em 2000 em Porto Alegre, é contemporâneo da geração gaúcha que prometia arrebatar o país lá por 2001 – mais notadamente Bidê ou Balde e Video Hits. Os sulistas não conquistaram o Brasil – apesar do sucesso de “Melissa”, do BoB, que ganhou VMB e tudo – e assim o Wonka habitou as “cabeças” da cena underground no início da década, dividindo o posto com nomes como Mopho, Pipodélica e Autoramas. Dessas, notadamente apenas o Autoramas se mantém com projeção até hoje.  A Pipodélica acabou (mas está com disco novo, mais tarde eu falo dele aqui) e o Mopho não lança disco há um bom tempo.

E o Wonkavision? Manu e Will estão morando em Londres, o que quer dizer que a banda não faz shows. No entanto, eles colocaram a versão em inglês de seu CD de estréia (lançada apenas no Japão) para download no Trama Virtual, relançaram o primeiro disco com seis faixas bônus (versões acústicas inéditas de “Nanana” e “Quando 16”, mais “Powerbossa”, “Ah, É Assim?”, “Super-homem” e “Amigo por um dia”, resgatadas das demos) e, desde janeiro, colocam uma música do CD novo por mês, de graça, para download no site oficial. Até o final do ano todas as 12 faixas estarão lançadas como singles independentes.

Não há nada de novo no som apresentado, o mesmo powerpop à The Rentals que notabilizou os gaúchos durante sua trajetória. “Double Dealing”, faixa de fevereiro, é inclusive bem sem graça, fraca perto da produção anterior do grupo. É em “O Ímpar Perfeito”, música de janeiro, que reside o poder ainda atual do Wonkavision. Dona de uma daquelas letras de Will que falam sobre rejeição (“diz que eu não passo de um topa-todas/que não chega a nenhum lugar/despreza o meu pouco estudo”), amores difíceis, que resulta num refrão grudento e redentor (“deve ser porque/quando ninguém vê/ mesmo sem querer/eu sou o ímpar perfeito pra você”). Não chega a ser algo que vá mudar a vida de alguém, mas pode, perfeitamente, salvar qualquer domingo nublado.