Posts Tagged ‘marcelo camelo’

A grande chance de Rodrigo Amarante

outubro 10, 2011

É engraçado que gostar de Los Hermanos hoje em dia tenha virado quase uma vergonha. Perceba em qualquer conversa que aborde o grupo e que envolva mais dos que quatro ou cinco pessoas: automaticamente os detratores falarão mais alto, ridicularizando a banda e seus fãs fiéis. Será inevitável que os dois ou três que gostem do quarteto a defendam, mas geralmente sem muita convicção. Uma situação que pode mudar com o provável lançamento do disco solo de Rodrigo Amarante em 2012.

Convenhamos, no entanto, que nos últimos anos os fãs de Los Hermanos não têm realmente muito do que se orgulhar. “4”, derradeiro disco da banda, era extremamente irregular e mostrava a dupla central criativa cada vez mais distante: enquanto os bons momentos vinham do ensolarado Amarante – como em “O Vento” -, Camelo estava cada vez mais introspectivo – como em “Dois Barcos”. O abismo era tão aparente que os próprios perceberam e, ao se unirem para gravar o quinto disco, em 2007, preferiram separar a banda por tempo indeterminado a lançar um trabalho ruim.

Cada um seguiu seu caminho sem ressentimentos e mantendo a amizade – os shows de reunião, tanto no SWU como abrindo para o Radiohead, mostram isso. Camelo demorou um pouco, mas lançou seu aguardado primeiro disco solo, “Sou”, que comprovou o que todos temiam: as músicas eram ainda mais arrastadas e herméticas que as composições do “4” – em outras palavras, era um disco chato. Ele ainda lançou um MTV Ao Vivo que ninguém deu bola e veio com “Toque Dela”, um álbum mais fácil, porém esquecível, no início deste ano. Por mais que ainda mantenha sua relevância na música nacional, Camelo foi mais importante no noticiário nestes anos fora do Los Hermanos devido às comparações com Polanski.

Amarante, artisticamente, também não fez muita coisa. Lançou um disco com a Orquestra Imperial e um com o Little Joy, além de manter viva sua colaboração com Devendra Banhart. Nada que realmente demonstrasse a que veio: “Carnaval Só Ano que Vem”, o registro da Orquestra, é um belo disco, mas resultado de um enorme trabalho coletivo; “Little Joy”, a parceria com o baterista do Strokes Fabrizio Moretti, une um monte de musiquinhas bonitas e agradáveis, mas completamente inofensivas.

O disco que deve sair em 2012 é, de fato, o momento em que Amarante mostrará finalmente suas ideias musicais. Não adianta especular sobre como o disco virá: os trabalhos pós-“4” pouco trazem pistas estéticas atuais de Amarante. De acordo com o Mauricio Valladares, no programa Ronca Ronca da OiFM, o cantor volta ao Brasil no início do ano que vem e deve liberar o disco em março. Uma vez anunciado, porém, ele já se torna um dos lançamentos mais aguardados de 2012.

Afinal, por mais que hoje o grupo seja ridicularizado por seus detratores, o Los Hermanos é a banda mais importante da década 00 no Brasil. Excluindo Emicida, os tecnobregas e o CSS e seus sub-filhotes, absolutamente todo mundo que surgiu no cenário independente após 2001 deve algo ao Los Hermanos. “Bloco do Eu Sozinho” é um marco histórico: foi o disco que fez toda uma geração perder a vergonha de ouvir samba e música popular brasileira.

A revolução involuntária hermânica só foi possível, é óbvio, porque tanto “Bloco” quanto o disco seguinte, “Ventura”, eram duas obras sensacionais – o disco de estreia, homônimo e mais esporrento, também é brilhante –, unindo lirismo com peso e vigor, melodias doces com letras acima da média. Além disso, souberam criar uma relação íntima e direta com o público, uma equação que gerou fãs tão fieis que as apresentações da banda sempre foram marcadas pela plateia cantando mais alto que a banda.

O culto ainda existe. No show do SWU do ano passado, mesmo separados do palco pela área VIP os fãs se faziam escutar durante músicas como “O Vencedor” e “Cara Estranho” – os confetes e serpentinas usuais foram poucos, mas estiveram presentes. A claudicante apresentação de Camelo no Rock in Rio deste ano só foi salva por “Além do que se Vê”, uma das grandes músicas de “Ventura”. E, desde o começo do ano, Rodrigo Barba tem tocado o “Bloco” na íntegra com uma banda que inclui os metais da época dos Hermanos e Gabriel Bubu, que acompanhava a banda, na guitarra. Os relatos são de que shows no Teatro Odisseia, no Rio, têm filas enormes do lado de fora. Quem não consegue entrar fica cantando na porta, junto – o vídeo abaixo mostra um pouco da comoção.

Depois do estouro de “Anna Julia”, o Los Hermanos nunca voltou a ser mainstream, mas se tornou a maior banda do underground, sendo responsável direta pelo aumento de público dele. Durante uma conversa no ano passado, Fabrício Ofuji, produtor do Móveis Coloniais de Acaju, comentava a ausência do Los Hermanos do cenário. “Teria sido melhor se eles tivessem continuado, muita gente parou de ouvir coisas novas quando eles acabaram”, disse, frente à questão de se o Móveis teria “herdado” muitos fãs do quarteto.

Muito se questiona hoje sobre qual o próximo estágio da atual geração do independente brasileiro. Há uma percepção de que o público existe, mas a pergunta é: o tamanho da cena e a popularidade dos artistas são suficientes? Ou é necessário um passo adiante em termos de visibilidade? Mais ainda: como dar esse próximo passo em busca de um público maior? Dependendo da qualidade e do desempenho, talvez a resposta para o dilema esteja no disco solo de Amarante.

As fotos do show do Los Hermanos no SWU são da Liliane Callegari

Anúncios

Sobre os barbudos

setembro 20, 2008

Não, este não é um post para defender aqueles que apreciam deixar crescer pêlos na cara ou sobre o fato de eu ter pensado em tirar minha barba nas últimas semanas – já faz um ano e meio que ela me faz companhia. Estou aqui para falar sobre este singelo vídeo.

É a participação da Mallu Magalhães no show do Marcelo Camelo, ontem, no festival No Ar Coquetel Molotov, em Recife. A música é “Janta”, do primeiro álbum solo do ex-Hermano, Sou, recentemente lançado – e que conta com a participação de nossa menina prodigio na já citada canção. A música não é nada demais, bem fraquinha, diga-se de passagem – eu não ouvi o disco inteiro ainda, baixei apenas hoje (tem coisa mais interessantes pra ouvir, como o novo do Oasis) – mas o que impressiona é o público abafando a voz do Camelo, no melhor estilo show do Los Hermanos. Sim, eu já fui a shows dos Los Hermanos e sei que isso era super comum, e fica mais do que provado no disco mais recente deles, recém-lançado também, com a apresentação de despedida na Fundição Progresso, no ano passado. Mas em uma apresentação solo de um disco com menos de um mês?

O vídeo confirma um certo messianismo que a banda ganhou durante a década, muito por sua estreita relação direta com os fãs – tem a velha história de que a “parada por tempo indeterminado” foi anunciada sem comunicado à imprensa, direto no site e endereçada aos fãs, porque era a eles que ela interessava. É algo que só tem comparação, num passado recente do BRock, com a Legião Urbana. Mas com algumas pequenas diferenças. Os discos solos de Renato Russo não tiveram a mesma recepção, mas tudo bem, ele não fez shows e os projetos eram bem específicos, discos de covers em outras línguas (sem duplo sentido, plis). E principalmente porque o Legião sempre foi mainstream, e os Hermanos deixaram de o ser depois de “Anna Julia”.

Recentemente eu tive essa discussão sobre os Hermanos e o mainstream com o Matias na Poplist. Ele dizia que a banda lota qualquer casa média de shows do Brasil. Não discordo, eles levam no mínimo umas duas mil pessoas em qualquer show que fizerem em cidades médias ou grandes do Brasil. Agora, se eles voltarem um mês depois à mesma cidade, a chance de o público ser exatamente o mesmo é grande – afora São Paulo e Rio, mas aí estamos falando de cidades enorme (SP em especial). Fora do circuito indie pouca gente conhece os Hermanos. Falo isso por amigos meus de Curitibanos, lá no interior de Santa Catarina, que nem sabem que eles lançaram CDs depois de “Anna Julia”, e são pessoas que conhecem NX Zero, Pitty e toda essa cena emo e de rock adolescente – sinceramente não sei se eles manjam o Cachorro Grande. Estamos falando de um país de 180 milhões de habitantes, onde, sei lá, uns 50 mil ou pouco mais devem conhecer os discos recentes e ser fãs de Los Hermanos – se é que chega a esse número. E vamos combinar que isso está bem longe de ser mainstream.

Ah, e esse vídeo prova minha teoria de que se os Hermanos lançarem, em grupo ou em carreira solo, um disco composto todo por peidos um monte de gente vai achar genial.

P.S.: Pelas primeiras ouvidas, esse disco do Oasis me parece um disco que o Supergrass poderia ter lançado após o Road To Rouen. O que é um puta elogio.